Mostrar mensagens com a etiqueta Artigos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Artigos. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A televisão na CPLP

Como é tido e sabido Portugal tem protocolos de cooperação com os PALOP na área de informação e nomeadamente na área audiovisual.
Tal cooperação abrangeu a construção das televisões da Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, para além de Centros de Formação em Moçambique e Angola.
É um facto que os PALOP ainda têm muito que aprender nesta área específica. Mas será que também os portugueses não tem nada para aprender nos PALOP?
Não consigo é entender o facto de a RTP Internacional não passar também programas feitos pelos jornalistas e televisões africanos, uma vez que só assim, no meu entender, se estaria a concretizar a cooperação, o intercâmbio e a troca de experiências entre Portugal e os PALOP, para além de reforçar e pontenciar a projectada Comunidade dos Povos e Países de Língua Portuguesa.
Lamento ainda que aos 1440 minutos diários de emissão da rádio só um seja da responsabilidade africana. Isto porque, por exemplo, a televisão moçambicana só pode apresentar quinzenalmente um mini-programa de 15 minutos se quiser, caso contrário, não há nada para ninguém.
Quanto a mim há que tomar cuidado e ser exigente dentro do razoável e possivel nos acordos de cooperação. Não foi por acaso que um diplomata estrangeiro acreditado em Maputo tenha feito exigências inaceitáveis relativamente à toponímia da cidade.
Flexibilidade sim, mas não em demasia.


In Revista "África Hoje" nº95
Delmar Maia Gonçalves
Parede, Maio 1996.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Breve retrospectiva sobre Moçambique 1962/2001 - 1975/2001

A trajectória de um país e o enquadramento rumo à melhoria das condições sócio-económicas.


Completaram-se, no dia 25 de Junho deste ano, 39 anos sobre a constituição da Frelimo, actualmente um partido no poder, mas outrora um movimento de libertação, depois de muitos anos de luta armada contra o colonialismo da ditadura instalada em Lisboa e de alguns anos de combate a dissidências internas mais ou menos violentas, ao Movimento de Resistência Moçambicano de André Matsangaíssa e mais tarde de Afonso Marceta Dhlakama e Evo Fernandes, às incursões de mercenários enviados por Ian Smith da Rodésia (actual Zimbabwe) e aos raids sul-africanos (do regime do Apartheid).

Na verdade, foi naquela data que diversas forças políticas moçambicanas antifascistas e anticolonialistas (Udenamo, Manu e Unami) se fundiram numa plataforma unitária tendo em vista uma maior eficácia no objectivo prioritário que a todos animava independentemente de divergências de ordem ideológica, rácica, tribal, social ou estratégica. Constituída sob a presidência respeitada de Eduardo Chivambo Mondlane e a vice-presidência de Uria Simango (mais tarde destituído) e Marcelino dos Santos, a Frelimo iniciou a luta armada em 25 de Setembro de 1964, na província de Cabo Delgado. Desde essa altura, morreram em combate valorosos guerrilheiros e heróis, como Filipe Samuel Magaia, Paulo Samuel Kamkomba, para só citar alguns e Josina Machel (esta por doença).

Posteriormente, a guerra alargou-se a vastas zonas do Niassa e também a Tete, quando Eduardo Mondlane morreu, vítima de um atentado terrorista, com uma encomenda armadilhada, em 1969, atentado esse que foi desde logo atribuido à Pide. Especulou-se ainda que o mesmo resultou de problemas internos da Frelimo, hipótese essa que não se confirmou, mas ainda hoje subsiste a dúvida: quem matou Eduardo Chivambo Mondlane? Como foi possivel este assassinato? A mando de quem se concretizou? Com que cumplicidades?

Com o desaparecimento de Mondlane e a ascensão ao poder de Samora Machel, Uria Simango e Marcelino dos Santos, em Maio de 1970, a Frelimo inicia uma movimentação mais ofensiva, que virá a expandir-se consideravelmente aquando da contra-ofensiva às megalomanias militares do general português Kaúlza de Arriaga, então comandante em Moçambique. Mais tarde Uria Simango é afastado do triunvirato por divergências consideradas irredutíveis. Depois seria preso e executado.
Chegado o 25 de Abril de 1974, a situação politico-militar em Moçambique era francamente preocupante para as autoridades portuguesas, nomeadamente porque a guerrilha da Frelimo se alargava já à vizinhança das cidades da Beira (junto ao mar) e de Chimoio (então Vila Pery) fronteira com a então Rodésia, actual Zimbabwe, o que significava a ameaça de corte do país ao meio, isolando os distritos do sul de todo o imenso norte e estrangulando, na prática, a chave símbolo do último grande esforço colonial português em Moçambique - a Barragem de Cabora Bassa situada no Zambeze na província de Tete.

