sábado, 4 de abril de 2015

"Da Raiz (transparências)"



BREVE ANOTAÇÃO SOBRE O LIVRO

 “Quando estou na Poesia tudo se torna mais claro”. Ainda bem.

É essa a sina do Poeta. Por isso, não admira o seu objectivo afirmado e reafirmado “Afastar a mágoa do mundo/Quero/Quero muito” e é natural que, de tanto pensar, conclua sabiamente “Há um tempo para tudo/Por isso, às vezes não penso/Faz-me falta não pensar”.

E como sabeis a poesia é vida. Vida que nos vai inspirando no seu encanto e desencanto num mundo onde cada vez mais reinam desumanos mascarados de humanos.

Daí a impossibilidade do não-pensamento num Poeta, que é tragicamente um fiel guerrilheiro da verdade que busca incessantemente.

Objectivamente as obras literárias como todas as obras de arte são de uma solidão infinita, mas trazem-nos a beleza e o espanto e, ainda, a riqueza da nossa singularidade poética no mundo. Com esta Poeta que se vai afirmando não poderia ser diferente.

A candura da sua suave poética revela-nos o ser que nela habita e que serenamente vai lendo o mundo de forma muito particular e única, porque como diz convicta “Há dias em que trago o mar dentro de mim”. E o Mar meus senhores, o Mar…, quem pára o Mar?


DELMAR MAIA GONÇALVES
(Escritor e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora)



Antologia Fernando Pessoa e Convidados





NOTA DE APRESENTAÇÃO

Fernando Pessoa foi um importante poeta português, considerado hoje uma das figuras maiores das literaturas escrita, dita e falada em Língua Portuguesa.

Nasceu a 13 de Junho de 1988, às treze horas e vinte minutos, no Largo de São Carlos nº4, 4º Esquerdo, em Lisboa, filho de Nogueira Pessoa, natural de Lisboa, 38 anos de idade e de Maria Magdalena Pinheiro Nogueira de 26 anos de idade, natural da Ilha Terceira no Açores. Estes pormenores não seriam importantes, não fora o poeta um ilustre esotérico. Seu pai, funcionário público do ministério da justiça era crítico musical, e quando morreu deixou-o com apenas 5 anos de idade. Aos 6 anos de idade morre o seu irmão Jorge, altura em que cria o seu primeiro heterónimo o Chevalier de Pas. Com apenas  anos de idade, escreve a sua primeira poesia, uma quadra dedicada à sua amada mãe. Nesta altura, parte com a mãe para a casa do seu padrasto o Comandante João Miguel Rosa, Consul de Portugal na República Federativa da África do Sul. Em 1901, com 13 anos de idade, escreve o seu primeiro poema em inglês, ano em que regressa a Portugal, abalado, navegando os oceanos para acompanhar o corpo da sua irmã Magdalena Henriqueta, falecida em Durban. Em 1902, vai aos Açores, à Ilha Terceira, com a mãe para estar com a família materna.

Regressa novamente a Durban para estudar. Em 1906, regressa a Lisboa e passa a viver com a mãe e o padrasto. Após a morte da sua avó Dionísia, deixa Lisboa e vai viver sozinho em Portalegre, tendo regressado a Lisboa para montar uma tipografia. E quando falamos de Fernando Pessoa, de quem falamos realmente? De Ricardo Reis? De Alberto Caeiro? Ou de Álvaro de Campos? Certamente de todos num e do mesmo em todos. Todos estes acontecimentos, referidos anteriormente, moldaram o homem e o poeta que foi, como dizia o próprio poeta poliglota, ainda que precocemente “adivinhador de futuros” – Estou cansado de confiar em mim próprio, de me lamentar a mim mesmo, de me apiedar com lágrimas sobre o meu próprio eu – e sem dúvida marcou o seu lugar no mundo quando afirmou – Ora a civilização consiste simplesmente na substituição do artificial ou natural no uso e correnteza da vida. Tudo quanto constituí a civilização, por mais natural que nos hoje pareça, são artifícios. Por isso, esta justa homenagem ao poeta maior da língua portuguesa, no seu dizer Pátria sua, consegue gerar unanimidades e consensos sobre a sua reconhecida grandeza, reunindo poetas de países diversos irmanados pela poesia e pela língua comum, embora abraçando sua heterogeneidade e universalismo. No entanto, é bom que fique sempre claro, que “cada homem é um oceano.  Nunca chegamos verdadeiramente a conhecê-lo” e que “a poesia é a expressão sublime do real e do imaginário surreal”.

