terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Rua dos Mártires da Pátria

Em Maputo
fui à Rua
dos Mártires da pátria
cobrar dinheiro
do Sô Faruk
porque a barriga
deu horas e não aguentei.
Fui à Rua
dos mártires da pátria
cobrar dinheiro
do Sô Pinto
porque minha mãe
estava enferma
e tinha de ir à farmácia.
Fui à Rua
dos Mártires da pátria
porque nasci lá
e foi lá
que me fiz homem.


Delmar Maia Gonçalves
Algés/Lisboa, 17 de Janeiro de 2002.
Quero contar minha história porque serve para provar que se pode conseguir tudo conseguindo nada.


Delmar Maia Gonçalves
Parede/Lisboa, 25 de Setembro de 2009.
Luz vai
Luz vem
é essa minha sina
de nada vale
remar contra a maré
e se algo
pudesse dizer à maré
diria sem vacilar:
vem tempestade
vem
vem com luz!

Delmar Maia Gonçalves
Alcântara/Lisboa, 18 de Dezembro de 2009.

Eu e Ele

Somos inimigos
Nós!
Eu e Ele
Eu (o tolerante Gandhiano!)
Ele (o que deseja justiça
em forma de vingança
para reposição de justiça)
e no entanto
estamos condenados
ao entendimento
Eu e Ele
somos uno
Eu e Ele
somos o "eu"
harmonizados
pelo perfume
Edeníaco da sobrevivência.


Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 16 de Dezembro de 2009.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Ser Eternamente Criança

Je pense donc j'invente, j'invente donc je pense.
(Michel Sèrres)

Para as Crianças de Moçambique


Queria ser
sempre criança
Sempre!
E ser livre como os pássaros
e puro como as flores.


Queria brincar
correr
pular
sorrir
sorrir sempre
e ser eternamente
criança.


Delmar Maia Gonçalves
Quelimane/Moçambique, 11 de Agosto de 1984.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Setara - uma mulher Afegã

O único
pecado libertino
de Setara
foi cantar
e bambolear-se
em palco hirta
e em directo
perante
Talibãs de consciência amorfa
Afinal,
o tamanho dos sonhos
não tem Fronteiras
Apenas a crueldade humana
pode ser resumida
e tem nome
Besta Barbaridade!

Condenada embora.
Será imortalizada
com seu grito rebelde.

Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 16 de Novembro de 2009.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A televisão na CPLP

Como é tido e sabido Portugal tem protocolos de cooperação com os PALOP na área de informação e nomeadamente na área audiovisual.
Tal cooperação abrangeu a construção das televisões da Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, para além de Centros de Formação em Moçambique e Angola.
É um facto que os PALOP ainda têm muito que aprender nesta área específica. Mas será que também os portugueses não tem nada para aprender nos PALOP?
Não consigo é entender o facto de a RTP Internacional não passar também programas feitos pelos jornalistas e televisões africanos, uma vez que só assim, no meu entender, se estaria a concretizar a cooperação, o intercâmbio e a troca de experiências entre Portugal e os PALOP, para além de reforçar e pontenciar a projectada Comunidade dos Povos e Países de Língua Portuguesa.
Lamento ainda que aos 1440 minutos diários de emissão da rádio só um seja da responsabilidade africana. Isto porque, por exemplo, a televisão moçambicana só pode apresentar quinzenalmente um mini-programa de 15 minutos se quiser, caso contrário, não há nada para ninguém.
Quanto a mim há que tomar cuidado e ser exigente dentro do razoável e possivel nos acordos de cooperação. Não foi por acaso que um diplomata estrangeiro acreditado em Maputo tenha feito exigências inaceitáveis relativamente à toponímia da cidade.
Flexibilidade sim, mas não em demasia.


In Revista "África Hoje" nº95
Delmar Maia Gonçalves
Parede, Maio 1996.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Breve retrospectiva sobre Moçambique 1962/2001 - 1975/2001

A trajectória de um país e o enquadramento rumo à melhoria das condições sócio-económicas.


Completaram-se, no dia 25 de Junho deste ano, 39 anos sobre a constituição da Frelimo, actualmente um partido no poder, mas outrora um movimento de libertação, depois de muitos anos de luta armada contra o colonialismo da ditadura instalada em Lisboa e de alguns anos de combate a dissidências internas mais ou menos violentas, ao Movimento de Resistência Moçambicano de André Matsangaíssa e mais tarde de Afonso Marceta Dhlakama e Evo Fernandes, às incursões de mercenários enviados por Ian Smith da Rodésia (actual Zimbabwe) e aos raids sul-africanos (do regime do Apartheid).

Na verdade, foi naquela data que diversas forças políticas moçambicanas antifascistas e anticolonialistas (Udenamo, Manu e Unami) se fundiram numa plataforma unitária tendo em vista uma maior eficácia no objectivo prioritário que a todos animava independentemente de divergências de ordem ideológica, rácica, tribal, social ou estratégica. Constituída sob a presidência respeitada de Eduardo Chivambo Mondlane e a vice-presidência de Uria Simango (mais tarde destituído) e Marcelino dos Santos, a Frelimo iniciou a luta armada em 25 de Setembro de 1964, na província de Cabo Delgado. Desde essa altura, morreram em combate valorosos guerrilheiros e heróis, como Filipe Samuel Magaia, Paulo Samuel Kamkomba, para só citar alguns e Josina Machel (esta por doença).

