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segunda-feira, 31 de julho de 2017
A infancia
"A infancia é o centro crucial do furacán da vida."
[traduzido por Manuel Miragaia Doldan]
"A infância é o centro crucial do furacão da vida."
Delmar Maia Gonçalves
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Poesia traduzida para Galego
SILÊNCIO
SILÊNCIO
Na opresión hai un silencio intensamente ruidoso
[traduzido por Manuel Miragaia Doldan]
SILÊNCIO
Na opressão há um silêncio intensamente ruidoso.
Delmar Maia Gonçalves
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Poesia traduzida para Galego
FUNERAL DA VERDADE
FUNERAL DA VERDADE
Nai!
Vou
ao funeral
da verdade
Que a mentira
é o rostro
dos homes
que plantan
a cidade!
[traduzido por Manuel Miragaia Doldan]
FUNERAL DA VERDADE
Mãe!
Vou
ao funeral
da verdade
Que a mentira
é o rosto
dos homens
que plantam
a cidade!
Delmar Maia Gonçalves
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Poesia traduzida para Galego
Ah! Se eu poidese
Ah! Se eu poidese
Se eu poidese medir a miña
indiferenza
Ah! Se eu poidese
Entón si, quizá fose un
Poeta de "vanguarda"
Daqueles que
escriben
lonxe de todo, sobre todo
Daqueles que escriben pedra
no canto de corpo
Daqueles que parecen fríos
e son o que parecen
Mais estar aqui non é iso
e eu estou aquí.
[traduzido por Manuel Miragaia Doldan]
Ah!Se eu pudesse
Se eu pudesse medir a minha
indiferença
Ah!Se eu pudesse
Então sim, talvez fosse um
Poeta de "vanguarda"
Daqueles que
escrevem
longe de tudo, sobretudo
Daqueles que escrevem pedra
em vez de corpo
Daqueles que parecem frios
e são o que parecem
Mas estar aqui não é isso
e eu estou aqui.
Delmar Maia Gonçalves
Se eu poidese medir a miña
indiferenza
Ah! Se eu poidese
Entón si, quizá fose un
Poeta de "vanguarda"
Daqueles que
escriben
lonxe de todo, sobre todo
Daqueles que escriben pedra
no canto de corpo
Daqueles que parecen fríos
e son o que parecen
Mais estar aqui non é iso
e eu estou aquí.
[traduzido por Manuel Miragaia Doldan]
Ah!Se eu pudesse
Se eu pudesse medir a minha
indiferença
Ah!Se eu pudesse
Então sim, talvez fosse um
Poeta de "vanguarda"
Daqueles que
escrevem
longe de tudo, sobretudo
Daqueles que escrevem pedra
em vez de corpo
Daqueles que parecem frios
e são o que parecem
Mas estar aqui não é isso
e eu estou aqui.
Delmar Maia Gonçalves
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Poesia traduzida para Galego
sexta-feira, 14 de abril de 2017
ИЗГНАННИК ИЗ АФРИКИ Я
ИЗГНАННИК ИЗ АФРИКИ Я
отверженный
в поиске
гавани тихой
(Poema traduzido por Tatiana Karpechenko)
__________
NÁUFRAGO FRICANO
Sou um náufrago
em busca
de porto seguro!
Delmar Maia Gonçalves
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Poesia traduzida para Russo
quarta-feira, 15 de junho de 2016
Mulato
MULATO
Kia kondiĉo
Estas ĉi tiu
Esti ĉi estulo...!
Por esti plene Afrikana
Mi devas konsenti esti
Kio mi ne estas
Por esti tute Eŭropana
Devas mi ŝajnigi kaj
provi esti tio kio
mi ne estas
Kia dilemo ĉi tia
esti tio
kio mi estas
estanta tio
kio mi ne estas!Poesia de Delmar Maia Gonçalves
traduzido para Esperanto por
João José Santos
Lisboa, 2016-03-22
MESTIÇO
Que
condição
Esta de ser
O que sou…!
Para ser
Africano pleno
Tenho de
admitir ser
O que não
sou
Para ser
Europeu de corpo inteiro
Tenho de
fingir e
Procurar
ser o que
Não sou
Que dilema
este
De ser
O que sou
Sendo o que
não sou!
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Poesia Traduzida para Esperanto
Vulkano
VULKANO
Estas Vulkano en erupcio
Ene de mi
Estas krateroj kaj grotoj profundaj
Formitaj el sango kaj lafo!
La reliefo de mia spirito
Havas pli
da pikoj ol pintoj!Poesia de Delmar Maia Gonçalves
traduzido para Esperanto por
João José Santos
Lisboa, 2016-03-22
VULCÃO
Há um
Vulcão em erupção
Dentro de
mim
Há crateras
e grutas profundas
Formadas de
sangue e lava!
O relevo do
meu espírito
Tem mais
picos que cumes!
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Poesia Traduzida para Esperanto
Homoino
HOMOINO
En Homoino
Destiliĝas larmoj
En vaporo
De tempo
De kugloj.Poesia de Delmar Maia Gonçalves
traduzido para Esperanto por
João José Santos
Lisboa, 2016-03-22
HOMOÍNE
Em Homoíne
Destilam-se lágrimas
No vapor
Do tempo
Das balas.
