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sábado, 22 de fevereiro de 2014

A IMPORTÂNCIA DOS PROFESSORES


Toda a gente terá tido um professor ou professora na infância,na adolescência ou juventude que o marcou para sempre na vida.Comigo sucedeu o mesmo,para não fugir à regra.

Guardo boas memórias de alguns deles;esqueci-me dos piores, paciência!
De resto,quando algo corria mal na ESCOLA,minha sábia avó RITA MACHADO,que mais parecia um General desarmado e de saias,defendia-me disparando inteligentemente e de pronto «É capaz a Professora estava mal disposta e não deu bem a aula!» Pronto. 
Na minha QUELIMANE natal,tive na ESCOLA ESPECIAL DA 4ªCLASSE DE SINACURA,do ensino Primário,uma professora moçambicana de nome BERTA,que guardarei para sempre no coração.E era também minha Catequista na CATEDRAL NOVA.Um anjo africano e um doce de pessoa.
Sempre competente e exigente ,mas simultaneamente meiga e dócil!
Depois,como poderia esquecer-me do implacável, exigente, mas também carinhoso Professor JAFAR? Este Professor de Língua Portuguesa,que nos exigia o domínio da Gramática e da Língua Portuguesa na 5ª e 6ª CLASSES, da antiga ESCOLA PREPARATÓRIA 25 DE JUNHO, e anterior ESCOLA PREPARATÓRIA DE QUELIMANE ,actual ESCOLA PRIMÁRIA DE 2ºGRAU PATRICE LUMUMBA DE QUELIMANE, tinha por hábito afirmar repetidamente no seu Português perfeito «Eu sou um cooperante Indiano e domino a Língua Portuguesa. Vós que sois Moçambicanos e tendes esta Língua como oficial,não a dominais?»
Não gostava nada de vê-lo furioso,só de ouvi-lo levantar a voz por um qualquer disparate nosso,e o vale de lágrimas ou a vara de tremeliques abundavam.
Nessa altura,tornei-me num dos melhores alunos na Gramática e na Língua Portuguesa das turmas da 6ªClasse,daí ter recebido um Prémio de Emulação Socialista.
Tanto as provas escritas,como as orais foram papinhas saborosas!E tudo graças ao engenho e génio do Professor JAFAR,um modesto cooperante Indiano.
Mais tarde, já na 7ªClasse,tive um outro excelente Professor de nacionalidade CUBANA de nome DIONISIO,na disciplina de Matemática,que me chamava carinhosamente de " Marinero"e me dizia com insistência simpaticamente «Del Mar, vas a ser un Marinero!»
E tinha razão!Sou mesmo um Marinheiro,mas do Mundo!
Nunca gostei tanto de Matemática,e as notas dispararam em sentido ascendente.
O segredo?A alegria contagiante de estudar Matemática que ele transmitia aos alunos!
Finalmente,já em Portugal e ainda no ensino Secundário,na ESCOLA SECUNDÁRIA DA PAREDE,antigo LICEU DA MADORNA,uma Professora de Língua e Literatura Portuguesa e ainda de Língua Francesa,que dava pelo nome de GABRIELA e que jamais esquecerei. 
Com ela voltei a sentir um gosto especial e quase obsessivo pela Gramática,pela Literatura em geral ,pela Poesia,pelas Figuras de Estilo(até me pedia que explicasse aos colegas,embora eu fosse muito tímido),pelas Línguas Portuguesa e Francesa e por outro lado,foi graças a ela que participei e venci o 1ºConcurso de Jogos Florais da ESCOLA SECUNDÁRIA DA PAREDE.Seguir-se-iam outros Prémios importantes,incluindo um PORTUGUÊS.
Foi ela também, que com a POETA MOÇAMBICANA NOÉMIA DE SOUSA e a ESCRITORA e POETA PORTUGUESA MATILDE ROSA ARAÚJO(já falecidas) me incentivaram a publicar em Livro os meus Textos em Poesia,Prosa-Poética e Prosa.
E até hoje não mais parei.
É evidente que outros Professores houve que foram igualmente importantes, mas estes ficaram para sempre no meu coração.
Jamais os esquecerei. Devo-lhes isso eternamente.


