segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Recado aos Senhores Doutores

“A cega ignorância é que nos engana. Ó míseros mortais, abri os olhos!”
Leonardo Da Vinci

RECADO AOS SENHORES DOUTORES
Por vezes « a montanha acaba por parir um rato », diz um velho ditado.
Em tempos, ouvi com atenção meu avô dizer « mais vale prevenir do que remediar » e « mais vale andar devagar e bem, do que depressa e mal ». E, de facto, tinha razão!
Embora respeite as pessoas por aquilo que são, e não por aquilo que aparentam ser, não me apraz nada registar que não há regra sem excepção, isto é, pela negativa há pessoas que são o que são, mas também aparentam ser aquilo que são!
O certo é que quando afirmamos “para ser verdadeiro..., em pura verdade...”, as mais das vezes estamos a ser falsos; quando insistimos que“ nada temos contra os negros, nada temos contra os árabes muçulmanos” é porque somos demasiado pelos cristãos, é porque somos demasiado pelos brancos; e quando passeamos pelas ruas e pelos media a pancarta de doutor, é porque de doutor nos sobra o nome.
Para bom entendedor meia palavra basta. Não é o título académico de «doutor» que nos fará deixar de ser modestos e humildes nem são os cargos oficiais que nos tornarão egocêntricos, snobs e nos farão olhar para os «outros» de alto a baixo, que o céu até tem dono!! Ou não será?
Na verdade, até nos dava muito prazer juntarmo-nos aos não académicos, em suma, ao povo iletrado, para lhes mostrarmos o caminho que nos parece mais acertado! Seria mais nobre e, para além disso, só ficaríamos a ganhar; mesmo que fosse só em simpatia e generosidade!
Os cargos oficiais são temporários, não são vitalícios. O povo, esse sim, é eterno ou pelo menos, eterniza-se para além da vida!
É preciso que reflictam na importância que tem o nome que nos é atribuído. Já pensaram no significado e no valor que cada nome encerra, senhores “doutores”? Já pensaram que antes de sermos «doutores» já tínhamos um nome? Já éramos aquilo que somos? Sabiam que esses nomes nos remetem para as nossas origens?
Valerá a pena ignorar as nossas origens, a formação humana, as relações humanas em nome da formação académica, ou de um cargo oficial? Em nome da dominação vale a pena mudar o mundo?
O modo de pensar ocidental tem sido massivamente impregnado e perversamente estruturado pela lógica do “terceiro excluído”. Dito por palavras mais concretas, pela “lógica da disjunção”, e da exclusão. Quer dizer, ou se é verdadeiro ou se é falso; ou se é “preto” ou se é “branco”; ou se é bom ou se é mau; ou se é homem ou se é mulher; ou se é doutor ou não se é.
“Ser ou não ser”, estigmatizava-nos sempre e eternamente Shakespeare. Estigma de mais de trezentos anos, repisando a marca disjuntiva de Aristóteles. Acontece, no entanto, que a vida não funciona segundo a lógica da exclusão. Nem a vida, nem nós, nem os mais simples cidadãos deste mundo, nem por sinal os nossos “eternos” e enigmáticos políticos.
Sou demasiado pequeno para isso, demasiado cobarde para tamanha façanha, sou mesmo um fraco, mas senhores doutores, na verdade, não me pude conter e, vai daí, aquele desabafo. Quero que tenham em atenção todo este tempo em que permaneci calado, muito calado! Chega! Basta! Acredito na liberdade!

Enfie pois, a carapuça quem quiser!
Delmar Maia Gonçalves
(Escritor e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD)
Parede, 04 de Agosto de 1999.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Mataram Bafo de Bode

“O mundo não está ameaçado pelas pessoas más, e sim por aquelas que permitem a maldade”.
Einstein
MATARAM O BAFO DE BODE