Sempre afirmei que o poeta se revela na generosidade com que se dá aos outros. Fernando Pessoa sempre se ofertou ao mundo, almejando um futuro melhor e renegando o hoje que o desencantava, por isso escreveu – Amanhã é dia dos planos. Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo. Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã – aqui se revela o poeta visionário, que premonitoriamente prevê o seu futuro.

Aos poetas antologiados apenas se pode pedir que continuem dignificando o sonho deste poeta maior, dignificando-se.


Delmar Maia Gonçalves
(Escritor e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD)

sexta-feira, 3 de abril de 2015

"Da Poesia? Ou de como se justifica um ponto de interrogação." de Jorge Viegas


PREFÁCIO

Ao escrever este prefácio a pedido do poeta Jorge Viegas, sinto enorme responsabilidade e, ao mesmo tempo, uma grande alegria por estar a fazê-lo por um amigo que respeito e um autor que aprendi a admirar. Outra coincidência feliz, é que, ambos recebemos a bênção ancestral quelimanense e somos provenientes do torrão Zambeziano. Se bem me recordo, li algures que o sábio Lao Tsé já afirmara que “A humildade é a maior das virtudes” e nós sabemos que a humildade é tão velha como a história da civilização humana.

Ao conhecer o Poeta e o Homem, pude constatar que a modéstia, por vezes exacerbada, é a sua principal marca/ característica/ virtude, embora não seja a única que possui. Trata-se, na verdade, de um excelente poeta e declamador moçambicano, hoje, na diáspora. Em várias tertúlias e encontros sempre elevou vários nomes quer da literatura moçambicana, quer da literatura universal, chamando-lhes de poetas-maiores, quase ignorando o seu. Embora estejamos de acordo em múltiplos aspectos da literatura, neste aspecto particular, permitam-me discordar dele.

Sempre acreditei que para que a nossa estrela brilhe não é necessário apagar a luz de ninguém. O mesmo se aplica no sentido inverso. Pelo que, é de inteira justiça afirmar que ele próprio já faz parte de uma galeria de autores que ficará para sempre na História da Literatura Moçambicana e augurando futuros, também na Literatura Universal. A modéstia não conseguirá apagá-lo, ainda que, como poeta genuíno que é, procure “naturalmente” praticar zelosamente o poema.

Por outro lado, sempre acreditei que “o poeta se revela na generosidade com que se dá aos outros” e ele fá-lo com total entrega, sem nada esperar ou exigir em troca.

Esta publicação antológica, embora tardia (mas nunca é tarde demais para nada) é inteiramente merecida e faria todo o sentido se acontecesse numa grande editora. Infelizmente, as grandes editoras de hoje (e desde sempre) apontam as baterias recarregando-as nalguns nomes grandes que o são, na verdade, por um apurado trabalho de marketing comercial (entre outros) e não apenas fruto da sua grandeza de facto em termos de criação literária.

Sempre preocupado com a estética, afirma convicto “… o poema só pode ser perfeito se o poeta for dos deuses o eleito”. Profundamente possuído pela modéstia, reafirma “sei que jamais farei um poema nitidamente meu. /A minha visão dos homens, das cousas e da vida, é visivelmente perturbada pela visão dos outros./ São os outros que olham, e não eu.” Será isso a prática do poema? Não poderia deixar de especular sobre este aspecto. É por essas e por outras que acredito serem os poetas uma espécie de vendedores de passados que anunciam um futuro que não foi. Embora cultive obsessivamente a humildade desde muito jovem, como o prova este poema “Carta a Régio”, “Vou tentar mascarar-me de palavras para saudar-te./ Sou ainda não o sabes, decerto, sacerdote da religião que tem um Rimbaud por Cristo…/Venho por mim, umbilical e subjectivo como tu, sensacionista e grande como uma pirâmide,/pedir uma carta de recomendação que me ponha de boas graças com o diabo…”
Como dizia Rilke ”Uma das provas ou desafios, a que tem de se sujeitar o poeta é que tem de permanecer inconsciente e ignorante em relação aos seus próprios dons se não quiser privá-los da sua ingenuidade e da sua pureza!”

