quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A televisão na CPLP

Como é tido e sabido Portugal tem protocolos de cooperação com os PALOP na área de informação e nomeadamente na área audiovisual.
Tal cooperação abrangeu a construção das televisões da Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, para além de Centros de Formação em Moçambique e Angola.
É um facto que os PALOP ainda têm muito que aprender nesta área específica. Mas será que também os portugueses não tem nada para aprender nos PALOP?
Não consigo é entender o facto de a RTP Internacional não passar também programas feitos pelos jornalistas e televisões africanos, uma vez que só assim, no meu entender, se estaria a concretizar a cooperação, o intercâmbio e a troca de experiências entre Portugal e os PALOP, para além de reforçar e pontenciar a projectada Comunidade dos Povos e Países de Língua Portuguesa.
Lamento ainda que aos 1440 minutos diários de emissão da rádio só um seja da responsabilidade africana. Isto porque, por exemplo, a televisão moçambicana só pode apresentar quinzenalmente um mini-programa de 15 minutos se quiser, caso contrário, não há nada para ninguém.
Quanto a mim há que tomar cuidado e ser exigente dentro do razoável e possivel nos acordos de cooperação. Não foi por acaso que um diplomata estrangeiro acreditado em Maputo tenha feito exigências inaceitáveis relativamente à toponímia da cidade.
Flexibilidade sim, mas não em demasia.


In Revista "África Hoje" nº95
Delmar Maia Gonçalves
Parede, Maio 1996.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Breve retrospectiva sobre Moçambique 1962/2001 - 1975/2001

A trajectória de um país e o enquadramento rumo à melhoria das condições sócio-económicas.


Completaram-se, no dia 25 de Junho deste ano, 39 anos sobre a constituição da Frelimo, actualmente um partido no poder, mas outrora um movimento de libertação, depois de muitos anos de luta armada contra o colonialismo da ditadura instalada em Lisboa e de alguns anos de combate a dissidências internas mais ou menos violentas, ao Movimento de Resistência Moçambicano de André Matsangaíssa e mais tarde de Afonso Marceta Dhlakama e Evo Fernandes, às incursões de mercenários enviados por Ian Smith da Rodésia (actual Zimbabwe) e aos raids sul-africanos (do regime do Apartheid).

Na verdade, foi naquela data que diversas forças políticas moçambicanas antifascistas e anticolonialistas (Udenamo, Manu e Unami) se fundiram numa plataforma unitária tendo em vista uma maior eficácia no objectivo prioritário que a todos animava independentemente de divergências de ordem ideológica, rácica, tribal, social ou estratégica. Constituída sob a presidência respeitada de Eduardo Chivambo Mondlane e a vice-presidência de Uria Simango (mais tarde destituído) e Marcelino dos Santos, a Frelimo iniciou a luta armada em 25 de Setembro de 1964, na província de Cabo Delgado. Desde essa altura, morreram em combate valorosos guerrilheiros e heróis, como Filipe Samuel Magaia, Paulo Samuel Kamkomba, para só citar alguns e Josina Machel (esta por doença).

Posteriormente, a guerra alargou-se a vastas zonas do Niassa e também a Tete, quando Eduardo Mondlane morreu, vítima de um atentado terrorista, com uma encomenda armadilhada, em 1969, atentado esse que foi desde logo atribuido à Pide. Especulou-se ainda que o mesmo resultou de problemas internos da Frelimo, hipótese essa que não se confirmou, mas ainda hoje subsiste a dúvida: quem matou Eduardo Chivambo Mondlane? Como foi possivel este assassinato? A mando de quem se concretizou? Com que cumplicidades?

Com o desaparecimento de Mondlane e a ascensão ao poder de Samora Machel, Uria Simango e Marcelino dos Santos, em Maio de 1970, a Frelimo inicia uma movimentação mais ofensiva, que virá a expandir-se consideravelmente aquando da contra-ofensiva às megalomanias militares do general português Kaúlza de Arriaga, então comandante em Moçambique. Mais tarde Uria Simango é afastado do triunvirato por divergências consideradas irredutíveis. Depois seria preso e executado.
Chegado o 25 de Abril de 1974, a situação politico-militar em Moçambique era francamente preocupante para as autoridades portuguesas, nomeadamente porque a guerrilha da Frelimo se alargava já à vizinhança das cidades da Beira (junto ao mar) e de Chimoio (então Vila Pery) fronteira com a então Rodésia, actual Zimbabwe, o que significava a ameaça de corte do país ao meio, isolando os distritos do sul de todo o imenso norte e estrangulando, na prática, a chave símbolo do último grande esforço colonial português em Moçambique - a Barragem de Cabora Bassa situada no Zambeze na província de Tete.

Vinte e sete anos passados sobre a independência, as relações com a antiga potência colonial são exemplares, pese embora a morte misteriosa do saudoso presidente Samora Machel, um dos grandes impulsionadores dessas relações, em 1986, e a mudança de regime político ocorrida em 1993 e com a realização das primeiras eleições pluripartidárias em 1994 mas aparentemente decidida muito antes.