Vinte e sete anos passados sobre a independência, as relações com a antiga potência colonial são exemplares, pese embora a morte misteriosa do saudoso presidente Samora Machel, um dos grandes impulsionadores dessas relações, em 1986, e a mudança de regime político ocorrida em 1993 e com a realização das primeiras eleições pluripartidárias em 1994 mas aparentemente decidida muito antes.

Mas, vinte e sete anos passados, há também que reconhecer que moçambique se encontra ainda muito longe das metas de progresso e bem-estar visionadas com a independência e que também por isso a renovada Frelimo de Joaquim Chissano no poder e os novos partidos políticos emergentes, incluindo a Renamo de Afonso Marceta Dhlakama, enfrentam uma luta diferente, mas comum para todos os moçambicanos: a luta pelo desenvolvimento de Moçambique em paz.

As calamidades naturais cíclicas são um obstáculo dificil de enfrentar num país que procura reerguer-se, terá de se trabalhar na prevenção, e no combate contra a Sida e os investimentos na educação deverão ser prioritários, as condições sócio-económicas deverão melhorar com um modelo de desenvolvimento democrático que sirva à realidade africana.

In Revista "Lusofonia" nº21 em 2001.
In Jornal "Voz do Olhar" em 21 de Setembro de 1995
Delmar Maia Gonçalves

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A adesão de Moçambique a Commonwealth como acto de soberania e afirmação internacional

Nunca Portugal reagira de forma tão dramática e paternalista em relação às ex-colónias como agora que Moçambique decidiu aderir a Commonwealth.
Acto de resto legítimo de um Estado soberano e independente. Mas Portugal não está isento de culpas no processo que conduziu Moçambique a aderir à comunidade de língua inglesa. Este exercício de adesão merece-me duas leituras:
1º - Moçambique precisa de refazer o seu tecido social e para que tal se concretize é necessário um maior e melhor apoio económico que permita depois um desenvolvimento mais acelerado com resultados imediatos e que Portugal não pode garantir neste momento;
2º como país independente e soberano tem necessidade de se afirmar no panorama internacional até para renovação de uma imagem algo desgastada pela guerra e tem também o direito de se tomar o rumo que achar certo para o bem do seu povo. Não se trata pois de substituir o português pelo inglês.
Não é por acaso que o deputado da FRELIMO Coronel Sérgio Vieira afirmou ser de felicitar o governo no exercício de adesão a Commonwealth, de criação do Espaço dos Sete Países de Língua Portuguesa, de elevar o estatuto do país na francofonia, de investir numa presença no Índico e potenciar a participação na Comunidade Islâmica.
Como podem facilmente verificar o governo moçambicano nunca pensou em substituir o português pelo inglês. Como se poderia implantar o uso de uma língua sem antecedentes históricos na população? Com que recursos? E quem apoiaria essa medida? Como se poderia impedir a ascensão no partido do governo, nos outros partidos e no Estado dos poucos utentes dessa língua ou que a dominam? É que a sua vantagem política seria inaceitável. Qual seria a validade da proposta? Quanto tempo levaria a implementar-se? Quantos moçambicanos estariam dispostos a deixar de escrever por decreto em português para passarem a fazê-lo em inglês? Não se estaria a fomentar a cisão entre os moçambicanos? Enfim, só os portugueses insistem em ser cegos quando deviam passar das palavras à acção. Acção essa que passa pela consolidação e reforço da cooperação nos domínios da educação e cultura com os PALOP.