Neste livro é difícil separar o conteúdo do autor do mesmo. E isso, é já por si bom sinal, na medida em que estamos perante a harmonia das palavras e a prática das mesmas ou pelo menos da crença nelas, há portanto, uma fusão total entre ambos. Por fim, as palavras revelam a estatura do Autor.

Bayete pois então para o Poeta!




DELMAR MAIA GONÇALVES
(Escritor e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD)

"Ian Amos Komenský (Coménio)" de Delmar Domingos de Carvalho



Ao ser convidado pelo autor para escrever o prefácio deste valioso livro sobre esta admirável, singular e incomparável personalidade visionária e cosmocrata, com vastíssima formação e qualidades excepcionais, senti-me honrado e feliz. Só podia ser assim, pois razões há-as de sobra.
Comenius é uma daquelas raras personagens da história da humanidade que vale a pena conhecer, ou revisitar, até pelo seu brilhante exemplo de honestidade, coragem, coerência, abnegação e tenacidade. É importante que não nos esqueçamos do contexto e da época conturbada e de enorme intolerância que viveu, além de uma infância marcada por tragédias e dramática solidão.
Julgo ter sido a forma ágil, paciente e sábia como filtrou e absorveu tudo isto e soube inverter a flecha do infortúnio através do cultivo da sabedoria interior que potenciou e desenvolveu, que o tornou num ser raro e extraordinário.
Tantas são as qualidades desta personagem única que se torna difícil enumerá-las.
Vistas bem as coisas de todos os prismas, acaba por ser um empreendimento de grande mérito esta ambiciosa iniciativa editorial do humanista e escritor português Delmar Domingos de Carvalho, prontamente abraçada e apoia-da pela CEMD EDIÇÕES, de convocá-lo para a actualidade num momento particularmente crítico da sociedade em que a palavra crise ganhou uma dimensão que ultrapassa em muito a área económica e atravessa todas as esferas do seu funcionamento e a palavra de ordem é a globalização económica e dos saberes.
E, no entanto, estranhamente caracterizada por muitos avanços e retrocessos, fruto da ganância, egoísmo e ignorância humanas.
Por isso é sem dúvida de saudar e acarinhar o ressuscitamento/ ressurgimento de exemplos concretos de homens que marcaram a diferença em épocas tão ou mais difíceis contribuindo hoje, mais do que nunca, pelo seu exemplo como forma de encorajamento às novas gerações que actual-mente vivem uma impressionante crise de valores, espelho da sociedade em que vivemos e que construímos, sem sentido crítico ou autocrítico, pese embora todas as conquistas alcançadas no progresso da humanidade em todas as áreas.
Como dizia com razão e bem Benjamin Constant “Não acreditamos em nada do que afirma uma autoridade que não permite que se lhe responda.”
Claramente sempre nos faltou tempo para uma aprendizagem da aprendizagem. Chegou pois a hora de fazê-lo retomando o caminho já iniciado no passado.
A aprendizagem é contínua e para a vida
Só um ser humano com a grandeza incomparável e inquestionável como COMENIUS seria capaz de escrever “De rerum  humanarum emendatione consolatio catolica”.
Atentemos a profundeza e grandiosidade desta alma de luz e do seu pensamento: “Por consequência, se quisermos que a desumanidade dê lugar à humanidade, devemos procurar incessantemente os meios de atingir esse objectivo. Esses meios são em número de três: Em primeiro lugar, os homens devem cessar de confiar demasiado nos sentidos e, atendendo à comum fragilidade humana, devem reconhecer que é indigno sobrecarregarem-se mutuamente de ódio por razões fúteis; deverão de um modo geral, perdoar-se as lutas, danos e ofensas do passado. Chamaremos a isso apagar o passado. Em segundo lugar, ninguém deverá impor os seus princípios (filosóficos, teológicos ou políticos) a quem quer que seja, pelo contrário, cada um deverá permitir a todos os outros que façam valer as suas opiniões e que gozem em paz aquilo que lhes pertence. Chamaremos a isso tolerância mútua. Em terceiro lugar, todos os homens deverão tentar, num esforço comum, perceber o que é preferível fazer e para o conseguir, devem conjugar as suas reflexões, as suas aspirações e as suas acções. É aquilo a que chamaremos conciliação.”
Fabuloso legado ao futuro. Um Testamento visionário, um autêntico Tratado do Humanismo.
E COMENIUS pagou caro por ser um “visionário” demasiado avançado para o seu tempo, um autêntico ladrilhador do grande empreendimento humano, pois sabia que se negavam as verdades que eram necessárias à sociedade para que as ciências florescessem e se disseminassem. Sabia também exactamente qual a importância e o peso que tem a livre circulação das ideias que impulsionam e suportam a evolução.
Consideramos por todas as razões e factos enumera-dos um livro vivamente aconselhável e a descobrir que navega pelas águas da reflexão, Biografia histórica, Pedagogia, Didáctica, Educação, Teologia ecuménica cosmocrata, Filosofia, Direito, Política, Retórica, Fotografia, Arte e Literatura. Sempre em sentido ascensional.
Basta ler, escutar, sentir e conseguimos ver.
Kanimambo Delmar Domingos de Carvalho. Bayete!!!