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Poesia Traduzida para Esperanto
sábado, 4 de abril de 2015
Sobre a ANTOLOGIA POÉTICA “NA MARGEM DO SILÊNCIO E ALGUMA ABSTRACÇÃO”
POSFÁCIO
Sobre a ANTOLOGIA POÉTICA “NA
MARGEM DO SILÊNCIO E ALGUMA ABSTRACÇÃO”
Uma Jornada poético-literária dos
afectos de longo curso
Pediu-me o Poeta LINO MUKURRUZA
que escrevesse um posfácio desta interessante Antologia. Uma grande empreitada
que assinalo, de que muito me orgulho e me apraz registar.
Sem querer diminuir ou excluir
ninguém, pois são todos igualmente importantes e indispensáveis e sendo um
espírito livre, destacaria sem dúvida a nova vaga de jovens escritores e poetas
Moçambicanos que representam inegavelmente o porvir da Literatura Moçambicana :
MUKURRUZA ( o idealizador e coordenador
da obra), que bons olhos o vejam e guardem; TARUMA ; ARIJUANE; QUIVE; MUCAVELE;
JOSHUA; DAU; LINEU; LEVENE; MILITAR; WAMBIRE, entre outros (kanimambo vida que
os trouxe aos meus sentidos), cuja verve
revolve as entranhas da Moçambicanidade e “revoluciona” e renova a poética Moçambicana e quiçá das comunidades que se expressam
na Língua Portuguesa escrita e também falada e cantada.
ANDRÉ BRETON tinha razão quando
afirmou insistentemente que a escrita automática é um dos meios mais seguros
para devolver à palavra a sua inocência e o seu poder criador original. Já os
Poetas VIRGINIA WOOLF e RAINER MARIA RILKE haviam falado dessa necessidade.
E como precisamos de um olhar despretensioso,
descomplexado, renovado, renovador e desempoeirado na poesia…! Alguém duvida?
Basta ler, escutar, sentir e
conseguimos ver.
Como disse ABDUL KARIM “Um
anarquismo integral de produção natural, será a forma que se antevê irá ser
escolhida pela humanidade emancipada.”
Todos sabemos que o pensamento
globalizante ou globalizado tem sido massivamente impregnado e perversamente
estruturado pela lógica do “terceiro excluído”, dito por outras palavras pela
lógica da disjunção e da exclusão. Mas nós sabemos também que a vida não deve
funcionar segundo esta lógica. Há outros caminhos e a nossa incerteza é a nossa
certeza.
Ninguém duvide portanto, digo eu
, que a inteligência dos Poetas precisa
de viver num mundo mais amplo do que aquele que nos oferecem.
No fundo a liberdade criativa
empurra-nos para a ideia de ANA HATHERLY que afirma “Tornei a minha escrita ilegível,
a fim de poder observá-la apenas gestualmente.”É preciso humildade para que tal
suceda. Apagar-se sem desaparecer para iluminar a palavra.
Nos cruzamentos encontros,
desencontros e reencontros a poesia se faz respiração.
Poeta quer dizer possesso. Não
devemos confundir os artistas do verso com os criadores da poesia. Os primeiros
interessam somente à Literatura, ao passo que os segundos têm um interesse indubitavelmente
vital e universal como uma flor silvestre ou uma estrela polar.
Os jovens Poetas e Escritores Moçambicanos
já deram o prolífico grito poético que não é do Ipiranga mas será certamente de
Lichinga, de Maputo, de Quelimane, da Beira, de Nampula, de Inhambane, de Xai
-Xai, de Tete, de Pemba, de Chimoio e que fraternalmente abraçam como um
ciclone de poesia em fogo Angola, Brasil e Portugal.
São estas pontes que potenciam o
fluir frutuoso das margens onde se juntam vozes, discursos e sensibilidades múltiplas
e diversas ligando três continentes (África, América e Europa). A palavra escrita
será sempre ouro para o futuro se a semente for lançada em território fértil.
Que a poesia fale e cante sobre o milagre criativo e da vida que é magia pura e
transparência enigmática.
Embora como vate moçambicano na diáspora
reconheça que meu barco navega sem proa tal como a fértil e prolífica poesia
Moçambicana de que me reivindico migalha, é órfã de três bússolas icónicas incomparáveis:
NOÉMIA DE SOUSA, JOSÉ CRAVEIRINHA e EDUARDO
WHITE. Mas são essas mesmas bússolas que servem de orientação para que
as pontes aconteçam e fluam em jangadas de poesia em brasa, como esta Antologia
cujo mérito deve ser atribuído por completo ao vate MUKURRUZA.
Indiscutivelmente somos sem rebuço o que comemos.
Ficará pois nas encruzilhadas o
aviso às opiniões e juízos de críticos altivos e pretensiosos que se
autodenominam eruditos, de que a poesia não tem amos. O que vem da alma
criativa não pode ser acelerado desregradamente em lume brando mas também não
pode ser precocemente cerceado da liberdade do parto. Como disse o Poeta
Português ANTÓNIO MARIA LISBOA : “A seta já contém o alvo, mas só percorre a
seta aquele que lhe conhece o alvo ; assim é de olhos vendados que o grande
atirador alveja.”