Chamava-se Bafo de Bode? Não. Mas era assim que eu via, olhava, pensava, imaginava e chamava aquele homem, aquele velho personagem, aquele cidadão ao mesmo tempo conhecido e anónimo, talvez inocente, talvez culpado.
Mataram-no. Não sei se justa ou injustamente, não sei como nem porquê. Haverão mortes justas? Tenho dúvidas!
Os homens são assim, ou amam ou odeiam, nunca são indiferentes!
Mataram um homem que sendo pobre não mendigava e no entanto incomodava.
Era incómodo porque espelhava aquilo que não queríamos ser, espalhava aquilo que não queríamos ver era o rosto da nossa vergonha, era a prova do nosso egoísmo, da nossa indiferença, da nossa culpa, dos nossos valores vigentes, das nossas ambições, dos nossos receios, das nossas sociedades, dos nossos modelos de sociedades.
Deambulava pelas tabernas de Matarraque, Madorna, Penedo, Murtal e Parede (nos arredores da grande Lisboa), por vezes de madrugada, outras vezes à noite. Era um filho da noite!
E como ele, existem muitos em Lisboa, Maputo, Nova Deli, São Paulo, Camberra ou Nova Iorque.
As pessoas encaravam-no com alguma indiferença, havia nos olhares uma certa repulsa e porque o egoísmo sempre se sobrepôs à razão, ele multiplicou o seu bafum até ao último suspiro.
Foi encontrado morto na madrugada de dezassete de Novembro. Que erro fatídico terá cometido ele?
O dedo acusador dirige-se a nós, homens, aos nossos valore vigentess e ideais e às nossas sociedades profundamente competitivas, consumistas, egoístas e materialistas.
E enquanto bafos de bodes continuarem a nascer, morrer ou ser mortos, a nossa consciência não nos perdoará.
Chegou a hora de reflectirmos seriamente acerca de quantos bafos de bode haverá por esse mundo fora e sobretudo sobre os porquês desse facto.


Delmar Maia Gonçalves
(Escritor e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD)
Madorna/Parede, 24 de Abril de 1993.

Vozes

Vozes ancestrais

me murmuram.

Com que propósitos

me murmuram?

Vozes ancestrais

me segredam.

Com que intenções

me segredam?

Vozes de silêncio

Se lamentam

Porque razões

se lamentam?


Delmar Maia Gonçalves

Lisboa/Carnide, 5 de Maio de 2006.

Glossário para um Povo e uma Pátria

Ao Amigo João Dias,

Inteligência - Sabem ser humildes quando devem sê-lo sem perderem a dignidade.
Paciência - Virtude magnânima sempre presente em todos os momentos da história Maubere.
Prudência - A história ensinou-os a verem para crerem e da experiência se fez vida.
Firmeza - A atitude permanente na defesa de princípios.
Grandeza - Resultante de tanta inteligência, paciência e prudência.
Nobreza - Eterno estado de espírito do povo Maubere.
Resistência - Resistiram a tudo e todos como povo e nação.
Riqueza - O poder da resistência da Cultura contra o invasor que fez deste povo aquilo que é e será: Pátria chamada Timor Lorosae.


Delmar Maia Gonçalves
Parede, 8 de Outubro de 1999.

Magister Picasso

O teu Ego

Foi o derradeiro sepulcro

Das tuas paixões

A ideia da perfeição absoluta

Nunca te olvidou

Perseguiu-te

Obcecou-te!

E construíste um castelo de areia

Pejado de paletes, telas, tintas

E obsessões

Próprio dos magnos

Que conscientes da efemeridade

Que olham ao espelho

E se confundem.

Não só precisavas

De bajulação alheia

Mas também de auto-bajulamento

“Uma atitude menor”!

Precisavas de pintar

Pedra em vez de corpo

Precisavas de tempo

Para aprender

Existiria a palavra humildade

No teu vocabulário?

Magister já eras!

À espécie humana sobra a tua arte

A ti a imortalidade!


Delmar Maia Gonçalves

Ponte de Lima, 02 de Maio de 2008.

Ilustração:
"Magister Picasso"
De Vera Novo Fornelos
(Poetisa e Artista Plástica)
Viana do Castelo, Setembro de 2008

Náufrago Africano


Sou um náufrago
Em busca
De um porto seguro.

Delmar Maia Gonçalves
Parede, 1 de Maio de 2005.


Ilustração: "Náufrago Africano"
De Fernando Oliveira
(Professor de História e Artista Plástico)
Maio de 2008.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Portugal corre o risco de deixar de falar português para passar a falar estrangeiro. Sic! E os portugueses, em vez de se preocuparem com a substituição do português pelo inglês em Moçambique, deveriam preocupar-se com o português em Portugal.


Delmar Maia Gonçalves
In Jornal "Público", em 28 de Fevereiro de 1996.
In Revista "África Hoje", em Março de 1996.
Os abutres de mau agoiro são os parentes voadores mais próximos das quizumbas.