In Revista "Africa Hoje" nº94
Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, Abril de 1996.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Racismo não tem Futuro

Indignado estou pelos ventos de racismo que assolam Moçambique e dizer que, do meu ponto de vista, o racismo só faz sentido para pessoas frustadas ou culturalmente débeis, que procuram encontrar bodes expiatórios na questão racial para justificar os seus fracassos, fantasmas e medos.
Lutar contra o racismo e a xenofobia deveria ser princípio e prática universal.
Os cidadãos e políticos racistas de Moçambique não reconhecem, por acaso, qual foi o papel que os não negros moçambicanos da Frelimo, da oposição e não só desempenharam no longo processo que conduziu à Independência do País?
Que moral têm agora alguns senhores ditos moçambicanos, ditos donos de Moçambique, para pôr em causa a moçambicanidade de todos os não negros, através de cartas e artigos racistas, cobardes, com o agravante de se esconderem por detrás de intrigantes pseudónimos?
Para se combater o racismo pratica-se o racismo?
É esta a vossa máxima?
Por favor, meus senhores, não levem o odioso racismo para um Moçambique que está em construção.
O racismo não tem futuro em lado nenhum, nem os racistas, portanto, demitam-se os racistas! Fechem-se os esgotos, que cheiram mal!
Talvez por causa dessa burrice ainda haja moçambicanos a viver bem no estrangeiro, que não constroem empreendimentos válidos e permanentes em Moçambique, que poderiam contribuir para o desenvolvimento do País que é também deles. Talvez seja devido sobretudo, a homens como os senhores, racistas, xenófobos e invejosos, que não garantem segurança a ninguém.
De resto, não me interessa mesmo nada se vocês são negróides ou caucasóides, que se lixem as raças ou cores, podiam até ser invisíveis, não mudava uma palavra do que escrevi da minha visão do mundo. Talvez seja da minha educação... visual!
A todos os racistas e xenófobos moçambicanos desejo longas "reciclagens" multiculturais, multirraciais, interculturais, e inter-religiosas e que leiam muito Martin Luther King, Mahatma Gandhi, Nelson Mandela, Amílcar Cabral, Eduardo Mondlane, Samora Machel, José Craveirinha, o Alcorão, a Bíblia Sagrada, a Tora, o Gita, e se ainda assim fizerem tenções de continuarem racistas então vão à merda!
Os senhores não podem culpar a ninguém por nada, trabalhem, deixem os outros trabalhar e um dia colherão os frutos.
Moçambique sem investimento estrangeiro seria um país adiado e sem tolerância racial entre os moçambicanos, seria uma catástrofe.
Obviamente, vocês não são melhores que o falecido senhor P.W. Botha, porque se escondem por detrás de aberrantes pseudónimos, ele não o fazia, assumia-se como racista.
Mostrem as vossas caras! Têm medo de quê?
Têm vergonha de se assumir racistas?
Já uma vez na reinauguração do Hotel Polana, o antigo Presidente Joaquim Chissano afirmou acreditar que a evolução do pensamento humano indicava progressos na erradicação do racismo.
Subscrevo esta opinião e desejo francamente que o sonho do povo moçambicano pela melhoria da qualidade de vida se concretize.

In "Savana" de Maputo
Delmar Maia Gonçalves
08 de Novembro de 1996.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Principais medidas para o futuro do turismo nacional Moçambicano - um contributo

A conjuntura favorável que se vive actualmente na República de Moçambique, permite-nos pensar no relançamento do Turismo no país que já foi considerado o mais pobre e miserável do mundo pela ONU e os media ocidentais apesar de todo o seu potencial. A nova postura do novo Governo Democrático da Frelimo e a contribuição da oposição moçambicana liderada pela RENAMO para a consolidação do processo democrático em curso, a participação cada vez mais activa da sociedade civil no processo de reconstrução, leva-nos a apostar e a pensar Moçambique como destino turístico apetecível e viável, dentro de um quadro de medidas de investimento prioritário para criação de garantias de uma segurança efectiva que possibilite o desenvolvimento do turismo (como fonte e factor de riqueza) e consequentemente do país.
A estratégia de desenvolvimento do sector apresentará os seguintes vectores:
1. A defesa rigorosa da qualidade dos serviços e equipamentos através da elaboração de regulamentação resultante de legislação;
2. A melhoria do conhecimento e da base científica que constituem o apoio à tomada de decisões, quer do Sector Público, quer do Sector Privado (através da criação, desenvolvimento, investimentos em escolas desta área específica);
3. O aumento do investimento em equipamento de animação e respectivas infra-estruturas (sobretudo apostando na reabilitação, renovação e modernização das já existentes);
4. Reexame rigoroso do enquadramento ambiental e da qualidade estética dos equipamentos dos destinos turísticos;
5. A diversificação da oferta de produtos turísticos, investindo e promovendo o turismo a nivel nacional (nas zonas centro e norte sobretudo);
6. O reforço, descentralização e intensificação das acções inspectivas, em colaboração com as novas autarquias (Conselhos Municipais), de modo a controlar a qualidade dos pontos turísticos (por exemplo: condições das cozinhas, qualidade nas refeições, preços praticados, higiene das infra-estruturas e qualidade dos produtos).
7. O fomento dos factores relacionados com o acolhimento do visitante, no que respeita à hospitalidade, à higiene, à simpatia e à comunicabilidade do povo moçambicano;
8. A continuação do esforço de modernização de infra-estruturas, designadamente nos transportes, comunicações, energia, saneamento básico, telecomunicações, etc.