Ninguém é marginal ou paralelo a
nada, principalmente na Literatura.
Bayete Poetas!
DELMAR MAIA GONÇALVES
(ESCRITOR e PRESIDENTE DO CÍRCULO
DE ESCRITORES MOÇAMBICANOS NA DIÁSPORA)
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Posfácios
Sobre "Contando até Dez" de Rejane Machado
A obra “CONTANDO ATÉ DEZ” de REJANE MACHADO, uma Escritora Carioca, navega tranquilamente pelos turbulentos mares da crítica literária, percorre serena as pistas pacíficas da autoajuda, vagueia docemente pelo território das receitas culinárias e desagua nas crónicas de vida revelando o prazer de quem escreve e voa livre degustando, e bem, as palavras, uma espécie de ladrilhadora da palavra. Opção, decerto, arriscada, mas calculada e acertada.
Nas suas sábias palavras, propositadamente e pela primeira vez não se esconde por detrás de personagens que vai inventando, reinventando, criando e recriando na sua já longa, vasta e prolífica produção literária.
Valerá a pena descobri-la e redescobri-la nos múltiplos caminhos que percorre.
É que há palavras que são como os seixos; há palavras que são como o mar. E o mar como sabeis chega ao infinito.
Muito haveria a dizer sobre a obra e a autora mas “as palavras são tão densas que prefiro suprimi-las”.
Bayete.
DELMAR MAIA GONÇALVES
(ESCRITOR E PRESIDENTE DO CÍRCULO DE ESCRITORES MOÇAMBICANOS NA DIÁSPORA)
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Prefácios
"Da Raiz (transparências)"
BREVE ANOTAÇÃO SOBRE O LIVRO
“Quando estou na Poesia tudo se torna mais
claro”. Ainda bem.
É essa a sina do Poeta. Por isso,
não admira o seu objectivo afirmado e reafirmado “Afastar a mágoa do
mundo/Quero/Quero muito” e é natural que, de tanto pensar, conclua sabiamente
“Há um tempo para tudo/Por isso, às vezes não penso/Faz-me falta não pensar”.
E como sabeis a poesia é vida.
Vida que nos vai inspirando no seu encanto e desencanto num mundo onde cada vez
mais reinam desumanos mascarados de humanos.
Daí a impossibilidade do
não-pensamento num Poeta, que é tragicamente um fiel guerrilheiro da verdade
que busca incessantemente.
Objectivamente as obras
literárias como todas as obras de arte são de uma solidão infinita, mas
trazem-nos a beleza e o espanto e, ainda, a riqueza da nossa singularidade
poética no mundo. Com esta Poeta que se vai afirmando não poderia ser
diferente.
A candura da sua suave poética
revela-nos o ser que nela habita e que serenamente vai lendo o mundo de forma
muito particular e única, porque como diz convicta “Há dias em que trago o mar
dentro de mim”. E o Mar meus senhores, o Mar…, quem pára o Mar?
DELMAR MAIA GONÇALVES
(Escritor e Presidente do Círculo
de Escritores Moçambicanos na Diáspora)
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Textos contracapa
Antologia Fernando Pessoa e Convidados
NOTA DE APRESENTAÇÃO
Fernando Pessoa foi um importante poeta português, considerado hoje uma das figuras maiores das literaturas escrita, dita e falada em Língua Portuguesa.
Nasceu a 13 de Junho de 1988, às treze horas e vinte minutos, no Largo de São Carlos nº4, 4º Esquerdo, em Lisboa, filho de Nogueira Pessoa, natural de Lisboa, 38 anos de idade e de Maria Magdalena Pinheiro Nogueira de 26 anos de idade, natural da Ilha Terceira no Açores. Estes pormenores não seriam importantes, não fora o poeta um ilustre esotérico. Seu pai, funcionário público do ministério da justiça era crítico musical, e quando morreu deixou-o com apenas 5 anos de idade. Aos 6 anos de idade morre o seu irmão Jorge, altura em que cria o seu primeiro heterónimo o Chevalier de Pas. Com apenas anos de idade, escreve a sua primeira poesia, uma quadra dedicada à sua amada mãe. Nesta altura, parte com a mãe para a casa do seu padrasto o Comandante João Miguel Rosa, Consul de Portugal na República Federativa da África do Sul. Em 1901, com 13 anos de idade, escreve o seu primeiro poema em inglês, ano em que regressa a Portugal, abalado, navegando os oceanos para acompanhar o corpo da sua irmã Magdalena Henriqueta, falecida em Durban. Em 1902, vai aos Açores, à Ilha Terceira, com a mãe para estar com a família materna.
