terça-feira, 18 de agosto de 2009

Mulher XV


Teus olhos
um íman inevitável.
Teus lábios
um chamamento inigmático.
Teu corpo
um convite vedado.
Tua vida
um mundo de paixões.

Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 1997.

Ilustração:
"Mulher XV"
Alexandra
(Artista Plástica)
Lisboa, 2001.

Lírio do Campo


Percorri-te
de Norte a Sul
Amei-te
desesperadamente
perdidamente
apaixonadamente.
Li-te poemas
de Neruda.
Amplexos ardentes
nos envolveram.
Terá sido
amor ou paixão?
Ao percorrer-te as ilhas
dos seios,
pensei nos dois.
Amei-te loucamente
Desejei-te permanentemente,
folgadamente
Não fora
a tempestade maternal
e teria criado
raizes em ti.

Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 19 de Março de 1996.

Ilustração:
"Mulher XVIII"
De Alexandra
(Artista Plástica)
Lisboa, 2001.

Mulher XXIX


De comum
tinham apenas
meu desamor,
e a paixão
que por mim
nutriam.
Com ambas
partilhei
cumplicidades.
Fica a mágoa
de termos
sido egoístas.
Queria amor
deram-me paixão.
Queriam amor
Dei-lhes desamor.


Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 12 de Outubro de 2001.


Ilustração:
"Mulher XXIX"
Alexandra
(Artista Plástica)
Lisboa, 2001.

Voltarei

Aos povos do Uganda, Serra Leoa, Libéria, Cabinda, Palestina, Sahara Ocidental e Tibete.

Tu uma pérola no Índico
E eu
Um viandante
Encalhado no atlântico

Estou longe
Muito longe
Atravessei mares e oceanos
Escalei montanhas e planaltos
Percorri florestas e desertos

A marcha foi longa
Mas tem retrocesso

Um dia descobrirás
O atlântico já descobriu
E vai devolver-me.

Voltarei
Partiremos então
Em viagem nupcial
Que vem de longe com o tempo
E iremos à Zalala
Numa simbiose ímpar.

Como sempre:
Eu sou tu, tu és eu
Não te esqueças
Moçambique
Voltarei!

Delmar Maia Gonçalves
Parede, 05 de Julho de 1995.


Glossário:
Zalala –
Praia que fica nos arredores de Quelimane.

Ilustração:
"Voltarei"
De Fabio Inglese
(Artista Plástico Italiano)
Lisboa, 2007.

Deixem-me Sonhar


Deixem-me sonhar
Um sonho que não me pertence
Deixem-me sonhar
um sonho que seja para
além do sonho
Deixem-me sonhar
um sonho em que as utopias humanizantes
se tornam realidade
e os pesadelos desumanizantes
se tornam utopia.
Deixem-me sonhar
um sonho em que a paz
entre os homens seja encontrada
muito para além das palavras e selos.

Delmar Maia Gonçalves
Sintra/Parede, 25 de Maio de 2003.

Ilustração:
"Deixem-me Sonhar"
De Cristina Araújo
(Artista Plástica e Professora de Educação Visual e Tecnológica)
Lisboa, Setembro de 2008.


Criança, Mulher e Filha

Para Luna Delmar

Queria contar-te
o quanto este mundo é belo.
Queria contar-te
quanta alegria trazem as crianças
que nascem um pouco por todo o lado.
Queria contar-te
que apesar das dificuldades da vida
haverá sempre uma saída razoável,
aceitável, possível.

Queria expressar-te
todo o amor que sinto por ti
Queria expressar-te
todas as alegrias que tive na vida.

Queria falar-te
das minhas apreensões e medos
Queria falar-te
das armadilhas que o mundo tece.

Queria falar-te
das ilusões que nos transmitem
diariamente
Queria falar-te
das riquezas provenientes
da diferença.
Queria falar-te
da beleza da fantasia.
Queria falar-te
da pureza da natureza
e da sua vitalidade.
Queria falar-te
de Moçambique, minha pátria amada.
Queria falar-te
das virtudes da paz
e dos horrores da guerra.
Queria falar-te,
por fim, da inevitabilidade
da morte.

Delmar Maia Gonçalves
São Domingos de Rana, 7 de Abril de 1999.

Ilustração:
"Para Luna Delmar..."
De Vera Novo Fornelos
(Poetisa e Artista Plástica)
Viana do Castelo, 2007.

Queria que o meu país...


Eu queria que o meu país
fosse feito de alegria
Queria que no meu país
não houvesse ódio
Queria que o meu país
não conhecese a guerra
só amor em abundância
amor e muita criança.
Mas com a barriga cheia!
Queria que o meu país
fosse um país sem tristezas
um país sem agressão
e que houvesse sempre pão.
Queria ver o meu país
Como um enorme jardim sem igual
cheio de Acácias,
Buganvílias e Cravos.

Delmar Maia Gonçalves
Quelimane, 4 de Abril de 1984.

Ilustração:
De Roberto Chichorro
(Artista Plástico Moçambicano)
Lisboa, 2002.