In "Boletim Tindzava"
Delmar Maia Gonçalves

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Mudar Mentalidades

Expresso aqui uma crítica relativamente aos jornais e revistas portuguesas especializadas ou que escrevem e noticiam África.
Dedicam demasiado espaço à política , demasiado espaço aos políticos e dão pouca importância à sociedade civil africana, dando aos políticos africanos a ideia de que o poder é eterno, de que os países lhes pertencem, de que o prestígio e o poder são apenas encontrados na política.
Em nada contribuindo para a formação de uma opinião pública e de uma sociedade civil fortes, que possam fortalecer os Estados e democratizá-los.
Faltam mais atenção e entrevista a poetas, escritores, escultores, pintores, actores, professores, intelectuais, médicos, desportistas e tantos outros profissionais. É necessário um novo ordenamento social e uma nova mentalidade em África. E África Hoje pode contribuir para uma mudança de mentalidades que urge nos PALOP.
Não se admirem pois, quando os cidadãos portugueses ao reconhecerem um excelente estudante bolseiro africano digam logo "Você vai ser Ministro"! Quando na realidade até simples cidadãos trabalhadores podem contribuir para o desenvolvimento dos seus países.
Ou será que todos os quadros africanos formados no exterior serão ministros, directores ou dirigentes políticos?

Delmar Maia Gonçalves
In Revista "África Hoje" nº99
Parede, Setembro de 1996.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Os Desmobilizados

Antes e depois da concretização do acordo de paz de Roma para Moçambique houve promessas de apoio aos desmobilizados moçambicanos, tanto a nível internacional, como nacional.
Embora partilhe a ideia de que todos temos os mesmos direitos e obrigações perante a lei, reconheço, no entanto, que em muitos casos há uma grande diferença entre a teoria e a prática.
Hoje, em pleno exercício de uma democracia emergente em Moçambique , os desmobilizados continuam numa situação dramática abandonados à sua sorte.
Diz-se que a necessidade aguça o engenho! Mas o que fazer com alguém que só conseguiu resolver os seus problemas diários com a ajuda de armas e que provavelmente só sabe lidar com armas?
Não será correcto também dizer que a necessidade aguça o apetite dos desmobilizados (militares e polícias) pelas armas?
Sempre ouvi dizer que "mais vale prevenir do que remediar", que "o prometido é devido", que "a paz não é a simples ausência de guerra" e que "a paz ou é de todos ou não é de ninguém"!
Chegou a altura de os desmobilizados serem integrados e enquadrados na sociedade moçambicana.
A marginalização, a exclusão, o desprezo, a indiferença, a memória curta, o esquecimento e a ausência de solidariedade, não são os valores por excelência que sempre guiaram os moçambicanos, é pois altura de mudarmos de atitude ou então jamais nos esqueceremos do velho ditado "quem semeia ventos colhe tempestades".

Delmar Maia Gonçalves
In Revista "África Hoje" nº110
Parede, Outubro 1997.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Velhos Fantasmas