DMG

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

EU E OMAR SHARIF



Sempre que vou viajar pela Europa, antes de chegar a qualquer sala de embarque, passo sempre pela rotineira confirmação do CHECK-IN, verificação e embarque das bagagens, pelos habituais cordões de segurança e verificaçãodas bagagens de mão. E, invariavelmente, inicia-se o ritual de segurança (fico simultaneamente sem o fio, pulseira, auriculares, cinto, relógio, sapatos, telemóvel, computador portátil, máquina fotográfica, garrafa de água e quase surrealisticamente sou bombardeado com perguntas indiscretas). Normalmente sobram-me apenas as calças, a camisa,as cuecas ou rabecas e as meias que, como é óbvio, com o calor e a transpiração já cheiram a chulé!


Depois, sou sempre invadido pelo segundo ritual, chamar-lhe-ei digamos assim, de apalpamento! E não me interpretem mal, por favor! É sempre cumprido religiosa e rigorosamente por um qualquer marmanjo a quem chamam de senhor segurança.

Em certa ocasião, numa dessas viagens, em que não estava nos meus dias angelicais e serenos, saltou-me a tampa e soltei meus cães negros disparando indignado com uma pergunta lógica no meu parco inglês macarrónico: "Porque me está este senhor a apalpar com tanto entusiasmo?" Resposta pronta da sorridente senhora chefe da secção de segurança do aeroporto : -"Talvez seja porque o senhor é muito parecido com o OMAR SHARIF!"

É claro que não desarmei.Serenei e soltei um leve sorriso. Finalmente, descobrira nesse dia que tenho semelhanças com este charmoso galã romântico egípcio da década de 60.

E não pude deixar de pensar (cá para os meus botões), que hoje sou indiscutivelmente mais bonito do que ele, mas não deixa de ser uma honra ser comparado ao ícone egípcio e velho "leão"do deserto que conquistou HOLLYWOOD. Só não tive a sorte de desposar a diva egípcia FATEN HAMAMA, considerada um tesouro da terra dos faraós, com quem teve um filho TAREK el-SHARIF, e que se recusou a regressar ao EGIPTO com NASSER no poder!

Objectivamente este episódio obriga-me a rever a minha árvore genealógica!!!


DELMAR MAIA GONÇALVES
( Escritor e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD)


sábado, 16 de março de 2013

VAMOS AO CINEMA "ÁGUIA" PARA A ETERNIDADE DA INFÂNCIA (II)

Na cidade de QUELIMANE, nós tínhamos três Salas de CINEMA, (ÁGUIA,CHUABO e ESTÚDIO), fora as itinerantes ou as que terão existido antes da proclamação da Independência. Isso quando já estudava na ESCOLA SECUNDÁRIA E PRÉ-UNIVERSITÁRIA 25 DE SETEMBRO.E como a gente costumava esperar ansiosamente pelas férias, para irmos dia sim, dia sim ao CINEMA! Durante as férias, nós tínhamos "autorização" uma espécie de passaporte para a vadiagem para ir ao centro da cidade, e não perdíamos a oportunidade de ir ao CINEMA ÁGUIA para assistir aos filmes mais recentes, ainda que fossem CUBANOS, CHECOSLOVACOS, SOVIÉTICOS, BÚLGAROS, JUGOSLAVOS, ALEMÃES, EGÍPCIOS, PORTUGUESES, FRANCESES, ITALIANOS, AMERICANOS, INDIANOS, CHINESES ou JAPONESES. E subitamente, podíamos ser tudo! BRUCE LEE, TOSHIRO MIFUNE, ALAIN DELON, AMITABH BACHCHAN ou JOHN WAYNE! Por vezes, nós costumávamos chegar molhados ou suados, mas a mudança de clima que por vezes sucedia, não nos impedia de nos divertirmos com os Filmes. Uma hora e meia, duas horas ou três horas de escapada da rotina e disciplina da ESCOLA eram muito reconfortantes.
Ainda não tinham chegado os FAST FOOD AMERICANOS, mas havia as deliciosas patanicuas de Côco ou farinha, os amendoins assados ou fritos, o matago,o mutxapaué, a bagia ou as apas com creme de banana caseiro que nos alegravam o estômago. Os bilhetes do cinema eram baratos, saiam caros sobretudo quando a Sala esgotava e tínhamos de comprar na candonga. Mas o divertimento estava garantido na ida à cidade!
Claro, temos que andar para a frente.
Não se pode viver de prazeres distantes e Salas de CINEMA perdidas. Mas não há problema em matar saudades de um passado permanentemente revisitado no tesouro das memórias. O que são saudades, senão uma clara tentativa de tentar conservar aquilo que era bom no passado? E do passado, lembrei-me daquela mítica era dourada da grande Tela. E do belo e inesquecível CINEMA "ÁGUIA".
Comprei cassetes de vídeo e DVDs de Filmes INDIANOS, JAPONESES, AMERICANOS, FRANCESES, ITALIANOS e INGLESES, já em PORTUGAL. Não posso vê-los todos agora. Não há tanto tempo disponível!
Mas sou um sentimental e guardo-os no meio das minhas humildes relíquias e tesouros da infância como lembrança dos meus dias mais puros, belos e felizes. Lembro-me bem de como caminhava feliz sozinho de volta para casa, depois de mais uma sessão, e de como ao longo do percurso do centro da cidade para os arredores, junto ao Torrone Velho, caminhava silencioso e iluminado pelo luar, sonhava, depois da matiné da tarde. Viajava pelo MUNDO! Viajava!