DELMAR MAIA GONÇALVES
(Escritor e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD)

ROSA VAZ - A CULTORA DOS AFECTOS




ROSA VAZ – A PINTORA CULTORA DE AFECTOS
DA ARTE AO ELOGIO
Escrevo eu, um vate Moçambicano encalhado na velha e histórica OLISIPO sobre a autenticidade dos feitiços da arte da pintura e cerâmica de um imbondeiro Angolano Africano embrenhado na Minhota e também histórica BRACARA AUGUSTA e que dá pelo belo nome de uma flor: ROSA, quase sempre como que “simbolicamente” rodeada de espinhos protectores marcando, desde logo, a diferença.
Na verdade nunca me foi difícil como poeta pôr em prática a arte do elogio com os confrades das artes e vates. Mas como amante da verdadeira arte e da poesia nela contida em especial, aprendi a torcer o nariz, negando o elogio ou julgamento fácil porque sempre odiei a bajulação reinante nesta esfera humana do caos. Uma convencionada e regrada espécie de troca de favores de que me demarco.
É aí que nasce e surge rebelde e livre, com asas, a crítica sincera mas invariavelmente vertical, séria, descomprometida e rigorosa. A arte pela arte.
Separe-se, pois, o trigo do joio , que nem tudo é arte nem tudo é poesia e nem tudo é engenho e excelência. Ah, mas aqui há e é das entranhas de África!
Ao olhar para a pintura desta “feiticeira” das policromias encantatórias da África e da Angola profundas lembro-me por deferência da poesia das cores dos Mestres da pérola do Índico ROBERTO CHICHORRO e BERTINA LOPES e da policromia geométrica do Mestre Angolano ELEUTÉRIO SANCHES. Nada que apague a já longa caminhada criativa singular de autenticidade no estudo, na espontaneidade e perseverança de Rosa Vaz , carregada de uma orgia de cores e tilintar de batuques .
Indiscutivelmente a sensualidade encalorada das mulheres dos trópicos transparece convidando-nos ao deleite e alimentando nosso olhar esfomeado da intensidade da poesia das cores. Lembrando-nos a nós (de outras luas de poesia) que vivemos neste pedaço de céu da generosa Península Ibérica que estamos na Europa, junto ao Atlântico, e que somos orgulhosamente pedaços de pau preto de África disseminados pelo mundo (de onde ambos somos provenientes na geografia humana). Uma diferença que só nos enriquece e ainda mais na Arte.
Os seus trabalhos pictóricos policromáticos de qualidade inegável sintetizam-na e transcendem-na. A poesia das cores, o sonho na poesia, a realidade, a nostalgia e o automatismo psíquico estão indesmentivelmente na origem da concepção de toda a sua obra, quer na pintura quer na cerâmica atingindo a excelência dos Mestres.
O grito da África profunda lá está e não engana.
Bayete.