Enquanto em Angola ainda se tentam limar arestas para a resolução definitiva do conflito, em Moçambique, uma vez ultrapassados os possíveis obstáculos à paz (realização de eleições legislativas multipartidárias e presidenciais, acordo para a formação das novas forças armadas e formação da nova polícia), aguardam-se as eleições autárquicas.
Entretanto, lamentavelmente surgiu um debate polémico, em torno da questão da morte de Lázaro Kavandame, ex-militante da FRELIMO e supostamente executado por traição, pela própria FRELIMO.
Num momento crucial para o fortalecimento das instituições democráticas de Moçambique e da paz, ainda há pessoas que teimam em prejudicar o processo desenterrando "velhos fantasmas", que em nada ajudarão na reconciliação nacional. Com o devido respeito que tenho pelos familires das vítimas, não será tempo de nos preocuparmos com o desenvolvimento do nosso país e com a manutenção da paz, em vez de alimentarmos factores de divisão que só fazem renascer os ódios e as sedes de vingança?
É preciso não esquecer que ficaram muitas mortes e actos de violência por explicar e entender (da guerra colonial, dos "raids" sul-africanos, dos mercenários de Ian Smith e da guerra entre a FRELIMO e a RENAMO), mas e que adiantaria num momento destes provocarem-se debates deste tipo? Por vezes, fedem que enojam!
Não nos bastam as zonas rurais ainda minadas, e a ainda não resolvida questão dos esconderijos de armas como o de Marínguè, que já dão dores de cabeça aos verdadeiros interessados na paz e desenvolvimento de Moçambique?
Por Deus, deixem de brincar com o povo moçambicano!

Delmar Maia Gonçalves
In Revista "África Today" nº91
Lisboa, Janeiro de 1996.

domingo, 20 de setembro de 2009

As Eleições Moçambicanas

O não funcionamento de várias comissões para implementação do cessar-fogo acordado e da preparação para as futuras eleições marcadas para Junho deste ano não estará naturalmente a facilitar o cumprimento do acordo alcançado nem a fortalecer o processo de paz.
Esta situação poderá certamente precipitar Moçambique para uma situação semelhante à de Angola, o que poderia transformar-se numa catástrofe de consequências imprevisíveis.
No interesse do ovo moçambicano,o Governo de Moçambique (da FRELIMO) e a RENAMO deveriam concordar com o delegado da ONU e adiarem as eleições para Junho de 1994.
Entretanto, deveriam integrar o elenco governativo actual, até lá, elementos da FRELIMO, RENAMO, MONAMO, FUMO, UNAMO, e CUNIMO, que são os principais partidos moçambicanos, em minha opinião.
A formação de um Governo de Unidade Nacional é imperativa porque, penso eu, acelararia e fortaleceria o processo de Paz moçambicano.
(...)
Delmar Maia Gonçalves
In Revista África Hoje
Lisboa, Março de 1993.

Identidade

(...)
Temos de ser realistas! Se querem falar de identidade moçambicana saibam então de que nela estão incluídos os povos do Norte, Centro e Sul de Moçambique, isto sem distinção de raça, etnia, tribo, religião ou partido político! Ou então não existirá jamais uma identidade verdadeiramente moçambicana. (...)


Delmar Maia Gonçalves
In Revista África Hoje
Novembro/Dezembro de 1996.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

“A paz é de todos ou não é de ninguém”
João Paulo II

Ser nobre é uma virtude
“Et errare humanum est”


Embora se tenha alcançado o essencial para Moçambique: a paz em todo o território nacional, e esta esteja a ser consolidada. Não seria todavia negativo, antes pelo contrário muito nobre que o governo moçambicano, o partido FRELIMO e o partido RENAMO (M.N.R.) pedissem desculpas e perdão a todo o povo moçambicano pelos dezoito anos de excessos, (violações do direitos humanos, vinganças pessoais, erros graves na governação do país, muitos abusos de poder e massacres em várias povoações na guerra civil de parte a parte. Esta atitude cairia bem nos gravemente lesados cidadãos moçambicanos ou estrangeiros residentes no país ou daqueles que abandonaram o mesmo pelas razões apontadas.
De resto, o governo sul-africano nosso vizinho soube ser inteligente quando formou a Comissão da Verdade e admitiu através do African National Congress ( A. N. C. ) liderado pelo “Madiba” e grande Soba Nelson Mandela, pelos excessos por si cometidos ou por outra, pelos seus guerrilheiros e membros. Hoje até os Boers alinham um pouco pelo mesmo diapasão, embora de forma mais tímida e envergonhada, e também por isso menos inteligente.
Nós sabemos que a governação da República de Moçambique pelo menos até à assinatura do histórico Acordo de Roma “a cidade eterna”, não terá sido só um poço de virtudes antes pelo contrário, foi um acumular de erros sucessivos que se veio a agravar com a guerra civil e a desestabilização Rodesiana e Sul-Africana.
É claro que houve mudanças positivas, muitas coisas positivas aconteceram, mas estiveram longe de satisfazer por completo os moçambicanos, a prova foram os dezoito anos da traumática guerra civil com as suas avalanches de mortes, desaparecimentos, órfãos, viúvas, massacres, mutilados, deficientes, fome, miséria, desinvestimento, falta de quadros e um sem número de traumatizados de guerra.
O povo moçambicano não foi, nem é rancoroso! É pacífico! Mas merece certamente mais atenção, consideração e respeito. E é bom que haja da parte dos políticos moçambicanos de todos os quadrantes sempre consciência dos erros cometidos e coragem para admiti-los e dos defeitos, não só das sagradas virtudes! Virtudes todos nós temos, mas também defeitos por mais pequenos que sejam.
E para bom entendedor meia palavra basta!