Regressa novamente a Durban para estudar. Em 1906, regressa a Lisboa e passa a viver com a mãe e o padrasto. Após a morte da sua avó Dionísia, deixa Lisboa e vai viver sozinho em Portalegre, tendo regressado a Lisboa para montar uma tipografia. E quando falamos de Fernando Pessoa, de quem falamos realmente? De Ricardo Reis? De Alberto Caeiro? Ou de Álvaro de Campos? Certamente de todos num e do mesmo em todos. Todos estes acontecimentos, referidos anteriormente, moldaram o homem e o poeta que foi, como dizia o próprio poeta poliglota, ainda que precocemente “adivinhador de futuros” – Estou cansado de confiar em mim próprio, de me lamentar a mim mesmo, de me apiedar com lágrimas sobre o meu próprio eu – e sem dúvida marcou o seu lugar no mundo quando afirmou – Ora a civilização consiste simplesmente na substituição do artificial ou natural no uso e correnteza da vida. Tudo quanto constituí a civilização, por mais natural que nos hoje pareça, são artifícios. Por isso, esta justa homenagem ao poeta maior da língua portuguesa, no seu dizer Pátria sua, consegue gerar unanimidades e consensos sobre a sua reconhecida grandeza, reunindo poetas de países diversos irmanados pela poesia e pela língua comum, embora abraçando sua heterogeneidade e universalismo. No entanto, é bom que fique sempre claro, que “cada homem é um oceano. Nunca chegamos verdadeiramente a conhecê-lo” e que “a poesia é a expressão sublime do real e do imaginário surreal”.
Sempre afirmei que o poeta se revela na generosidade com que se dá aos outros. Fernando Pessoa sempre se ofertou ao mundo, almejando um futuro melhor e renegando o hoje que o desencantava, por isso escreveu – Amanhã é dia dos planos. Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo. Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã – aqui se revela o poeta visionário, que premonitoriamente prevê o seu futuro.
Aos poetas antologiados apenas se pode pedir que continuem dignificando o sonho deste poeta maior, dignificando-se.
Delmar Maia Gonçalves
(Escritor e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD)
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Prefácios
sexta-feira, 3 de abril de 2015
"Da Poesia? Ou de como se justifica um ponto de interrogação." de Jorge Viegas
PREFÁCIO
Ao escrever este prefácio a pedido do poeta Jorge Viegas, sinto enorme responsabilidade e, ao mesmo tempo, uma grande alegria por estar a fazê-lo por um amigo que respeito e um autor que aprendi a admirar. Outra coincidência feliz, é que, ambos recebemos a bênção ancestral quelimanense e somos provenientes do torrão Zambeziano. Se bem me recordo, li algures que o sábio Lao Tsé já afirmara que “A humildade é a maior das virtudes” e nós sabemos que a humildade é tão velha como a história da civilização humana.
Ao conhecer o Poeta e o Homem, pude constatar que a modéstia, por vezes exacerbada, é a sua principal marca/ característica/ virtude, embora não seja a única que possui. Trata-se, na verdade, de um excelente poeta e declamador moçambicano, hoje, na diáspora. Em várias tertúlias e encontros sempre elevou vários nomes quer da literatura moçambicana, quer da literatura universal, chamando-lhes de poetas-maiores, quase ignorando o seu. Embora estejamos de acordo em múltiplos aspectos da literatura, neste aspecto particular, permitam-me discordar dele.
Sempre acreditei que para que a nossa estrela brilhe não é necessário apagar a luz de ninguém. O mesmo se aplica no sentido inverso. Pelo que, é de inteira justiça afirmar que ele próprio já faz parte de uma galeria de autores que ficará para sempre na História da Literatura Moçambicana e augurando futuros, também na Literatura Universal. A modéstia não conseguirá apagá-lo, ainda que, como poeta genuíno que é, procure “naturalmente” praticar zelosamente o poema.
Por outro lado, sempre acreditei que “o poeta se revela na generosidade com que se dá aos outros” e ele fá-lo com total entrega, sem nada esperar ou exigir em troca.
Esta publicação antológica, embora tardia (mas nunca é tarde demais para nada) é inteiramente merecida e faria todo o sentido se acontecesse numa grande editora. Infelizmente, as grandes editoras de hoje (e desde sempre) apontam as baterias recarregando-as nalguns nomes grandes que o são, na verdade, por um apurado trabalho de marketing comercial (entre outros) e não apenas fruto da sua grandeza de facto em termos de criação literária.
Sempre preocupado com a estética, afirma convicto “… o poema só pode ser perfeito se o poeta for dos deuses o eleito”. Profundamente possuído pela modéstia, reafirma “sei que jamais farei um poema nitidamente meu. /A minha visão dos homens, das cousas e da vida, é visivelmente perturbada pela visão dos outros./ São os outros que olham, e não eu.” Será isso a prática do poema? Não poderia deixar de especular sobre este aspecto. É por essas e por outras que acredito serem os poetas uma espécie de vendedores de passados que anunciam um futuro que não foi. Embora cultive obsessivamente a humildade desde muito jovem, como o prova este poema “Carta a Régio”, “Vou tentar mascarar-me de palavras para saudar-te./ Sou ainda não o sabes, decerto, sacerdote da religião que tem um Rimbaud por Cristo…/Venho por mim, umbilical e subjectivo como tu, sensacionista e grande como uma pirâmide,/pedir uma carta de recomendação que me ponha de boas graças com o diabo…”
Como dizia Rilke ”Uma das provas ou desafios, a que tem de se sujeitar o poeta é que tem de permanecer inconsciente e ignorante em relação aos seus próprios dons se não quiser privá-los da sua ingenuidade e da sua pureza!”
