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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Anotações “ O HABITANTE DA NOITE OU O LAVRADOR DE PALAVRAS” de Álvaro Fausto Taruma

“ O HABITANTE DA NOITE OU O LAVRADOR DE PALAVRAS”
O ofício da escrita definitivamente não é para todos. Podemos afirmá-lo com inteira convicção.
Mas neste caso específico é claro o talento nato da poética deste jovem autor Moçambicano que emerge das águas sagradas do índico.
Por isso, destemido, reivindica com razão “Um lugar onde possa fazer amor comigo mesmo, com os halos que se percutem na memória”, fazendo lembrar a fala de Zaratustra que terá dito “E logo que experimenta ternas emoções o Poeta pensa que a própria natureza está apaixonada por ele, e que se lhe acerca ao ouvido a sussurrar segredos e palavras carinhosas: é disso que se gabam e vangloriam perante todos os mortais”
Não deixa de ser significativo que esta obra tenha emergido das margens da Literatura Moçambicana onde abundam jovens com enorme potencial criativo, embora nem todos com este nível de maturidade. E tudo isto no momento certo, acrescentaria eu para completar a equação.
O tempo fará a necessária filtragem, que não nos cabe definir enquanto protagonistas da mesma arte.
Para quem o conhece bem certamente perceberá que há uma fusão permanente do autor enquanto poeta, do país que o viu nascer e o retêm e do homem que nele habita! Por isso, claro e conciso vai afirmando “Entristeço-me sempre que me revejo neste trapezista solitário no circo cada vez mais vazio e assustador de onde só se aplaude os malabaristas desenfreados da democracia”. Ouviram o poeta? Tê-lo-ão percebido?
A densidade das palavras não se mede pela sua extensão. É o que é, não é?
Por isso o vate mais uma vez e sem se deter acrescenta “De certo é belo o meu país mas deste modo custa-me vê-lo com a magia que empresto ao meu olhar, e não se espante no dia que tão cedo vier a bater-lhe a porta com uma carta de demissão nas mãos. Pois pensei, erradamente, que o fogo da paz pudesse arder tão alto, em labaredas laboriosamente trabalhadas sem faúlhas com falhas que nos pudessem prender à prisão claustrofóbica da escuridão”.
Felizmente este  poeta prova estar  acordado numa “escuridão” sem luz que o inspira!
Estranho? Nem por isso. Como dizia o poeta Libanês KAHLIL GIBRAN : “O homem é dois homens; um está acordado na escuridão, enquanto o outro dorme na luz”.
Lê-lo é rever a grande massa da juventude inconformada e por vezes rebelde que sonha novos futuros sem  deixar de navegar com a esperança como bússola.
Por isso diz convicto “De palavra em palavra se faz a minha lavra, expressa por entre os interstícios das páginas, que tal como os da terra se moldam, e decifra-se a safra que em frases se alonga, trespassados os ciclos ou as fases distintas, desde a veredicta semente ao chão inscrita até ao desabrochar do futuro em que a esperança acredita”.
É claro o navegar deste lavrador de palavras num punhado de versos cristalinos, transparentes, com a pureza de um mar despoluído e a maturidade de um velho imbondeiro guiado pelas sabedorias antigas.
Embora afirme lamentoso “Fui um errante certeiro nos arremessos que fiz”, dificilmente será um errante na arte da escrita. Na verdade, como dizia GIBRAN “A vida é uma procissão” e muitas luas nascerão, e por isso “ Possa Deus alimentar os superabundantes”!
Há um barco livre que habita os Poetas. Só o verdadeiro amor pela arte o consegue apreender e captar.
Segundo RILKE : “...o criador tem de ser um mundo só seu e tudo encontrar em si mesmo e na natureza a que se uniu”.
É o caso deste Poeta que tudo busca em si e no universo a que se uniu naturalmente, fundindo-se integralmente nele. Como prova a sua reivindicação pensada, quando diz : “Quero um barco onde eu seja veleiro dos meus próprios desejos, onde o remo e o mar se entrelacem num passo rumando aos meus ensejos”.
Terminaria citando VIRGINIA WOOLF que disse “As obras de arte são de uma solidão infinita e nada as pode abordar pior que a crítica” e acrescentaria eu que “Por isso se torna difícil analisar criticamente um autor e uma obra poética que respiram e transpiram magia pelos poros, e que a fluidez da escrita o denunciam de forma singular”!
É esta a vitória dos poetas, é esta a cruz, é esta a missão!!! E como acredito que a inteligência dos poetas e escritores precisa de viver num mundo mais amplo do que aquele a que as sociedades em que vivemos traçaram tão mesquinhos limites, só posso finalizar dizendo: “ BAYETE POETA TARUMA”!