Delmar Maia Gonçalves
In “Africamente”
Parede

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Recado aos Senhores Doutores

“A cega ignorância é que nos engana. Ó míseros mortais, abri os olhos!”
Leonardo Da Vinci

RECADO AOS SENHORES DOUTORES
Por vezes « a montanha acaba por parir um rato », diz um velho ditado.
Em tempos, ouvi com atenção meu avô dizer « mais vale prevenir do que remediar » e « mais vale andar devagar e bem, do que depressa e mal ». E, de facto, tinha razão!
Embora respeite as pessoas por aquilo que são, e não por aquilo que aparentam ser, não me apraz nada registar que não há regra sem excepção, isto é, pela negativa há pessoas que são o que são, mas também aparentam ser aquilo que são!
O certo é que quando afirmamos “para ser verdadeiro..., em pura verdade...”, as mais das vezes estamos a ser falsos; quando insistimos que“ nada temos contra os negros, nada temos contra os árabes muçulmanos” é porque somos demasiado pelos cristãos, é porque somos demasiado pelos brancos; e quando passeamos pelas ruas e pelos media a pancarta de doutor, é porque de doutor nos sobra o nome.
Para bom entendedor meia palavra basta. Não é o título académico de «doutor» que nos fará deixar de ser modestos e humildes nem são os cargos oficiais que nos tornarão egocêntricos, snobs e nos farão olhar para os «outros» de alto a baixo, que o céu até tem dono!! Ou não será?
Na verdade, até nos dava muito prazer juntarmo-nos aos não académicos, em suma, ao povo iletrado, para lhes mostrarmos o caminho que nos parece mais acertado! Seria mais nobre e, para além disso, só ficaríamos a ganhar; mesmo que fosse só em simpatia e generosidade!
Os cargos oficiais são temporários, não são vitalícios. O povo, esse sim, é eterno ou pelo menos, eterniza-se para além da vida!
É preciso que reflictam na importância que tem o nome que nos é atribuído. Já pensaram no significado e no valor que cada nome encerra, senhores “doutores”? Já pensaram que antes de sermos «doutores» já tínhamos um nome? Já éramos aquilo que somos? Sabiam que esses nomes nos remetem para as nossas origens?
Valerá a pena ignorar as nossas origens, a formação humana, as relações humanas em nome da formação académica, ou de um cargo oficial? Em nome da dominação vale a pena mudar o mundo?
O modo de pensar ocidental tem sido massivamente impregnado e perversamente estruturado pela lógica do “terceiro excluído”. Dito por palavras mais concretas, pela “lógica da disjunção”, e da exclusão. Quer dizer, ou se é verdadeiro ou se é falso; ou se é “preto” ou se é “branco”; ou se é bom ou se é mau; ou se é homem ou se é mulher; ou se é doutor ou não se é.
“Ser ou não ser”, estigmatizava-nos sempre e eternamente Shakespeare. Estigma de mais de trezentos anos, repisando a marca disjuntiva de Aristóteles. Acontece, no entanto, que a vida não funciona segundo a lógica da exclusão. Nem a vida, nem nós, nem os mais simples cidadãos deste mundo, nem por sinal os nossos “eternos” e enigmáticos políticos.
Sou demasiado pequeno para isso, demasiado cobarde para tamanha façanha, sou mesmo um fraco, mas senhores doutores, na verdade, não me pude conter e, vai daí, aquele desabafo. Quero que tenham em atenção todo este tempo em que permaneci calado, muito calado! Chega! Basta! Acredito na liberdade!

Enfie pois, a carapuça quem quiser!
Delmar Maia Gonçalves
(Escritor e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD)
Parede, 04 de Agosto de 1999.