Posteriormente, a guerra alargou-se a vastas zonas do Niassa e também a Tete, quando Eduardo Mondlane morreu, vítima de um atentado terrorista, com uma encomenda armadilhada, em 1969, atentado esse que foi desde logo atribuido à Pide. Especulou-se ainda que o mesmo resultou de problemas internos da Frelimo, hipótese essa que não se confirmou, mas ainda hoje subsiste a dúvida: quem matou Eduardo Chivambo Mondlane? Como foi possivel este assassinato? A mando de quem se concretizou? Com que cumplicidades?

Com o desaparecimento de Mondlane e a ascensão ao poder de Samora Machel, Uria Simango e Marcelino dos Santos, em Maio de 1970, a Frelimo inicia uma movimentação mais ofensiva, que virá a expandir-se consideravelmente aquando da contra-ofensiva às megalomanias militares do general português Kaúlza de Arriaga, então comandante em Moçambique. Mais tarde Uria Simango é afastado do triunvirato por divergências consideradas irredutíveis. Depois seria preso e executado.
Chegado o 25 de Abril de 1974, a situação politico-militar em Moçambique era francamente preocupante para as autoridades portuguesas, nomeadamente porque a guerrilha da Frelimo se alargava já à vizinhança das cidades da Beira (junto ao mar) e de Chimoio (então Vila Pery) fronteira com a então Rodésia, actual Zimbabwe, o que significava a ameaça de corte do país ao meio, isolando os distritos do sul de todo o imenso norte e estrangulando, na prática, a chave símbolo do último grande esforço colonial português em Moçambique - a Barragem de Cabora Bassa situada no Zambeze na província de Tete.

Vinte e sete anos passados sobre a independência, as relações com a antiga potência colonial são exemplares, pese embora a morte misteriosa do saudoso presidente Samora Machel, um dos grandes impulsionadores dessas relações, em 1986, e a mudança de regime político ocorrida em 1993 e com a realização das primeiras eleições pluripartidárias em 1994 mas aparentemente decidida muito antes.

Mas, vinte e sete anos passados, há também que reconhecer que moçambique se encontra ainda muito longe das metas de progresso e bem-estar visionadas com a independência e que também por isso a renovada Frelimo de Joaquim Chissano no poder e os novos partidos políticos emergentes, incluindo a Renamo de Afonso Marceta Dhlakama, enfrentam uma luta diferente, mas comum para todos os moçambicanos: a luta pelo desenvolvimento de Moçambique em paz.

As calamidades naturais cíclicas são um obstáculo dificil de enfrentar num país que procura reerguer-se, terá de se trabalhar na prevenção, e no combate contra a Sida e os investimentos na educação deverão ser prioritários, as condições sócio-económicas deverão melhorar com um modelo de desenvolvimento democrático que sirva à realidade africana.

In Revista "Lusofonia" nº21 em 2001.
In Jornal "Voz do Olhar" em 21 de Setembro de 1995
Delmar Maia Gonçalves

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A adesão de Moçambique a Commonwealth como acto de soberania e afirmação internacional

Nunca Portugal reagira de forma tão dramática e paternalista em relação às ex-colónias como agora que Moçambique decidiu aderir a Commonwealth.
Acto de resto legítimo de um Estado soberano e independente. Mas Portugal não está isento de culpas no processo que conduziu Moçambique a aderir à comunidade de língua inglesa. Este exercício de adesão merece-me duas leituras:
1º - Moçambique precisa de refazer o seu tecido social e para que tal se concretize é necessário um maior e melhor apoio económico que permita depois um desenvolvimento mais acelerado com resultados imediatos e que Portugal não pode garantir neste momento;
2º como país independente e soberano tem necessidade de se afirmar no panorama internacional até para renovação de uma imagem algo desgastada pela guerra e tem também o direito de se tomar o rumo que achar certo para o bem do seu povo. Não se trata pois de substituir o português pelo inglês.
Não é por acaso que o deputado da FRELIMO Coronel Sérgio Vieira afirmou ser de felicitar o governo no exercício de adesão a Commonwealth, de criação do Espaço dos Sete Países de Língua Portuguesa, de elevar o estatuto do país na francofonia, de investir numa presença no Índico e potenciar a participação na Comunidade Islâmica.
Como podem facilmente verificar o governo moçambicano nunca pensou em substituir o português pelo inglês. Como se poderia implantar o uso de uma língua sem antecedentes históricos na população? Com que recursos? E quem apoiaria essa medida? Como se poderia impedir a ascensão no partido do governo, nos outros partidos e no Estado dos poucos utentes dessa língua ou que a dominam? É que a sua vantagem política seria inaceitável. Qual seria a validade da proposta? Quanto tempo levaria a implementar-se? Quantos moçambicanos estariam dispostos a deixar de escrever por decreto em português para passarem a fazê-lo em inglês? Não se estaria a fomentar a cisão entre os moçambicanos? Enfim, só os portugueses insistem em ser cegos quando deviam passar das palavras à acção. Acção essa que passa pela consolidação e reforço da cooperação nos domínios da educação e cultura com os PALOP.

In Revista "Africa Hoje" nº94
Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, Abril de 1996.

sábado, 31 de outubro de 2009

Minhas feridas
de sentimentos
ficaram em carne viva
também por isso
vivo lambendo-as.

Delmar Maia Gonçalves
Carcavelos, 20 de Janeiro de 2009.