Mas, vinte e sete anos passados, há também que reconhecer que moçambique se encontra ainda muito longe das metas de progresso e bem-estar visionadas com a independência e que também por isso a renovada Frelimo de Joaquim Chissano no poder e os novos partidos políticos emergentes, incluindo a Renamo de Afonso Marceta Dhlakama, enfrentam uma luta diferente, mas comum para todos os moçambicanos: a luta pelo desenvolvimento de Moçambique em paz.

As calamidades naturais cíclicas são um obstáculo dificil de enfrentar num país que procura reerguer-se, terá de se trabalhar na prevenção, e no combate contra a Sida e os investimentos na educação deverão ser prioritários, as condições sócio-económicas deverão melhorar com um modelo de desenvolvimento democrático que sirva à realidade africana.

In Revista "Lusofonia" nº21 em 2001.
In Jornal "Voz do Olhar" em 21 de Setembro de 1995
Delmar Maia Gonçalves

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A adesão de Moçambique a Commonwealth como acto de soberania e afirmação internacional

Nunca Portugal reagira de forma tão dramática e paternalista em relação às ex-colónias como agora que Moçambique decidiu aderir a Commonwealth.
Acto de resto legítimo de um Estado soberano e independente. Mas Portugal não está isento de culpas no processo que conduziu Moçambique a aderir à comunidade de língua inglesa. Este exercício de adesão merece-me duas leituras:
1º - Moçambique precisa de refazer o seu tecido social e para que tal se concretize é necessário um maior e melhor apoio económico que permita depois um desenvolvimento mais acelerado com resultados imediatos e que Portugal não pode garantir neste momento;
2º como país independente e soberano tem necessidade de se afirmar no panorama internacional até para renovação de uma imagem algo desgastada pela guerra e tem também o direito de se tomar o rumo que achar certo para o bem do seu povo. Não se trata pois de substituir o português pelo inglês.
Não é por acaso que o deputado da FRELIMO Coronel Sérgio Vieira afirmou ser de felicitar o governo no exercício de adesão a Commonwealth, de criação do Espaço dos Sete Países de Língua Portuguesa, de elevar o estatuto do país na francofonia, de investir numa presença no Índico e potenciar a participação na Comunidade Islâmica.
Como podem facilmente verificar o governo moçambicano nunca pensou em substituir o português pelo inglês. Como se poderia implantar o uso de uma língua sem antecedentes históricos na população? Com que recursos? E quem apoiaria essa medida? Como se poderia impedir a ascensão no partido do governo, nos outros partidos e no Estado dos poucos utentes dessa língua ou que a dominam? É que a sua vantagem política seria inaceitável. Qual seria a validade da proposta? Quanto tempo levaria a implementar-se? Quantos moçambicanos estariam dispostos a deixar de escrever por decreto em português para passarem a fazê-lo em inglês? Não se estaria a fomentar a cisão entre os moçambicanos? Enfim, só os portugueses insistem em ser cegos quando deviam passar das palavras à acção. Acção essa que passa pela consolidação e reforço da cooperação nos domínios da educação e cultura com os PALOP.

In Revista "Africa Hoje" nº94
Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, Abril de 1996.

sábado, 31 de outubro de 2009

Minhas feridas
de sentimentos
ficaram em carne viva
também por isso
vivo lambendo-as.

Delmar Maia Gonçalves
Carcavelos, 20 de Janeiro de 2009.
Olhai gentalha
da vossa milimétrica
e fedorenta altura
para este humilde
e insignificante homo sapiens
prestai atenção!
Não fumo,
Não bebo,
Não tenho vís vícios
que me atormentem
a pacata existência
Embriago-me com a poesia
Fumigo-me com a prosa
Tomo café nos intervalos
e deleito-me com curvas afroditeanas
fazendo jus à minha existência.
Nada que se pareça
com os vossos luxuosos desvarios.

Delmar Maia Gonçalves
Fátima, 28 de Dezembro de 2008.

Chelas

Porque será
o chamamento
do degradado degredo
tão ruidoso?
Porque será
que tal chamamento
me indispõe.
Teria eu
sobrevivido
a tal mundo imundo
em intemporal jornada?

Delmar Maia Gonçalves
Alcântara, 8 de Fevereiro de 2009.
Cores aberrantes
me sufocam
humanos desumanamente
encaixotados
a inestética
de uma estética inexistente
observo
indisponho-me
estremeço!


Delmar Maia Gonçalves
Cruz Quebrada, 8 de Janeiro de 2009.

Cães rafeiros

Só se contentam com ossos os cães esfomeados e rafeiros. Um cão que se habituou aos bifes, rejeita os ossos.


Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 3 de Setembro de 2009.

O Morcego

O morcego é um animal grotesco. Mas não tão grotesco como o animal que há no homem.


Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 3 de Setembro de 2009.

Liberdade

Só tem Liberdade quem não tem Liberdade.



Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 08 de Outubro de 2009.