Delmar Maia Gonçalves

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Matusse na Sala de Aula

“Sê paciente na adversidade e constante na prece”
Romanos 12:12


MATUSSE NA SALA DE AULA

Matusse era uma criança negra moçambicana com seis aninhos. Tinha uns enormes olhos castanhos e era diferente de todas as outras. Muito atento, educado e respeitador, estudava na segunda classe do ensino primário, na Escola Primária de Sinacura em Quelimane e parecia entender tudo o que a Professora Irmã Ester dizia, por isso é que quando o interpelava, ele respondia prontamente.
Ah, mas a sua principal virtude na sala, era a de respeitar todos os colegas e os seus haveres, embora modestamente não exigisse nunca o mesmo dos outros.
O tempo passava, no entanto, qualquer coisa de grave se passava com ele ultimamente, o seu silêncio denunciava algo estranho, muito estranho!
Em certas alturas, isso era mais do que evidente. É que ele adormecia agarrado aos livros e cadernos, habituado que estava aos roubos frequentes no seu bairro na Missão de Coalane, nos chamados subúrbios de Quelimane. Algo perfeitamente anormal.
Mas porque estaria o Matusse tão triste? Porque adormeceria ele em plena aula?
Castiano, um seu amigo muito próximo, confidenciara-me que Matusse saía de casa de manhã sem tomar o pequeno almoço e não levava consigo nunca uns míseros trocados para comprar uma patanicua. É que ele adorava patanicuas! Mas nem para isso ele tinha dinheiro.
Por vezes a velha Vitória, a que vendia as patanicuas, com muita pena lhe dava apenas uma. E com muita pena mesmo, pois, por um lado, sempre lhe eram úteis uns trocados e por outro tinha muita afeição por Matusse. E tinha tão bom coração aquela velha!...
Mas à tarde o Matusse voltava novamente à escola sem almoçar. É que a sua mãe trabalhava e almoçava no local de trabalho (na fábrica de cervejas, como empregada de limpeza), e o seu pai desempregado, era um alcoólico degenerado. E o dinheiro das esmolas que se destinava ao almoço acabava sempre na taberna do Sô Reis no velho bairro popular.
E até ao final do ano lectivo, o quotidiano do Matusse era sempre o mesmo. Não tomava o pequeno-almoço, adormecia na aula porque não almoçava. Seus pais não o entendiam, nem tinham tempo para ele, a professora andava demasiado ocupada com todos para pensar unicamente no caso deste bom aluno que adormecia em plenas aulas.
E o resultado disto foi o chumbo surpreendente daquele que poderia ter sido o melhor aluno da turma, mas que não tivera a estrela da sorte do seu lado, nem os Deuses.