Neste livro é difícil separar o conteúdo do autor do mesmo. E isso, é já por si bom sinal, na medida em que estamos perante a harmonia das palavras e a prática das mesmas ou pelo menos da crença nelas, há portanto, uma fusão total entre ambos. Por fim, as palavras revelam a estatura do Autor.
Bayete pois então para o Poeta!
DELMAR MAIA GONÇALVES
(Escritor e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD)
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Prefácios
"Ian Amos Komenský (Coménio)" de Delmar Domingos de Carvalho
Ao ser convidado pelo
autor para escrever o prefácio deste valioso livro sobre esta admirável,
singular e incomparável personalidade visionária e cosmocrata, com vastíssima
formação e qualidades excepcionais, senti-me honrado e feliz. Só podia ser
assim, pois razões há-as de sobra.
Comenius é uma daquelas
raras personagens da história da humanidade que vale a pena conhecer, ou
revisitar, até pelo seu brilhante exemplo de honestidade, coragem, coerência,
abnegação e tenacidade. É importante que não nos esqueçamos do contexto e da
época conturbada e de enorme intolerância que viveu, além de uma infância marcada
por tragédias e dramática solidão.
Julgo ter sido a forma
ágil, paciente e sábia como filtrou e absorveu tudo isto e soube inverter a
flecha do infortúnio através do cultivo da sabedoria interior que potenciou e
desenvolveu, que o tornou num ser raro e extraordinário.
Tantas são as qualidades
desta personagem única que se torna difícil enumerá-las.
Vistas bem as coisas de
todos os prismas, acaba por ser um empreendimento de grande mérito esta ambiciosa
iniciativa editorial do humanista e escritor português Delmar Domingos de Carvalho,
prontamente abraçada e apoia-da pela CEMD EDIÇÕES, de convocá-lo para a
actualidade num momento particularmente crítico da sociedade em que a palavra
crise ganhou uma dimensão que ultrapassa em muito a área económica e atravessa
todas as esferas do seu funcionamento e a palavra de ordem é a globalização económica
e dos saberes.
E, no entanto,
estranhamente caracterizada por muitos avanços e retrocessos, fruto da ganância,
egoísmo e ignorância humanas.
Por isso é sem dúvida de
saudar e acarinhar o ressuscitamento/ ressurgimento de exemplos concretos de
homens que marcaram a diferença em épocas tão ou mais difíceis contribuindo
hoje, mais do que nunca, pelo seu exemplo como forma de encorajamento às novas
gerações que actual-mente vivem uma impressionante crise de valores, espelho da
sociedade em que vivemos e que construímos, sem sentido crítico ou autocrítico,
pese embora todas as conquistas alcançadas no progresso da humanidade em todas
as áreas.
Como dizia com razão e
bem Benjamin Constant “Não acreditamos em
nada do que afirma uma autoridade que não permite que se lhe responda.”
Claramente sempre nos
faltou tempo para uma aprendizagem da aprendizagem. Chegou pois a hora de
fazê-lo retomando o caminho já iniciado no passado.
A aprendizagem é contínua
e para a vida
Só um ser humano com a
grandeza incomparável e inquestionável como COMENIUS seria capaz de escrever “De rerum
humanarum emendatione consolatio catolica”.
Atentemos a profundeza e
grandiosidade desta alma de luz e do seu pensamento: “Por consequência, se
quisermos que a desumanidade dê lugar à humanidade, devemos procurar
incessantemente os meios de atingir esse objectivo. Esses meios são em número
de três: Em primeiro lugar, os homens devem cessar de confiar demasiado nos
sentidos e, atendendo à comum fragilidade humana, devem reconhecer que é
indigno sobrecarregarem-se mutuamente de ódio por razões fúteis; deverão de um modo
geral, perdoar-se as lutas, danos e ofensas do passado. Chamaremos a isso apagar
o passado. Em segundo lugar, ninguém deverá impor os seus princípios
(filosóficos, teológicos ou políticos) a quem quer que seja, pelo contrário,
cada um deverá permitir a todos os outros que façam valer as suas opiniões e
que gozem em paz aquilo que lhes pertence. Chamaremos a isso tolerância mútua.
Em terceiro lugar, todos os homens deverão tentar, num esforço comum, perceber
o que é preferível fazer e para o conseguir, devem conjugar as suas reflexões,
as suas aspirações e as suas acções. É aquilo a que chamaremos conciliação.”
Fabuloso legado ao
futuro. Um Testamento visionário, um autêntico Tratado do Humanismo.
E COMENIUS pagou caro por
ser um “visionário” demasiado avançado para o seu tempo, um autêntico ladrilhador
do grande empreendimento humano, pois sabia que se negavam as verdades que eram
necessárias à sociedade para que as ciências florescessem e se disseminassem.
Sabia também exactamente qual a importância e o peso que tem a livre circulação
das ideias que impulsionam e suportam a evolução.
Consideramos por todas as
razões e factos enumera-dos um livro vivamente aconselhável e a descobrir que
navega pelas águas da reflexão, Biografia histórica, Pedagogia, Didáctica,
Educação, Teologia ecuménica cosmocrata, Filosofia, Direito, Política,
Retórica, Fotografia, Arte e Literatura. Sempre em sentido ascensional.
