terça-feira, 18 de agosto de 2009

Mulher XXIX


De comum
tinham apenas
meu desamor,
e a paixão
que por mim
nutriam.
Com ambas
partilhei
cumplicidades.
Fica a mágoa
de termos
sido egoístas.
Queria amor
deram-me paixão.
Queriam amor
Dei-lhes desamor.


Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 12 de Outubro de 2001.


Ilustração:
"Mulher XXIX"
Alexandra
(Artista Plástica)
Lisboa, 2001.

Voltarei

Aos povos do Uganda, Serra Leoa, Libéria, Cabinda, Palestina, Sahara Ocidental e Tibete.

Tu uma pérola no Índico
E eu
Um viandante
Encalhado no atlântico

Estou longe
Muito longe
Atravessei mares e oceanos
Escalei montanhas e planaltos
Percorri florestas e desertos

A marcha foi longa
Mas tem retrocesso

Um dia descobrirás
O atlântico já descobriu
E vai devolver-me.

Voltarei
Partiremos então
Em viagem nupcial
Que vem de longe com o tempo
E iremos à Zalala
Numa simbiose ímpar.

Como sempre:
Eu sou tu, tu és eu
Não te esqueças
Moçambique
Voltarei!

Delmar Maia Gonçalves
Parede, 05 de Julho de 1995.


Glossário:
Zalala –
Praia que fica nos arredores de Quelimane.

Ilustração:
"Voltarei"
De Fabio Inglese
(Artista Plástico Italiano)
Lisboa, 2007.

Deixem-me Sonhar


Deixem-me sonhar
Um sonho que não me pertence
Deixem-me sonhar
um sonho que seja para
além do sonho
Deixem-me sonhar
um sonho em que as utopias humanizantes
se tornam realidade
e os pesadelos desumanizantes
se tornam utopia.
Deixem-me sonhar
um sonho em que a paz
entre os homens seja encontrada
muito para além das palavras e selos.

Delmar Maia Gonçalves
Sintra/Parede, 25 de Maio de 2003.

Ilustração:
"Deixem-me Sonhar"
De Cristina Araújo
(Artista Plástica e Professora de Educação Visual e Tecnológica)
Lisboa, Setembro de 2008.


Criança, Mulher e Filha

Para Luna Delmar

Queria contar-te
o quanto este mundo é belo.
Queria contar-te
quanta alegria trazem as crianças
que nascem um pouco por todo o lado.
Queria contar-te
que apesar das dificuldades da vida
haverá sempre uma saída razoável,
aceitável, possível.

Queria expressar-te
todo o amor que sinto por ti
Queria expressar-te
todas as alegrias que tive na vida.

Queria falar-te
das minhas apreensões e medos
Queria falar-te
das armadilhas que o mundo tece.

Queria falar-te
das ilusões que nos transmitem
diariamente
Queria falar-te
das riquezas provenientes
da diferença.
Queria falar-te
da beleza da fantasia.
Queria falar-te
da pureza da natureza
e da sua vitalidade.
Queria falar-te
de Moçambique, minha pátria amada.
Queria falar-te
das virtudes da paz
e dos horrores da guerra.
Queria falar-te,
por fim, da inevitabilidade
da morte.

Delmar Maia Gonçalves
São Domingos de Rana, 7 de Abril de 1999.

Ilustração:
"Para Luna Delmar..."
De Vera Novo Fornelos
(Poetisa e Artista Plástica)
Viana do Castelo, 2007.

Queria que o meu país...


Eu queria que o meu país
fosse feito de alegria
Queria que no meu país
não houvesse ódio
Queria que o meu país
não conhecese a guerra
só amor em abundância
amor e muita criança.
Mas com a barriga cheia!
Queria que o meu país
fosse um país sem tristezas
um país sem agressão
e que houvesse sempre pão.
Queria ver o meu país
Como um enorme jardim sem igual
cheio de Acácias,
Buganvílias e Cravos.

Delmar Maia Gonçalves
Quelimane, 4 de Abril de 1984.

Ilustração:
De Roberto Chichorro
(Artista Plástico Moçambicano)
Lisboa, 2002.