DELMAR MAIA GONÇALVES
(Escritor e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD)



ANTOLOGÍA HETEROGÉNEA DE POESÍA,PROSA POÉTICA Y MICRORELATO "Alquimia del fuego"



                                        FUEGO DE LA VERDAD
               Madre
               arde en mí
               el fuego de la verdad
               nada
               ni nadie
               me podrá salvar
               porque la mentira
               es el rostro de los hombres
               que fundan la ciudad.

           Delmar Maia Gonçalves
   






ANTOLOGÍA HETEROGÉNEA DE POESÍA,PROSA POÉTICA Y MICRORELATO "Alquimia del fuego"




                               SILENCIO EN LLAMAS

Cuando el silencio
produce silencio
veo el silencio encendido
gritar en el silencio.

Delmar Maia Gonçalves

domingo, 28 de setembro de 2014

“DIAS SERENOS” de LUÍS PEDRO PROENÇA


A iluminação espiritual tem algo a ver com o ponto do espírito onde o alto e o baixo, o interior e o exterior, o superior e o inferior, o sonho e a acção, o real e o imaginário, deixam de ser percebidos contraditoriamente.
Assim que se começa a estudar o zen, uma árvore não é uma árvore, um rio não é um rio. Deixam de o ser. Assim que se atinge a iluminação espiritual, uma árvore é de novo uma árvore, um rio é de novo um rio. O método que consiste em não seguir nenhum método é o método por excelência.
Alguém duvida?  
O dia e a noite deixarão de opor-se. Na realidade, nunca se opuseram.
A raiz comum na imaginação será reconhecida. Sendo o exterior à imagem do interior, a vida será uma autêntica obra de arte. Na verdade, uma obra-prima única e inigualável.
O nosso intelecto é inegavelmente necessário para compreender as próprias limitações.
Segundo a experiência e perspectiva zen, o verdadeiro conhecimento é inseparável da experiência imediata. És posto à prova sozinho.
Mas se o homem olhar bem para dentro de si, adquire indubitavelmente a consciência superior da sua magnífica solidão, que o isola sim, mas não separa do resto da existência.
Aquele que é senhor de si mesmo, que é capaz de ouvir o que os outros dizem e não dizem, penetrando no pensamento com uma agilidade mental admirável, estará em condições indiscutíveis de compreender mil e uma coisas diferentes de uma realidade sem nome e sem forma definida.
A definição, mais ou menos clássica ou  mais ou menos académica, só satisfaz aqueles que querem  rotular o conhecimento separado da própria vida. O verdadeiro conhecimento não é rotulável nem hierarquizante. E nunca em momento algum deveria ser separado da vida.
O zen oferece-nos condições para que vivamos completamente livres do condicionamento das emoções negativas sempre nefastas, e da condição de alienados.
A humildade é portanto a condição número um para que tal suceda. Mas também não podemos esquecer a dedicação constante e diária para nos conhecermos e para vigiarmos o nosso comportamento inconstante.
No que à grande quietude do Poeta iluminado diz respeito, ele nunca está sereno por se dizer que a bendita serenidade é excelente. Está sereno porque a enorme e gigantesca multidão de coisas não pode jamais perturbar a sua serenidade, jamais!
As palavras fazem amor. As palavras- actos e não as que pressupõem actos.
Nós passamos a respirar as palavras – actos. Não há separação.
E isto só é possível com o zen. Ou não?
Quando “trabalhamos” somos como flautas e no nosso coração o murmúrio das horas, do tempo soa como música. Uma música harmoniosa.
E o que é trabalhar com amor? É tecer o nosso pano com os fios do coração, como se estivéssemos a tecer e moldar a roupa do nosso mais que bem amado universo em que viveremos.
Recordando o grande Poeta RABINDRANATH TAGORE diremos então que “ Sobre as tramas do nosso finito que é infinito e cuja tapeçaria bordamos quotidianamente nossas vidas, acaba sempre visível a mais ínfima nódoa!”
Por isso se torna vital a nossa harmonização interior para que expressemos um exterior muito mais transparente, mais sereno e sem mácula.