Basta ler, escutar,
sentir e conseguimos ver.
Kanimambo Delmar Domingos
de Carvalho. Bayete!!!
DELMAR MAIA GONÇALVES
(Escritor e Presidente do
Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD)
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ROSA VAZ - A CULTORA DOS AFECTOS
ROSA VAZ – A PINTORA CULTORA DE
AFECTOS
DA ARTE AO ELOGIO
Escrevo eu, um vate Moçambicano
encalhado na velha e histórica OLISIPO sobre a autenticidade dos
feitiços da arte da pintura e cerâmica de um imbondeiro Angolano
Africano embrenhado na Minhota e também histórica BRACARA
AUGUSTA e que dá pelo belo nome de uma flor: ROSA, quase sempre
como que “simbolicamente” rodeada de espinhos protectores
marcando, desde logo, a diferença.
Na verdade nunca me foi difícil como
poeta pôr em prática a arte do elogio com os confrades das artes e
vates. Mas como amante da verdadeira arte e da poesia nela contida em
especial, aprendi a torcer o nariz, negando o elogio ou julgamento
fácil porque sempre odiei a bajulação reinante nesta esfera
humana do caos. Uma convencionada e regrada espécie de troca de
favores de que me demarco.
É aí que nasce e surge rebelde e
livre, com asas, a crítica sincera mas invariavelmente vertical,
séria, descomprometida e rigorosa. A arte pela arte.
Separe-se, pois, o trigo do joio , que
nem tudo é arte nem tudo é poesia e nem tudo é engenho e
excelência. Ah, mas aqui há e é das entranhas de África!
Ao olhar para a pintura desta
“feiticeira” das policromias encantatórias da África e da
Angola profundas lembro-me por deferência da poesia das cores dos
Mestres da pérola do Índico ROBERTO CHICHORRO e BERTINA LOPES e da
policromia geométrica do Mestre Angolano ELEUTÉRIO SANCHES. Nada
que apague a já longa caminhada criativa singular de autenticidade
no estudo, na espontaneidade e perseverança de Rosa Vaz , carregada
de uma orgia de cores e tilintar de batuques .
Indiscutivelmente a sensualidade
encalorada das mulheres dos trópicos transparece convidando-nos ao
deleite e alimentando nosso olhar esfomeado da intensidade da poesia
das cores. Lembrando-nos a nós (de outras luas de poesia) que
vivemos neste pedaço de céu da generosa Península Ibérica que
estamos na Europa, junto ao Atlântico, e que somos orgulhosamente
pedaços de pau preto de África disseminados pelo mundo (de onde
ambos somos provenientes na geografia humana). Uma diferença que só
nos enriquece e ainda mais na Arte.
Os seus trabalhos pictóricos
policromáticos de qualidade inegável sintetizam-na e
transcendem-na. A poesia das cores, o sonho na poesia, a realidade, a
nostalgia e o automatismo psíquico estão indesmentivelmente na
origem da concepção de toda a sua obra, quer na pintura quer na
cerâmica atingindo a excelência dos Mestres.
O grito da África profunda lá está e
não engana.
Bayete.
DELMAR MAIA GONÇALVES
(Escritor e Presidente do Círculo de
Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD)
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Textos em Catálogos
ANTOLOGÍA HETEROGÉNEA DE POESÍA,PROSA POÉTICA Y MICRORELATO "Alquimia del fuego"
FUEGO DE LA VERDAD
Madre
arde en mí
el fuego de la verdad
nada
ni nadie
me podrá salvar
porque la mentira
es el rostro de los hombres
que fundan la ciudad.
Delmar Maia Gonçalves
ANTOLOGÍA HETEROGÉNEA DE POESÍA,PROSA POÉTICA Y MICRORELATO "Alquimia del fuego"
SILENCIO EN LLAMAS
Cuando el silencio
produce silencio
veo el silencio encendido
gritar en el silencio.
Delmar Maia Gonçalves
domingo, 28 de setembro de 2014
“DIAS SERENOS” de LUÍS PEDRO PROENÇA
A iluminação espiritual tem algo
a ver com o ponto do espírito onde o alto e o baixo, o interior e o exterior, o
superior e o inferior, o sonho e a acção, o real e o imaginário, deixam de ser
percebidos contraditoriamente.
Assim que se começa a estudar o
zen, uma árvore não é uma árvore, um rio não é um rio. Deixam de o ser. Assim
que se atinge a iluminação espiritual, uma árvore é de novo uma árvore, um rio
é de novo um rio. O método que consiste em não seguir nenhum método é o método
por excelência.
Alguém duvida?
O dia e a noite deixarão de
opor-se. Na realidade, nunca se opuseram.
A raiz comum na imaginação será
reconhecida. Sendo o exterior à imagem do interior, a vida será uma autêntica
obra de arte. Na verdade, uma obra-prima única e inigualável.
O nosso intelecto é inegavelmente
necessário para compreender as próprias limitações.
Segundo a experiência e
perspectiva zen, o verdadeiro conhecimento é inseparável da experiência
imediata. És posto à prova sozinho.