Delmar Maia Gonçalves
(Escritor e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora -CEMD )







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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Anotações para um possível Prefácio de "Dentro da Pedra que voa na metamorfose do Silêncio" de JAPONE ARIJUANE



“Dentro da pedra que voa na Metamorfose do Silêncio” de JAPONE ARIJUANE


Pediu-me o amigo confrade e conterrâneo Zambeziano JAPONE ARIJUANE que escrevesse alguma coisa sobre o seu Livro.Com muito gáudio o faço espraiando o que me vai na alma ao lê-lo, sendo certo que esta é a visão simultaneamente subjectiva e objectiva de um poeta sobre a obra de outro.Exercício de certo arriscado.
Se é correcto dizer-se que qualquer obra de arte é de uma profunda e infinita solidão, também o é afirmar-se que se o homem olhar para bem dentro de si, adquirirá a consciência da sua magnífica solidão que embora o isole singulariza-o, não o separando todavia do resto da existência.Claramente há no Eu-Poético indeléveis marcas de uma radical solidão interior carregada de vontades “Não tenho senão / essa vontade/ de me reinventar em palavras.”
Estou certo que aquele que é capaz de ouvir o que os outros dizem e não dizem, penetrando no pensamento com uma agilidade mental espantosa, estará sempre em condições de compreender mil e uma coisas diferentes de uma realidade sem nome e sem forma definida.
O elemento pedra adquire aqui uma importância fundamental , que é inaugurada no próprio título do Livro e atravessa a obra lapidarmente.E haverá elemento mais poético que a pedra que só a poesia consegue vitalizar?
Bem o diz o Poeta precocemente que “Já quis reformar essa coisa de poeta em mim…”, mas “os pássaros que voam de relance /na minha imaginação/ depilam pedra-a-pedra/ a minha sensibilidade.”.Não tenho dúvidas disso , comprovadas pela busca incessante na Mafalala dos trilhos galgados pelo Soba e Mestre Craveirinha, como que perseguido fatal e irremediavelmente pelos pássaros que traz e transporta consigo no peito que ora “…são pássaros de fogo e ferro” ora “…de sangue e carne”, e também pela sua indiscutível qualidade poético-literária.Poesia e muita verve, é o que nos oferece o vate Índico que se banhou nos Bons Sinais.
Por isso sente “saudades…/de sentir nos outros / as minhas emoções / emoções que jamais os outros / sentirão por mim…”
Verdade seja dita, os leitores não sentirão emoções pelo poeta, mas certamente sucederá a emoção pela degustação da sua poesia!Estou tão certo disso como São Tomé.Já os vejo deleitarem-se prazerosamente numa qualquer biblioteca ou numa esplanada cultural improvisada ou não.
Apesar da sua escandalosa modéstia ao afirmar “ A pureza do papel não me emociona / poderia fazer barcos de papel / poderia fazer barcos de poema / barcos de papel fi-los na infância / os de poema fazem-no os poetas.” Fazem-no os poetas?E ele que é um exímio ladrilhador de palavras?
Como dizia ponderadamente RILKE e faço minhas as suas palavras “…entre em si mesmo e examine as profundezas das quais a sua vida emana ; é na sua fonte que encontrará a resposta à pergunta sobre se deve criar.Assuma-a tal como lhe soa , sem dela duvidar.Talvez tenha a demonstração que está destinado a ser artista.”
Não direi portanto nada de novo ao recordar as sábias palavras de VIRGINIA WOOLF dirigidas aos jovens poetas que subscrevo inteiramente : “Deixe que as suas opiniões e juízos de valor tenham o seu próprio desenvolvimento calmo e imperturbável que, tal como todo o progresso, tem de vir do seu ser mais profundo que não pode ser forçado ou acelerado por coisa alguma.Deixar as coisas chegar ao seu termo natural e depois dar à luz.”Não é o melhor método o não – método?
Tenho a certeza que os poetas se revelam na generosidade com que se dão aos outros.A escrita sublinha a singularidade e a identidade únicas de cada um, que ficará ou não eternizado no verbo.
Pois como diz o poeta profeticamente “ A morte não é o fim / é a indiferença das coisas / à espera do novo dia.”
Tenho a certeza que pela força telúrica do verbo, os ventos lhe serão favoráveis , no nobre desejo que convicto o vate revela “ Há / em mim um desejo / de uma pedra / se tornar gente /para em silêncio / se retornar pedra.”
Entretanto , “É no silêncio da pedra / que se espelham as almas”.Mas no silêncio que apela,desafia,entranha, fermenta, grita, impele, interpela , planta, revolve e colherá o fruto inicial da impossibilidade da indiferença no / ao poeta.
Como dizia KAHLIL GIBRAN “Na verdade, falamos apenas para nós mesmos; contudo , falamos por vezes suficientemente alto para que outros nos consigam ouvir.”
Continue pois tecendo o pano da vida com os fios do coração!
Bayete Poeta do Índico!!!
Delmar Maia Gonçalves


(Escritor  e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora -CEMD)