terça-feira, 25 de agosto de 2009

“A paz é de todos ou não é de ninguém”
João Paulo II

Ser nobre é uma virtude
“Et errare humanum est”


Embora se tenha alcançado o essencial para Moçambique: a paz em todo o território nacional, e esta esteja a ser consolidada. Não seria todavia negativo, antes pelo contrário muito nobre que o governo moçambicano, o partido FRELIMO e o partido RENAMO (M.N.R.) pedissem desculpas e perdão a todo o povo moçambicano pelos dezoito anos de excessos, (violações do direitos humanos, vinganças pessoais, erros graves na governação do país, muitos abusos de poder e massacres em várias povoações na guerra civil de parte a parte. Esta atitude cairia bem nos gravemente lesados cidadãos moçambicanos ou estrangeiros residentes no país ou daqueles que abandonaram o mesmo pelas razões apontadas.
De resto, o governo sul-africano nosso vizinho soube ser inteligente quando formou a Comissão da Verdade e admitiu através do African National Congress ( A. N. C. ) liderado pelo “Madiba” e grande Soba Nelson Mandela, pelos excessos por si cometidos ou por outra, pelos seus guerrilheiros e membros. Hoje até os Boers alinham um pouco pelo mesmo diapasão, embora de forma mais tímida e envergonhada, e também por isso menos inteligente.
Nós sabemos que a governação da República de Moçambique pelo menos até à assinatura do histórico Acordo de Roma “a cidade eterna”, não terá sido só um poço de virtudes antes pelo contrário, foi um acumular de erros sucessivos que se veio a agravar com a guerra civil e a desestabilização Rodesiana e Sul-Africana.
É claro que houve mudanças positivas, muitas coisas positivas aconteceram, mas estiveram longe de satisfazer por completo os moçambicanos, a prova foram os dezoito anos da traumática guerra civil com as suas avalanches de mortes, desaparecimentos, órfãos, viúvas, massacres, mutilados, deficientes, fome, miséria, desinvestimento, falta de quadros e um sem número de traumatizados de guerra.
O povo moçambicano não foi, nem é rancoroso! É pacífico! Mas merece certamente mais atenção, consideração e respeito. E é bom que haja da parte dos políticos moçambicanos de todos os quadrantes sempre consciência dos erros cometidos e coragem para admiti-los e dos defeitos, não só das sagradas virtudes! Virtudes todos nós temos, mas também defeitos por mais pequenos que sejam.
E para bom entendedor meia palavra basta!


Delmar Maia Gonçalves
In “Africamente”
Parede

O que nos impele
a sermos quem somos,
sendo múltiplas vezes
o que não somos?


Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 23 de Agosto de 2009.


Ilustração:
"Mestiço"
De Isabel Carreira
(Artista Plástica, Professora de Literatura Portuguesa e Inglesa e Mestre em Relações Interculturais)
Lisboa, 2006.

TOMBA-TOMBA OURIÇO-CACHEIRO

Para Luna Delmar


Tomba
o Ouriço
que é Cacheiro
Tomba
o Cacheiro
que é Ouriço
e ganham
a viagem e o sonho
os meninos e meninas
amigos do Ouriço
que é Cacheiro!

Delmar Maia Gonçalves
Parede/Lisboa, 1997.

Ilustração:
"Teoria das Multidões"
De Fernando Grade
(Poeta, Escritor, Crítico de Arte e Artista Plástico)

domingo, 23 de agosto de 2009

Mulher IX

Basta um olhar
para te sentir.
Basta um sorriso
para te compreender.


Delmar Maia Gonçalves
Parede, 19 de Fevereiro de 2001

Femme IX

Il suffit d'un regard
pour te sentir
Il suffit d'un sourir
Pour te comprendre.


Delmar Maia Gonçalves
Parede, 19 de Fevereiro de 2001.

sábado, 22 de agosto de 2009

A Propósito da Poiesis

Ao ser convidado para escrever o prefácio/reflexão da Poiesis, pensei em poesia.
A poesia é algo que retrata o complexo e dinâmico equilíbrio instável entre a ordem e o caos, tentando assim interpretar o real, na sua forma mais sensível, o que por si só se torna complexo.
Todos os pontos tentam expressar tudo isto além de alcançar a “expressão de si próprio” com mais ou menos simplicidade e mais ou menos hermetismo.
A linguagem poética é de longe, a linguagem humana mais perfeita, mais original e rara. Como dizia Octávio Paz, “se os líderes lessem poesia, seriam mais sábios”. Acontece que não o fazem.
Poiesis é poesia pura, é paixão, é sabedoria sem sistema, contrariando o gigantesco sistema literário vigente que se mostra fechado, triste, inócuo e pouco profícuo.
Como dizia o genial Tom Peters, a propósito do complexo fenómeno educativo “ou há paixão sem sistema ou sistema sem paixão. É preciso ter as duas coisas.”
Na poesia é assim, ou há paixão ou ela não existe.
A grande diversidade de textos poéticos (em prosa e poesia) apresentados neste projecto, é o garante da sua originalidade e da extrema riqueza que constituí a obra.
Esta obra não é apenas mais um espaço de divulgação poética e para-poética, é um espaço aberto com dimensão cultural alargada e única. É a lusofonia em ebulição, verdadeira, concreta, que nem os políticos são capazes de construir e muito menos de destruir porque dá um sentido profundo aos processos criativos na Língua Portuguesa, língua mãe em tantos e tão diversos espaços criativos.
É um espaço que não é hesitante, pelo contrário é futurista, pluricultural, “intercultural e multicultural” por excelência.
Acredito que a despeito da diversidade e multiplicidade do fenómeno literário, é possível construir-se uma poética universal ou um discurso homogéneo, situando-se a literatura numa espécie de zona incontaminada das ideologias , conferindo-se-lhe um prestígio especial e isolando-a de todas outras formas de discurso.
Nesta perspectiva, discutir o cânone significa questionar um sistema de valores instituído por grupos detentores de algum poder cultural, que legitimaram um repertório, com um discurso, por vezes, classificado de globalizante; esta questão prende-se com a exclusão de uma significativa produção literária vigorosa, oriunda de grupos minoritários nos centros hegemónicos, e da desclassificação ou inclassificação de uma crescente e significativa, produção literária.
Que continue pois a poesia a florescer, surgindo e ressurgindo, nascendo e renascendo, crescendo e amadurecendo! É bom para a literatura universal.