Mas se o homem olhar bem para
dentro de si, adquire indubitavelmente a consciência superior da sua magnífica
solidão, que o isola sim, mas não separa do resto da existência.
Aquele que é senhor de si mesmo, que
é capaz de ouvir o que os outros dizem e não dizem, penetrando no pensamento
com uma agilidade mental admirável, estará em condições indiscutíveis de
compreender mil e uma coisas diferentes de uma realidade sem nome e sem forma
definida.
A definição, mais ou menos
clássica ou mais ou menos académica, só
satisfaz aqueles que querem rotular o
conhecimento separado da própria vida. O verdadeiro conhecimento não é
rotulável nem hierarquizante. E nunca em momento algum deveria ser separado da
vida.
O zen oferece-nos condições para
que vivamos completamente livres do condicionamento das emoções negativas
sempre nefastas, e da condição de alienados.
A humildade é portanto a condição
número um para que tal suceda. Mas também não podemos esquecer a dedicação
constante e diária para nos conhecermos e para vigiarmos o nosso comportamento
inconstante.
No que à grande quietude do Poeta
iluminado diz respeito, ele nunca está sereno por se dizer que a bendita
serenidade é excelente. Está sereno porque a enorme e gigantesca multidão de
coisas não pode jamais perturbar a sua serenidade, jamais!
As palavras fazem amor. As
palavras- actos e não as que pressupõem actos.
Nós passamos a respirar as
palavras – actos. Não há separação.
E isto só é possível com o zen. Ou
não?
Quando “trabalhamos” somos como
flautas e no nosso coração o murmúrio das horas, do tempo soa como música. Uma
música harmoniosa.
E o que é trabalhar com amor? É tecer
o nosso pano com os fios do coração, como se estivéssemos a tecer e moldar a
roupa do nosso mais que bem amado universo em que viveremos.
Recordando o grande Poeta RABINDRANATH
TAGORE diremos então que “ Sobre as tramas do nosso finito que é infinito e
cuja tapeçaria bordamos quotidianamente nossas vidas, acaba sempre visível a
mais ínfima nódoa!”
Por isso se torna vital a nossa
harmonização interior para que expressemos um exterior muito mais transparente,
mais sereno e sem mácula.
DELMAR MAIA GONÇALVES
(ESCRITOR e PRESIDENTE DO CÍRCULO
DE ESCRITORES MOÇAMBICANOS NA DIÁSPORA – CEMD)
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Apontamentos Literários
“TCHANAZE, a donzela de SENA” de CARLOS PARADONA RUFINO ROQUE
Uma obra em segunda edição
(a primeira foi em 2009) que resgata a riqueza cultural ancestral africana e a
aura de mistério que rodeiam as tradições e os mitos ancestrais africanos numa linha
que deu continuidade mágica em “N´TSAI TCHASSASSA A VIRGEM DAS MISSANGAS”, o
seu segundo magnífico romance de 2013 e depois do seu anterior, inicial e
sereno navegar pela Poesia em “ GESTAÇÃO DO LUAR” em 1991.
O ressuscitamento e
cruzamento ficcional de mitos, lendas, ritos e tradições ancestrais é a sua
imagem de marca.
Estamos, portanto,
perante um escritor Moçambicano e Africano de longo curso (porque nos oferece
muitas possibilidades de leitura e releitura e, porque muito esperamos dele e
da sua sagacidade, talento, engenho e da sua já consolidada maturidade na
escrita).
A revalorização e
convocação das tradições, dos ritos e dos mitos do grande ZAMBEZE será como que
uma recuperação simbólica desse estado civilizacional anterior aos quase fatais
golpes de força externos (colonização, aculturação e assimilação) e internos
(independência, revolução, socialismo científico, monopartidarismo ,
pluripartidarismo, democracia, capitalismo e globalização), sua assumpção na
escrita moçambicana em língua portuguesa que ganhou hegemonia, estrangulou-a,
asfixiou-a, mas não a apagou nem apagará como prova este autor e esta obra e
ainda outros autores como PAULINA CHIZIANE que a prefaciou ou UNGULANI BA KHA
KOSSA que fazem abordagens ficcionais desconstrutivas, críticas e autocríticas
das sociedades africanas ancestrais e actuais.
CARLOS PARADONA RUFINO
ROQUE resgata com profundidade os valores tradicionais, valores próprios das
culturas de tradição oral de um passado que nunca esteve nem estará ausente de/
em África, convocando-os do passado para o presente rumo ao futuro.
Não se trata de
regressar ao passado, mas de trabalhar a modernidade sem renegar o passado ou
virar as costas ao rico e vasto património cultural tradicional ancestral que urge
hoje mais do que nunca preservar e revalorizar em memória escrita, ainda que
ficcionada. É essa a missão do escritor.
Ao trazer estas formas
e o imaginário africano, moçambicano e bantu da tradição oral para a sua obra,
CARLOS PARADONA RUFINO ROQUE chama a atenção para todo o manancial e riqueza
das culturas bantu moçambicanas mais profundas e enraizadas que já chegaram a
ser rotuladas como meras superstições e puro exercício do obscurantismo, primeiro
pelo colonialismo e depois pelos conturbados ventos da revolução moçambicana.