Singularidade Africana


Quando carrego no “d”
Alguns doutos ignorantes
Riem-se da inovação
Quando mastigo um “r”
Lá vem a correcção dos
Supostos eruditos
Quando me pronuncio
Moçambicanamente
Alguém expressa
Um sorriso estridente
Quase incontínuo
Deixem-me dar o grito
Que não é do Ipiranga
Mas que o é.
- Caramba!
Escrevo o país de mim
Falo o povo de mim
Falo o espaço que é meu
Canto o canto que é meu.

Ninguém compreende
Minha singularidade
Talvez Camões
Compreendesse
E eu danço nela.
Delmar Maia Gonçalves
Parede/Lisboa, 25 de Agosto de 1993.

Ilustração:
"Singularidade Africana"
De Isabel Carreira
(Artista Plástica, Professora de Literatura Portuguesa e Inglesa e Mestre em Relações Interculturais)
Lisboa, 2006.

Tabuleiro de Xadrez


Sou o que sou, não o nego,
para os negros sou mulato
ou misto
Para os brancos sou preto ou mulato
E eu sou igual a mim próprio
e resultado do famigerado
jogo de xadrez
de quadrados pretos e brancos,
numa simbiose ímpar.
Sim, sou só comparável
ao tabuleiro de xadrez
de Tenreiro
Enquanto dois intervenientes
disputam um argumento,
eu abstenho-me
calado.

Delmar Maia Gonçalves
Maputo/Parede, 2 de Fevereiro de 1985.


Ilustração:
"Tabuleiro de Xadrez"
De Isabel Carreira
(Artista Plástica, Professora de Literatura Portuguesa e Inglesa e Mestre em Relações Interculturais)
Lisboa, 2006.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O Rei de Kanem Borno as Sete Esposas

Quando um homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe é favorável”.
Séneca

O REI DE KANEM BORNO E AS SETE ESPOSAS
Era uma vez, no longínquo reino africano de Kanem Borno – junto da actual Nigéria moderna (em 1067 o historiador Espano-Árabe El Bekir descreveu a extensão deste território como indo do Lago Chade até ao rio Níger a oeste; Kanem dominava toda a rota comercial do leste através do deserto do Sahara quase até aos arredores de Tripoli bem como a região Wadai até à parte superior do Nilo além da sua sede na área do lago Chade) – governado por um sábio, poderoso e generoso rei, Mai Dunama Dabalemi, que tinha sete esposas. Seis eram nobres africanas e uma, a sétima, nobre asiática que lhe tinha sido oferecida pelo grande sultão industânico Sultan Singh Rai, que visitara o reino acompanhado da sua esposa, para incrementar as trocas comerciais e as relações diplomáticas e de amizade.
O rei dedicava um dia a cada uma das suas belas esposas.
Todas tinham tratamento igual; não havia ciúmes ou inveja entre elas. Até que, um dia, o rei reuniu com o Conselho dos Anciãos e este deliberou que se devia nomear uma rainha das rainhas entre as suas sete esposas.
A ambição surgiu como um primeiro sinal de mudança de atitude nas esposas do rei. Todas queriam ser nomeadas rainha das rainhas com excepção da asiática, que dizia nunca ter ambicionado a tanto, pois era uma estrangeira.
Mas o destino dela estava traçado e era precisamente favorável à sua nomeação como rainha das rainhas. O povo também a amava por possuir bom coração.
Decidiu o rei e o conselho de anciãos aprovou. Tornou-se rainha das rainhas.
O rei ficou muito feliz, pois achava a sua sétima esposa bela, simples e muito leal. Tal não sucedia relativamente às outras que embora belas tornaram-se caprichosas.
Começaram então os problemas para o rei e para este reino de tranquilidade.
As seis belas esposas descontentes elaboraram um maquiavélico plano que visava a morte da rainha. Na verdade, tratava-se de uma conspiração que tinha o apoio de alguns elementos influentes na corte central.
Informado pelos seus leais espiões e súbditos, o rei apercebeu-se da conspiração e mandou cortar as cabeças das suas seis esposas, juntamente com as dos seus conselheiros acusados de traição, tendo optado por ficar definitivamente com uma esposa apenas, a rainha.
Segundo ele, ter mais do que uma esposa só trazia disputas, problemas e conflitos, e nunca a paz de que todos necessitamos. Paz com Deus, com os outros, com a vida, com o mundo e connosco próprios.
Finalmente, o rei reuniu com o Conselho dos Anciãos e decidiu que ninguém do reino poderia ser polígamo, isto é, ter mais do que uma esposa, decisão apoiada e votada por maioria consensual.
O rei e a rainha viveram juntos e felizes para sempre. Ele generoso, justo, magno, poderoso e sábio como sempre e ela, bela, bondosa, leal, e simples.