Delmar Maia Gonçalves
Olivais/Lisboa, 25 de Junho de 1995.

Glossário:
Patanicua -
doce de açúcar com coco ou farinha.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Mataram Bafo de Bode

“O mundo não está ameaçado pelas pessoas más, e sim por aquelas que permitem a maldade”.
Einstein
MATARAM O BAFO DE BODE

Chamava-se Bafo de Bode? Não. Mas era assim que eu via, olhava, pensava, imaginava e chamava aquele homem, aquele velho personagem, aquele cidadão ao mesmo tempo conhecido e anónimo, talvez inocente, talvez culpado.
Mataram-no. Não sei se justa ou injustamente, não sei como nem porquê. Haverão mortes justas? Tenho dúvidas!
Os homens são assim, ou amam ou odeiam, nunca são indiferentes!
Mataram um homem que sendo pobre não mendigava e no entanto incomodava.
Era incómodo porque espelhava aquilo que não queríamos ser, espalhava aquilo que não queríamos ver era o rosto da nossa vergonha, era a prova do nosso egoísmo, da nossa indiferença, da nossa culpa, dos nossos valores vigentes, das nossas ambições, dos nossos receios, das nossas sociedades, dos nossos modelos de sociedades.
Deambulava pelas tabernas de Matarraque, Madorna, Penedo, Murtal e Parede (nos arredores da grande Lisboa), por vezes de madrugada, outras vezes à noite. Era um filho da noite!
E como ele, existem muitos em Lisboa, Maputo, Nova Deli, São Paulo, Camberra ou Nova Iorque.
As pessoas encaravam-no com alguma indiferença, havia nos olhares uma certa repulsa e porque o egoísmo sempre se sobrepôs à razão, ele multiplicou o seu bafum até ao último suspiro.
Foi encontrado morto na madrugada de dezassete de Novembro. Que erro fatídico terá cometido ele?
O dedo acusador dirige-se a nós, homens, aos nossos valore vigentess e ideais e às nossas sociedades profundamente competitivas, consumistas, egoístas e materialistas.
E enquanto bafos de bodes continuarem a nascer, morrer ou ser mortos, a nossa consciência não nos perdoará.
Chegou a hora de reflectirmos seriamente acerca de quantos bafos de bode haverá por esse mundo fora e sobretudo sobre os porquês desse facto.


Delmar Maia Gonçalves
(Escritor e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD)
Madorna/Parede, 24 de Abril de 1993.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O meu avô Dalas e o Sporting