Nesta óptica, a recuperação
dos valores ancestrais do mundo tradicional bantu, uma vez que é a rejeição
clara de posturas exógenas, cumpre uma função histórica e pedagógica de um
irreversível processo de desassimilação, de demarcação relativamente ao que é
exterior e estranho à(s) cultura(s) genuinamente Moçambicana(s).
Podemos concluir
dizendo convictos que a presença dos modelos de tradição oral neste autor é sabiamente
orientada fundamentalmente por um espírito de afirmação claríssima da
identidade cultural Moçambicana e da reafirmação inequívoca da identidade de
uma literatura emergente e consolidada por um conjunto de autores variados de
grande qualidade.
Por essa razão atrevemo-nos,
pois, a afirmar que se quiserem conhecer as entranhas do MOÇAMBIQUE profundo,
na misteriosa e labiríntica região do grande ZAMBEZE, mergulhem na aventura
desta obra ficcional que este autor generosamente nos oferece.
Segundo o ilustre
académico Moçambicano Lourenço do Rosário «As narrativas de tradição “oral”
africana têm uma forte componente didáctico – moralizante», isto reflecte-se
aqui na sua estruturação magistralmente construída, porque nos ensina que no MOÇAMBIQUE
profundo por vezes oculto os vivos e os mortos, o visível e o invisível se
entrelaçam na roda do mundo em que vivemos e por onde caminhamos na eterna
dança do quotidiano ao som dos passos do batuque e que há saberes
propositadamente ocultos ou adormecidos que devem ver a luz do dia. Por outro
lado, não nos esqueçamos que foi indubitavelmente com o mito que a história
humana sempre e em toda a parte começou; foi através do mito que os vocábulos,
os símbolos originários tomaram a sua primeira forma e cada era nova da
história os redescobriu à sua maneira. Ora, como se sabe o processo cultural de
onde a literatura de MOÇAMBIQUE emerge tem grande parte das suas raízes
mergulhadas no mito, vivificado no quotidiano e presente na visão religiosa ou
animista “africana” e religadora do homem à terra e ao transcendente.
Bayete pois para o
Escritor CARLOS PARADONA RUFINO ROQUE.
DELMAR MAIA GONÇALVES
(ESCRITOR e PRESIDENTE
DO CÍRCULO DE ESCRITORES MOÇAMBICANOS NA DIÁSPORA – CEMD)
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Apontamentos Literários
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
PREFÁCIO do livro “Olhar de uma Africana” de Margarida Tavares
O tempo foi curto para um
empreendimento desta dimensão, natureza e responsabilidade, e o nível de
auto-exigência desproporcional. Mas o que fazer? Dizer não? Como resistir ao
apelo da África viva? Como resistir ao apelo da poesia? Como resistir à
fraternidade humana? Como resistir ao apelo da Lusofonia?
A Autora, “mais um precioso
pedaço de pau-preto disseminado pelo Mundo”, nas palavras da malograda e grande
Poeta Moçambicana NOÉMIA DE SOUSA, abraça a Lusofonia como quem se embrenha num
Poema inacabado para finalmente concretizá-lo.
Decifrar seu universo enigmático
e singular, no plano de uma poética subjectiva, torna-nos ainda mais cúmplices
de uma experiência ou conjunto de experiências que envolvem a própria vida.
Mas, não é verdade que cada ser
humano é ele próprio uma ilha nascendo noutras ilhas?
Fica-nos a poética pujante e
pungente de MARGARIDA TAVARES, uma mãe coragem de África, para com ela nos
deliciarmos e descobrirmos também as ilhas que há em nós, individual e colectivamente,
para finalmente redescobrirmos a maravilha da infalibilidade da
interdependência.
Este livro, como a Autora, é de
uma audácia que vale a pena descobrir.
Títulos como “Os líderes
Africanos”, ”Regresso de um Emigrante”, ”Preto”, ”Africana”, ”Crianças
Africanas”, ”Estudantes Africanos”, ”Cabo-Verdiano”, ”Continente Africano”, entre
outros, provam que a África vai pulsando nas diásporas e sugerem o orgulho nas/das
origens, o orgulho de ser Africano e um claro e pujante apelo fraterno da presença
Africana no mundo. Na verdade, tudo o resto estará nas entrelinhas do
subjectivo e secundário, que África não se encerra nunca nas páginas dos livros
e MARGARIDA TAVARES cantá-la-á sempre e enquanto respirar e, ainda mais, sempre
que um Leitor atrevido e sedento devorar esta obra que urge descobrir e
redescobrir.
É fundamental, pois, que cada um
de nós ao lê-lo, olhe bem para dentro de si próprio para adquirir a consciência
da sua magnífica solidão que nos enriquece e enriquecerá sempre na diferença.
África essa continuará a dançar
na autora ao som dos batuques, em nós Leitores e no Mundo, através destes belos,
altivos e fraternais Poemas.
DELMAR MAIA GONÇALVES
(ESCRITOR e PRESIDENTE
DO CÍRCULO DE ESCRITORES MOÇAMBICANOS NA DIÁSPORA – CEMD)
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