Delmar Maia Gonçalves

(Escritor e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD)
Parede, 10 de Junho de 1988.


Glossário:
Kanem Borno – Um antigo reino africano da Nigéria.
Mai Dunama Dabalemi - Antigo rei do Kanem Borno.

Ilustração:
"O Rei de Kanem Borno e as sete esposas"
De João de Barros
(Artista Plástico e Arquitecto Guineense)
Lisboa, 2008.


Malfez Razão

“Se podemos sonhar, também podemos tornar os nossos sonhos realidade.”
Walt Disney

Malfez Razão
O menino africano que queria ser génio
Era uma vez um menino Moçambicano, de nome Malfez Razão dos Santos, nascido nos arredores de Quelimane, que queria ser génio. Não, não era europeu, nem era branco (condição número um para ser considerado como tal na Europa, nem tinha grandes padrinhos brancos, era negro mas queria ser como Einstein, Cervantes, Camões, Mozart, Platão ou Sócrates. Era apenas mais um jovem ambicioso, mas africano!
Quando lhe perguntavam “Quando fores grande o que queres ser?”, ele dizia de pronto: “- Quero ser um génio, um cientista! No meu país já há maningues políticos e militares!”
Na verdade, nisso até tinha razão; por vezes na vida há coisas que pecam por excesso. E no nosso país não é excepção!
Mal o menino atingiu a maioridade, mamã Vitória mandou-o para a Europa, onde foi estudar com uma bolsa de estudo da Igreja Católica, conseguida com muitos sacrifícios, isto é, com muito suor e com uma boa “cunha”!
Chegado a Paris, cidade das luzes, descobriu que havia tudo menos vagas para génios. Quanto às luzes, nem vê-las! Era apenas uma metáfora!
Mas decidiu não desiludir mamã Vitória, que dizia com muito orgulho na terra: “- Meu filhinho foi estudar mesmo na Europa para ser gente importante como os políticos igual a Mandela ou o grande Poeta Craveirinha!”
No mundo ocidental há tanta promiscuidade, tantas tentações, tanta atraente ostentação, que tornam o homem um ser frágil, inconstante, inseguro, indefeso e vulnerável o que dificulta o propósito de alguém que quer ser génio ou que já é genial. Com a agravante de haverem também os jogos de interesses , o preconceito, o “racismo” e a “xenofobia”, isto é, funciona em geral segundo a lógica da exclusão.
Malfez Razão, que ganhou uma bolsa de estudos que servia para cinco anos, (graças à mamã Vitória!), o suficiente para iniciar e terminar um curso superior, decidiu ficar, mesmo que fosse só para não desiludir mamã Vitória, pensando sempre para consigo: “- Chiçá, não volto agora para o meu país, lá há maningues políticos, pobreza e miséria, e mamã Vitória ficaria triste comigo!”
Depois de sete anos na Europa, regressou à terra, não como génio, mas como um bêbedo inveterado, daqueles que não fazem falta em lado nenhum. Mas mamã Vitória, já mais velhinha mas sempre sábia, subtil e bondosa, ia dizendo às amigas no seu jeito maroto:”- Coitado do meu filhinho; é capaz estudou tanto que ficou doido! Mas é capaz parece os génio são todos maluco completamente, não é?”
E assim viveu mamã Vitória até ao último suspiro, com um filho alcoólico (eterno candidato a génio!) e a sua eterna verdade da mentira.


