sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Mudar Mentalidades

Expresso aqui uma crítica relativamente aos jornais e revistas portuguesas especializadas ou que escrevem e noticiam África.
Dedicam demasiado espaço à política , demasiado espaço aos políticos e dão pouca importância à sociedade civil africana, dando aos políticos africanos a ideia de que o poder é eterno, de que os países lhes pertencem, de que o prestígio e o poder são apenas encontrados na política.
Em nada contribuindo para a formação de uma opinião pública e de uma sociedade civil fortes, que possam fortalecer os Estados e democratizá-los.
Faltam mais atenção e entrevista a poetas, escritores, escultores, pintores, actores, professores, intelectuais, médicos, desportistas e tantos outros profissionais. É necessário um novo ordenamento social e uma nova mentalidade em África. E África Hoje pode contribuir para uma mudança de mentalidades que urge nos PALOP.
Não se admirem pois, quando os cidadãos portugueses ao reconhecerem um excelente estudante bolseiro africano digam logo "Você vai ser Ministro"! Quando na realidade até simples cidadãos trabalhadores podem contribuir para o desenvolvimento dos seus países.
Ou será que todos os quadros africanos formados no exterior serão ministros, directores ou dirigentes políticos?

Delmar Maia Gonçalves
In Revista "África Hoje" nº99
Parede, Setembro de 1996.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Os Desmobilizados

Antes e depois da concretização do acordo de paz de Roma para Moçambique houve promessas de apoio aos desmobilizados moçambicanos, tanto a nível internacional, como nacional.
Embora partilhe a ideia de que todos temos os mesmos direitos e obrigações perante a lei, reconheço, no entanto, que em muitos casos há uma grande diferença entre a teoria e a prática.
Hoje, em pleno exercício de uma democracia emergente em Moçambique , os desmobilizados continuam numa situação dramática abandonados à sua sorte.
Diz-se que a necessidade aguça o engenho! Mas o que fazer com alguém que só conseguiu resolver os seus problemas diários com a ajuda de armas e que provavelmente só sabe lidar com armas?
Não será correcto também dizer que a necessidade aguça o apetite dos desmobilizados (militares e polícias) pelas armas?
Sempre ouvi dizer que "mais vale prevenir do que remediar", que "o prometido é devido", que "a paz não é a simples ausência de guerra" e que "a paz ou é de todos ou não é de ninguém"!
Chegou a altura de os desmobilizados serem integrados e enquadrados na sociedade moçambicana.
A marginalização, a exclusão, o desprezo, a indiferença, a memória curta, o esquecimento e a ausência de solidariedade, não são os valores por excelência que sempre guiaram os moçambicanos, é pois altura de mudarmos de atitude ou então jamais nos esqueceremos do velho ditado "quem semeia ventos colhe tempestades".

Delmar Maia Gonçalves
In Revista "África Hoje" nº110
Parede, Outubro 1997.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Velhos Fantasmas

Enquanto em Angola ainda se tentam limar arestas para a resolução definitiva do conflito, em Moçambique, uma vez ultrapassados os possíveis obstáculos à paz (realização de eleições legislativas multipartidárias e presidenciais, acordo para a formação das novas forças armadas e formação da nova polícia), aguardam-se as eleições autárquicas.
Entretanto, lamentavelmente surgiu um debate polémico, em torno da questão da morte de Lázaro Kavandame, ex-militante da FRELIMO e supostamente executado por traição, pela própria FRELIMO.
Num momento crucial para o fortalecimento das instituições democráticas de Moçambique e da paz, ainda há pessoas que teimam em prejudicar o processo desenterrando "velhos fantasmas", que em nada ajudarão na reconciliação nacional. Com o devido respeito que tenho pelos familires das vítimas, não será tempo de nos preocuparmos com o desenvolvimento do nosso país e com a manutenção da paz, em vez de alimentarmos factores de divisão que só fazem renascer os ódios e as sedes de vingança?
É preciso não esquecer que ficaram muitas mortes e actos de violência por explicar e entender (da guerra colonial, dos "raids" sul-africanos, dos mercenários de Ian Smith e da guerra entre a FRELIMO e a RENAMO), mas e que adiantaria num momento destes provocarem-se debates deste tipo? Por vezes, fedem que enojam!
Não nos bastam as zonas rurais ainda minadas, e a ainda não resolvida questão dos esconderijos de armas como o de Marínguè, que já dão dores de cabeça aos verdadeiros interessados na paz e desenvolvimento de Moçambique?
Por Deus, deixem de brincar com o povo moçambicano!