Delmar Maia Gonçalves
Lisboa/Laranjeiras, 25 de Junho de 2009.
Quando algo vai realmente mal, lá estão os insaciáveis abutres devorando o último naco de carne.


Delmar Maia Gonçalves
Lisboa/Laranjeiras, 25 de Junho de 2009.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O meu avô Dalas e o Sporting

Chamava-se Dalas era moçambicano, respirava futebol e vivia intensamente o Sporting Clube de Portugal na longínqua e pacata cidade nortenha moçambicana de Quelimane, na Zambézia. Perto dele ninguém se atrevia a dizer mal do Sporting. Ele próprio era o Sporting, com o seu português refinadíssimo, pura poesia!
Era um “espectáculo” dentro do espectáculo.
Dalas significa na língua local chuabo “fome”, e quanto ao “s” parecia sempre sugerir Sporting, uma feliz junção, que dava qualquer coisa como fome de Sporting latinamente falando.
Para ele, todos os bons jogadores deveriam jogar no Sporting Clube de Quelimane. E julgo que tinha razão! Era uma fábrica de talentos!
O ex-Sporting clube de Quelimane tinha então ganho o último título provincial em 1979, com uma equipa de sonho: Chico, Caetano, Camilo, Cadango, Banda, Zé Manel, Gastão, Pélé, Faruk, João Onofre, Lobo; e como suplentes: Cassimo, Jarres, Sérgio, Carrasco, Jaime, Moreira,Pela e Cheta; orientada pelo Professor José Geneto. No ano seguinte foi a razia completa, uns foram cumprir o serviço militar, outros foram reforçar outras equipas mais poderosas. Depois, foram longos anos de jejum e um crónico lugar de vice-campeão atrás do excelente e irreverente Clube Cessel do Luabo; em 1980 venceu já com uma nova designação de “Palmeiras” (coisas da revolução!) a Taça Disciplina do Campeonato Nacional, com a proeza de nenhum jogador seu ter apanhado cartões. No entanto, isso não impediu que o clube acabasse a competição sem pontuar, na última posição, proeza que viria de resto a repetir em 1981.
Já em 1985, venceu o campeonato provincial justamente, imagine-se na secretaria da Associação Provincial de Futebol da Zambézia, em face de um empate 2-2 em casa, no Campo 7 de Abril, e uma derrota 0-1 fora, na finalíssima com o Desportivo de Mocuba. Houve alegria mas não tanta, foi uma vitória amarga.
A justificação para a atribuição do título ao Palmeiras, foi uma suposta má inscrição no Desporto de Mocuba de um ex. jogador do Palmeiras que alinhou nos dois jogos da finalíssima pelos Mocubenses e que não estaria desvinculado do Clube Verde e Amarelo, por não possuir a carta desobriga.
Passaram-se entretanto seis longos anos de jejum para o Palmeiras, para desgosto do avô Dalas. Em 1991 o Clube voltou a vencer o campeonato provincial, desta vez no campo e o velho Dalas que já andava doente, acabou por sucumbir.
Ficou mais pobre o futebol zambeziano sem esta figura peculiar.
Morreu doente, mas terá morrido decerto descansado, pois o seu Palmeiras, aliás Sporting (juridicamente nunca deixou de o ser) venceu, tornou-se campeão e avô Dalas imortalizou-se. Merecia uma estátua aquele soba!
Entretanto, o Palmeiras, voltou a chamar-se oficialmente Sporting Clube de Quelimane, a partir de 1994, um velho sonho do avô Dalas e o Sporting Clube de Portugal venceu a Taça de Portugal de 1994/1995. De resto não sei se a sua alegria foi total ou apenas parcial. É que o Sporting Clube de Portugal, o seu Sporting- Mor foi adiando as suas promessas de vitória nos sucessivos campeonatos portugueses.
Finalmente em 1999/2000 o Sporting Clube de Portugal venceu o Campeonato de Portugal quebrando o longo jejum de títulos. Houve muita festa e o avô Dalas certamente rejubilou de alegria.
Era o meu avô Dalas (uma grande figura do futebol Zambeziano) e eu ainda não o esqueci.
Siavuma pois avô!


Delmar Maia Gonçalves
(Escritor e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD)
Madorna, 5 de Julho de 1994.