Delmar Maia Gonçalves
(Escritor e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD)
Parede, 5 de Janeiro de 1996.

Glossário:
Maningue - muito
Maningues – muitos
Craveirinha – José Craveirinha, poeta e escritor moçambicano.
Mandela – Nelson Mandela, primeiro presidente negro da República da África do Sul.

Ilustração:
"Malfez Razão"
De Fabio Inglese
(Artista Plástico Italiano)
Lisboa, 2007.


Recado aos Senhores Doutores

“A cega ignorância é que nos engana. Ó míseros mortais, abri os olhos!”
Leonardo Da Vinci

RECADO AOS SENHORES DOUTORES
Por vezes « a montanha acaba por parir um rato », diz um velho ditado.
Em tempos, ouvi com atenção meu avô dizer « mais vale prevenir do que remediar » e « mais vale andar devagar e bem, do que depressa e mal ». E, de facto, tinha razão!
Embora respeite as pessoas por aquilo que são, e não por aquilo que aparentam ser, não me apraz nada registar que não há regra sem excepção, isto é, pela negativa há pessoas que são o que são, mas também aparentam ser aquilo que são!
O certo é que quando afirmamos “para ser verdadeiro..., em pura verdade...”, as mais das vezes estamos a ser falsos; quando insistimos que“ nada temos contra os negros, nada temos contra os árabes muçulmanos” é porque somos demasiado pelos cristãos, é porque somos demasiado pelos brancos; e quando passeamos pelas ruas e pelos media a pancarta de doutor, é porque de doutor nos sobra o nome.
Para bom entendedor meia palavra basta. Não é o título académico de «doutor» que nos fará deixar de ser modestos e humildes nem são os cargos oficiais que nos tornarão egocêntricos, snobs e nos farão olhar para os «outros» de alto a baixo, que o céu até tem dono!! Ou não será?
Na verdade, até nos dava muito prazer juntarmo-nos aos não académicos, em suma, ao povo iletrado, para lhes mostrarmos o caminho que nos parece mais acertado! Seria mais nobre e, para além disso, só ficaríamos a ganhar; mesmo que fosse só em simpatia e generosidade!
Os cargos oficiais são temporários, não são vitalícios. O povo, esse sim, é eterno ou pelo menos, eterniza-se para além da vida!
É preciso que reflictam na importância que tem o nome que nos é atribuído. Já pensaram no significado e no valor que cada nome encerra, senhores “doutores”? Já pensaram que antes de sermos «doutores» já tínhamos um nome? Já éramos aquilo que somos? Sabiam que esses nomes nos remetem para as nossas origens?
Valerá a pena ignorar as nossas origens, a formação humana, as relações humanas em nome da formação académica, ou de um cargo oficial? Em nome da dominação vale a pena mudar o mundo?
O modo de pensar ocidental tem sido massivamente impregnado e perversamente estruturado pela lógica do “terceiro excluído”. Dito por palavras mais concretas, pela “lógica da disjunção”, e da exclusão. Quer dizer, ou se é verdadeiro ou se é falso; ou se é “preto” ou se é “branco”; ou se é bom ou se é mau; ou se é homem ou se é mulher; ou se é doutor ou não se é.
“Ser ou não ser”, estigmatizava-nos sempre e eternamente Shakespeare. Estigma de mais de trezentos anos, repisando a marca disjuntiva de Aristóteles. Acontece, no entanto, que a vida não funciona segundo a lógica da exclusão. Nem a vida, nem nós, nem os mais simples cidadãos deste mundo, nem por sinal os nossos “eternos” e enigmáticos políticos.
Sou demasiado pequeno para isso, demasiado cobarde para tamanha façanha, sou mesmo um fraco, mas senhores doutores, na verdade, não me pude conter e, vai daí, aquele desabafo. Quero que tenham em atenção todo este tempo em que permaneci calado, muito calado! Chega! Basta! Acredito na liberdade!

Enfie pois, a carapuça quem quiser!
Delmar Maia Gonçalves
(Escritor e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD)
Parede, 04 de Agosto de 1999.