Singularidade Africana


Quando carrego no “d”
Alguns doutos ignorantes
Riem-se da inovação
Quando mastigo um “r”
Lá vem a correcção dos
Supostos eruditos
Quando me pronuncio
Moçambicanamente
Alguém expressa
Um sorriso estridente
Quase incontínuo
Deixem-me dar o grito
Que não é do Ipiranga
Mas que o é.
- Caramba!
Escrevo o país de mim
Falo o povo de mim
Falo o espaço que é meu
Canto o canto que é meu.

Ninguém compreende
Minha singularidade
Talvez Camões
Compreendesse
E eu danço nela.
Delmar Maia Gonçalves
Parede/Lisboa, 25 de Agosto de 1993.

Ilustração:
"Singularidade Africana"
De Isabel Carreira
(Artista Plástica, Professora de Literatura Portuguesa e Inglesa e Mestre em Relações Interculturais)
Lisboa, 2006.

Tabuleiro de Xadrez


Sou o que sou, não o nego,
para os negros sou mulato
ou misto
Para os brancos sou preto ou mulato
E eu sou igual a mim próprio
e resultado do famigerado
jogo de xadrez
de quadrados pretos e brancos,
numa simbiose ímpar.
Sim, sou só comparável
ao tabuleiro de xadrez
de Tenreiro
Enquanto dois intervenientes
disputam um argumento,
eu abstenho-me
calado.

Delmar Maia Gonçalves
Maputo/Parede, 2 de Fevereiro de 1985.


Ilustração:
"Tabuleiro de Xadrez"
De Isabel Carreira
(Artista Plástica, Professora de Literatura Portuguesa e Inglesa e Mestre em Relações Interculturais)
Lisboa, 2006.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O Rei de Kanem Borno as Sete Esposas

Quando um homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe é favorável”.
Séneca

O REI DE KANEM BORNO E AS SETE ESPOSAS
Era uma vez, no longínquo reino africano de Kanem Borno – junto da actual Nigéria moderna (em 1067 o historiador Espano-Árabe El Bekir descreveu a extensão deste território como indo do Lago Chade até ao rio Níger a oeste; Kanem dominava toda a rota comercial do leste através do deserto do Sahara quase até aos arredores de Tripoli bem como a região Wadai até à parte superior do Nilo além da sua sede na área do lago Chade) – governado por um sábio, poderoso e generoso rei, Mai Dunama Dabalemi, que tinha sete esposas. Seis eram nobres africanas e uma, a sétima, nobre asiática que lhe tinha sido oferecida pelo grande sultão industânico Sultan Singh Rai, que visitara o reino acompanhado da sua esposa, para incrementar as trocas comerciais e as relações diplomáticas e de amizade.
O rei dedicava um dia a cada uma das suas belas esposas.
Todas tinham tratamento igual; não havia ciúmes ou inveja entre elas. Até que, um dia, o rei reuniu com o Conselho dos Anciãos e este deliberou que se devia nomear uma rainha das rainhas entre as suas sete esposas.
A ambição surgiu como um primeiro sinal de mudança de atitude nas esposas do rei. Todas queriam ser nomeadas rainha das rainhas com excepção da asiática, que dizia nunca ter ambicionado a tanto, pois era uma estrangeira.
Mas o destino dela estava traçado e era precisamente favorável à sua nomeação como rainha das rainhas. O povo também a amava por possuir bom coração.
Decidiu o rei e o conselho de anciãos aprovou. Tornou-se rainha das rainhas.
O rei ficou muito feliz, pois achava a sua sétima esposa bela, simples e muito leal. Tal não sucedia relativamente às outras que embora belas tornaram-se caprichosas.
Começaram então os problemas para o rei e para este reino de tranquilidade.
As seis belas esposas descontentes elaboraram um maquiavélico plano que visava a morte da rainha. Na verdade, tratava-se de uma conspiração que tinha o apoio de alguns elementos influentes na corte central.
Informado pelos seus leais espiões e súbditos, o rei apercebeu-se da conspiração e mandou cortar as cabeças das suas seis esposas, juntamente com as dos seus conselheiros acusados de traição, tendo optado por ficar definitivamente com uma esposa apenas, a rainha.
Segundo ele, ter mais do que uma esposa só trazia disputas, problemas e conflitos, e nunca a paz de que todos necessitamos. Paz com Deus, com os outros, com a vida, com o mundo e connosco próprios.
Finalmente, o rei reuniu com o Conselho dos Anciãos e decidiu que ninguém do reino poderia ser polígamo, isto é, ter mais do que uma esposa, decisão apoiada e votada por maioria consensual.
O rei e a rainha viveram juntos e felizes para sempre. Ele generoso, justo, magno, poderoso e sábio como sempre e ela, bela, bondosa, leal, e simples.

Delmar Maia Gonçalves

(Escritor e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD)
Parede, 10 de Junho de 1988.


Glossário:
Kanem Borno – Um antigo reino africano da Nigéria.
Mai Dunama Dabalemi - Antigo rei do Kanem Borno.

Ilustração:
"O Rei de Kanem Borno e as sete esposas"
De João de Barros
(Artista Plástico e Arquitecto Guineense)
Lisboa, 2008.