Delmar Maia Gonçalves
Parede/Wimbledon/Londres, 25/28 de Agosto de 2006

Moçambique, minha Pátria, minha Mátria


Vim de uma grande e longínqua casa
onde vivi minha infância
e cresci
Onde brinquei
e fui feliz

Tinha donos e servidores.
Mas os donos
não eram donos!
Os verdadeiros donos eram
os servidores.

Havia total domínio dos donos
sobre os servidores
Mas havia também uma revolta silenciosa
nos servidores

Por vezes haviam reclamações dos servidores
aos “donos”
Soava então, o chicote.
Os servidores acatavam as ordens
dos “donos”

Um dia de madrugada
um galo cantou e nasceu o sol com
a revolução
E os servidores passaram a senhores
e os “donos” a nada

Alguns “donos” fugiram,
outros ficaram a trabalhar em igualdade
com os servidores.

Os campos tornaram-se férteis
A prosperidade estava no horizonte,
Já se cantava a esperança.

Até que um dia
chegou uma praga
de “ratos”
Eram a morte!
Roeram tudo.

Apesar das dificuldades
a esperança de melhores dias
Não morreu
E ainda hoje se
canta a esperança.

Delmar Maia Gonçalves
Parede, 04 de Março de 1986

Ilustração:
"Ouvindo melodias em noites melancólicas"
De Roberto Chichorro
(Artista Plástico Moçambicano)
Lisboa, 2002.
Lisboa,



Forever to be a child


Forever I wished
To be a child
I wished
To be Free as a bird
Pure as a flower
I wished to play
To run
To jump
To smile
Always to smile
And forever to be a child.

Delmar Maia Gonçalves
Quelimane, 11 de Agosto de 1984

Ilustração:
De David Levy Lima
(Artista Plástico de Cabo-Verde)
Lisboa, 2006

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Matusse na Sala de Aula

“Sê paciente na adversidade e constante na prece”
Romanos 12:12


MATUSSE NA SALA DE AULA

Matusse era uma criança negra moçambicana com seis aninhos. Tinha uns enormes olhos castanhos e era diferente de todas as outras. Muito atento, educado e respeitador, estudava na segunda classe do ensino primário, na Escola Primária de Sinacura em Quelimane e parecia entender tudo o que a Professora Irmã Ester dizia, por isso é que quando o interpelava, ele respondia prontamente.
Ah, mas a sua principal virtude na sala, era a de respeitar todos os colegas e os seus haveres, embora modestamente não exigisse nunca o mesmo dos outros.
O tempo passava, no entanto, qualquer coisa de grave se passava com ele ultimamente, o seu silêncio denunciava algo estranho, muito estranho!
Em certas alturas, isso era mais do que evidente. É que ele adormecia agarrado aos livros e cadernos, habituado que estava aos roubos frequentes no seu bairro na Missão de Coalane, nos chamados subúrbios de Quelimane. Algo perfeitamente anormal.
Mas porque estaria o Matusse tão triste? Porque adormeceria ele em plena aula?
Castiano, um seu amigo muito próximo, confidenciara-me que Matusse saía de casa de manhã sem tomar o pequeno almoço e não levava consigo nunca uns míseros trocados para comprar uma patanicua. É que ele adorava patanicuas! Mas nem para isso ele tinha dinheiro.
Por vezes a velha Vitória, a que vendia as patanicuas, com muita pena lhe dava apenas uma. E com muita pena mesmo, pois, por um lado, sempre lhe eram úteis uns trocados e por outro tinha muita afeição por Matusse. E tinha tão bom coração aquela velha!...
Mas à tarde o Matusse voltava novamente à escola sem almoçar. É que a sua mãe trabalhava e almoçava no local de trabalho (na fábrica de cervejas, como empregada de limpeza), e o seu pai desempregado, era um alcoólico degenerado. E o dinheiro das esmolas que se destinava ao almoço acabava sempre na taberna do Sô Reis no velho bairro popular.
E até ao final do ano lectivo, o quotidiano do Matusse era sempre o mesmo. Não tomava o pequeno-almoço, adormecia na aula porque não almoçava. Seus pais não o entendiam, nem tinham tempo para ele, a professora andava demasiado ocupada com todos para pensar unicamente no caso deste bom aluno que adormecia em plenas aulas.
E o resultado disto foi o chumbo surpreendente daquele que poderia ter sido o melhor aluno da turma, mas que não tivera a estrela da sorte do seu lado, nem os Deuses.

Delmar Maia Gonçalves
Olivais/Lisboa, 25 de Junho de 1995.

Glossário:
Patanicua -
doce de açúcar com coco ou farinha.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Mulher XV


Teus olhos
um íman inevitável.
Teus lábios
um chamamento inigmático.
Teu corpo
um convite vedado.
Tua vida
um mundo de paixões.

Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 1997.

Ilustração:
"Mulher XV"
Alexandra
(Artista Plástica)
Lisboa, 2001.