Chamava-se Dalas era moçambicano, respirava futebol e vivia intensamente o Sporting Clube de Portugal na longínqua e pacata cidade nortenha moçambicana de Quelimane, na Zambézia. Perto dele ninguém se atrevia a dizer mal do Sporting. Ele próprio era o Sporting, com o seu português refinadíssimo, pura poesia!
Era um “espectáculo” dentro do espectáculo.
Dalas significa na língua local chuabo “fome”, e quanto ao “s” parecia sempre sugerir Sporting, uma feliz junção, que dava qualquer coisa como fome de Sporting latinamente falando.
Para ele, todos os bons jogadores deveriam jogar no Sporting Clube de Quelimane. E julgo que tinha razão! Era uma fábrica de talentos!
O ex-Sporting clube de Quelimane tinha então ganho o último título provincial em 1979, com uma equipa de sonho: Chico, Caetano, Camilo, Cadango, Banda, Zé Manel, Gastão, Pélé, Faruk, João Onofre, Lobo; e como suplentes: Cassimo, Jarres, Sérgio, Carrasco, Jaime, Moreira,Pela e Cheta; orientada pelo Professor José Geneto. No ano seguinte foi a razia completa, uns foram cumprir o serviço militar, outros foram reforçar outras equipas mais poderosas. Depois, foram longos anos de jejum e um crónico lugar de vice-campeão atrás do excelente e irreverente Clube Cessel do Luabo; em 1980 venceu já com uma nova designação de “Palmeiras” (coisas da revolução!) a Taça Disciplina do Campeonato Nacional, com a proeza de nenhum jogador seu ter apanhado cartões. No entanto, isso não impediu que o clube acabasse a competição sem pontuar, na última posição, proeza que viria de resto a repetir em 1981.
Já em 1985, venceu o campeonato provincial justamente, imagine-se na secretaria da Associação Provincial de Futebol da Zambézia, em face de um empate 2-2 em casa, no Campo 7 de Abril, e uma derrota 0-1 fora, na finalíssima com o Desportivo de Mocuba. Houve alegria mas não tanta, foi uma vitória amarga.
A justificação para a atribuição do título ao Palmeiras, foi uma suposta má inscrição no Desporto de Mocuba de um ex. jogador do Palmeiras que alinhou nos dois jogos da finalíssima pelos Mocubenses e que não estaria desvinculado do Clube Verde e Amarelo, por não possuir a carta desobriga.
Passaram-se entretanto seis longos anos de jejum para o Palmeiras, para desgosto do avô Dalas. Em 1991 o Clube voltou a vencer o campeonato provincial, desta vez no campo e o velho Dalas que já andava doente, acabou por sucumbir.
Ficou mais pobre o futebol zambeziano sem esta figura peculiar.
Morreu doente, mas terá morrido decerto descansado, pois o seu Palmeiras, aliás Sporting (juridicamente nunca deixou de o ser) venceu, tornou-se campeão e avô Dalas imortalizou-se. Merecia uma estátua aquele soba!
Entretanto, o Palmeiras, voltou a chamar-se oficialmente Sporting Clube de Quelimane, a partir de 1994, um velho sonho do avô Dalas e o Sporting Clube de Portugal venceu a Taça de Portugal de 1994/1995. De resto não sei se a sua alegria foi total ou apenas parcial. É que o Sporting Clube de Portugal, o seu Sporting- Mor foi adiando as suas promessas de vitória nos sucessivos campeonatos portugueses.
Finalmente em 1999/2000 o Sporting Clube de Portugal venceu o Campeonato de Portugal quebrando o longo jejum de títulos. Houve muita festa e o avô Dalas certamente rejubilou de alegria.
Era o meu avô Dalas (uma grande figura do futebol Zambeziano) e eu ainda não o esqueci.
Siavuma pois avô!


Delmar Maia Gonçalves
(Escritor e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD)
Madorna, 5 de Julho de 1994.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Matusse - o meu herói na escola

Ainda me lembro do meu tempo de escola primária em Quelimane – Moçambique.
Quase todos iguais, de batinhas brancas, quase todos meninos da mamã, só ele era diferente. Quando aparecia vinha sempre limpo, as calças rotas, a bata sem 2 botões, e calçava uns tamancos.
Tinha enormes olhos castanhos brilhantes, numacara que parecia estar sempre triste.
Ele era o único que era diferente, o mais humilde,o único que tinha coragem e por isso passava o tempo a ser gozado pelos outros.
Uma vez saltou pela janela. A directora da escola ordenou rapidamente a sua captura, ninguém o encontrou; estava escondido na casa de banho das raparigas.
Apenas eu, o tinha visto a entrar a correr mas, não dissera nada a ninguém.
Era o meu herói.
Quantas vezes sonhei ser como ele, não pensar em nada, ser triste e fazer-me alegre, enfim fazer aquilo que me apetecesse na altura, mas acabava sempre imaginando o cinto do meu pai a aquecer-me o rabo.
Ele tinha 3 irmãos e a sua família era pobre.
O pai e os 2 irmãos mais velhos engraxavam sapatos num dos anexos da praça. Sua mãe andava por aí com o filho mais novo semi-nu ao colo, pedindo esmola de casa em casa como acontece na maior parte das grandes cidades.
Ele era preto, apenas mais escuro do que a maior parte dos meus amigos, mas sabia jogar a bola como ninguém conhecia a tabuada toda e sobretudo respeitava a professora.
Era o meu amigo Matusse que talvez se fosse igual aos outros “batinhas brancas” eu não recordasse agora.
Foi o meu herói e ainda não o esqueci.