Delmar Maia Gonçalves
In Revista "África Today" nº91
Lisboa, Janeiro de 1996.

domingo, 4 de outubro de 2009

As hipóteses de Obama...
E se Barack Obama fosse Africano?
Jamais chegaria à presidência de um país. Seria considerado Africano de segunda. Mandavam-no para a terra da mãe(contrariando o habitual que enviarem-no para a do pai) . Chamar-lhe-iam branco de terceira. Redigiriam uma nova Constituição que impedisse a sua eleição, tendo em conta a sua genealogia familiar. Já estaria provavelmente morto. Não passaria de um miliciano. Jamais poderia ser Marechal. Jamais poderia ser Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas. Jamais poderia ser General. Jamais poderia ser Coronel.
Por fim, não seria jamais o Presidente dos Estados Unidos da América, adiando o "futuro" ad aeternum.


Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 29 de Setembro de 2009.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Femme II


Je veux t'atteindre
T'être fidèle
Quelque choce m'en empêche
Je le sens
Peut-être que cela fasse parti de
Mon être mefiant et prudent
Pour te vouloir
Je prefère être seule
Pardonne-moi être infamme et Merveilleux.

Delmar Maia Gonçalves
Parede, 21 de Dezembro de 1994.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Metisse

Quelle condition
que celle d'être
qui je suis...!
pour être africain pleinement
je dois admettre être
ce que je ne suis pas
pour être européen de
plein corps
je dois feindre et
chercher à être ce que
je ne suis pas
quel dilemme
que d'être
ce que je suis
etant ce que je ne suis pas!

Delmar Maia Gonçalves
Parede, 15 de Dezembro de 1996.


Ilustração:De David Levy Lima
(Artista Plástico de Cabo-Verde)
Lisboa, 2006

Mulher Africana


Tu mulher
que no teu ventre
criaste vida
Tu mulher
que sofreste
que não viveste
que foste humilhada.
Olha no teu espelho
e sorri


Sorri para essa vida
Que é parte de ti.
Não deixes que te
apontem!

Delmar Maia Gonçalves


Ilustração:
"Mulher Africana"
de Tânia Ferreira
(Artista Plástica e Professora de EVT)
Lisboa, 2008.

domingo, 20 de setembro de 2009

As Eleições Moçambicanas

O não funcionamento de várias comissões para implementação do cessar-fogo acordado e da preparação para as futuras eleições marcadas para Junho deste ano não estará naturalmente a facilitar o cumprimento do acordo alcançado nem a fortalecer o processo de paz.
Esta situação poderá certamente precipitar Moçambique para uma situação semelhante à de Angola, o que poderia transformar-se numa catástrofe de consequências imprevisíveis.
No interesse do ovo moçambicano,o Governo de Moçambique (da FRELIMO) e a RENAMO deveriam concordar com o delegado da ONU e adiarem as eleições para Junho de 1994.
Entretanto, deveriam integrar o elenco governativo actual, até lá, elementos da FRELIMO, RENAMO, MONAMO, FUMO, UNAMO, e CUNIMO, que são os principais partidos moçambicanos, em minha opinião.
A formação de um Governo de Unidade Nacional é imperativa porque, penso eu, acelararia e fortaleceria o processo de Paz moçambicano.
(...)
Delmar Maia Gonçalves
In Revista África Hoje
Lisboa, Março de 1993.

Identidade

(...)
Temos de ser realistas! Se querem falar de identidade moçambicana saibam então de que nela estão incluídos os povos do Norte, Centro e Sul de Moçambique, isto sem distinção de raça, etnia, tribo, religião ou partido político! Ou então não existirá jamais uma identidade verdadeiramente moçambicana. (...)


Delmar Maia Gonçalves
In Revista África Hoje
Novembro/Dezembro de 1996.

sábado, 19 de setembro de 2009

Rui Knopfli

Expresso a minha enorme gratidão, em jeito de homenagem ao Poeta-Maior Luso-moçambicano Rui Knopfli, falecido no passado dia 25 de Dezembro de 1997, em Lisboa, pelo grande contributo e enriquecimento que deu às culturas moçambicana e portuguesa bem como para o reforço da amizade, compreensão e cooperação entre os povos de Moçambique e de Portugal.
Bem haja, senhor poeta Rui Knopfli!

P.S. Quem ama África e a poesia não pode ficar indiferente!


Delmar Maia Gonçalves
in Revista "África Hoje"
Março, 1998.