DELMAR MAIA GONÇALVES

(ESCRITOR e PRESIDENTE DO CÍRCULO DE ESCRITORES MOÇAMBICANOS NA DIÁSPORA – CEMD)

“TCHANAZE, a donzela de SENA” de CARLOS PARADONA RUFINO ROQUE



Uma obra em segunda edição (a primeira foi em 2009) que resgata a riqueza cultural ancestral africana e a aura de mistério que rodeiam as tradições e os mitos ancestrais africanos numa linha que deu continuidade mágica em “N´TSAI TCHASSASSA A VIRGEM DAS MISSANGAS”, o seu segundo magnífico romance de 2013 e depois do seu anterior, inicial e sereno navegar pela Poesia em “ GESTAÇÃO DO LUAR” em 1991.
O ressuscitamento e cruzamento ficcional de mitos, lendas, ritos e tradições ancestrais é a sua imagem de marca.
Estamos, portanto, perante um escritor Moçambicano e Africano de longo curso (porque nos oferece muitas possibilidades de leitura e releitura e, porque muito esperamos dele e da sua sagacidade, talento, engenho e da sua já consolidada maturidade na escrita).
A revalorização e convocação das tradições, dos ritos e dos mitos do grande ZAMBEZE será como que uma recuperação simbólica desse estado civilizacional anterior aos quase fatais golpes de força externos (colonização, aculturação e assimilação) e internos (independência, revolução, socialismo científico, monopartidarismo , pluripartidarismo, democracia, capitalismo e globalização), sua assumpção na escrita moçambicana em língua portuguesa que ganhou hegemonia, estrangulou-a, asfixiou-a, mas não a apagou nem apagará como prova este autor e esta obra e ainda outros autores como PAULINA CHIZIANE que a prefaciou ou UNGULANI BA KHA KOSSA que fazem abordagens ficcionais desconstrutivas, críticas e autocríticas das sociedades africanas ancestrais e actuais.
CARLOS PARADONA RUFINO ROQUE resgata com profundidade os valores tradicionais, valores próprios das culturas de tradição oral de um passado que nunca esteve nem estará ausente de/ em África, convocando-os do passado para o presente rumo ao futuro.
Não se trata de regressar ao passado, mas de trabalhar a modernidade sem renegar o passado ou virar as costas ao rico e vasto património cultural tradicional ancestral que urge hoje mais do que nunca preservar e revalorizar em memória escrita, ainda que ficcionada. É essa a missão do escritor.
Ao trazer estas formas e o imaginário africano, moçambicano e bantu da tradição oral para a sua obra, CARLOS PARADONA RUFINO ROQUE chama a atenção para todo o manancial e riqueza das culturas bantu moçambicanas mais profundas e enraizadas que já chegaram a ser rotuladas como meras superstições e puro exercício do obscurantismo, primeiro pelo colonialismo e depois pelos conturbados ventos da revolução moçambicana.
Nesta óptica, a recuperação dos valores ancestrais do mundo tradicional bantu, uma vez que é a rejeição clara de posturas exógenas, cumpre uma função histórica e pedagógica de um irreversível processo de desassimilação, de demarcação relativamente ao que é exterior e estranho à(s)  cultura(s)  genuinamente Moçambicana(s).
Podemos concluir dizendo convictos que a presença dos modelos de tradição oral neste autor é sabiamente orientada fundamentalmente por um espírito de afirmação claríssima da identidade cultural Moçambicana e da reafirmação inequívoca da identidade de uma literatura emergente e consolidada por um conjunto de autores variados de grande qualidade.
Por essa razão atrevemo-nos, pois, a afirmar que se quiserem conhecer as entranhas do MOÇAMBIQUE profundo, na misteriosa e labiríntica região do grande ZAMBEZE, mergulhem na aventura desta obra ficcional que este autor generosamente nos oferece.
Segundo o ilustre académico Moçambicano Lourenço do Rosário «As narrativas de tradição “oral” africana têm uma forte componente didáctico – moralizante», isto reflecte-se aqui na sua estruturação magistralmente construída, porque nos ensina que no MOÇAMBIQUE profundo por vezes oculto os vivos e os mortos, o visível e o invisível se entrelaçam na roda do mundo em que vivemos e por onde caminhamos na eterna dança do quotidiano ao som dos passos do batuque e que há saberes propositadamente ocultos ou adormecidos que devem ver a luz do dia. Por outro lado, não nos esqueçamos que foi indubitavelmente com o mito que a história humana sempre e em toda a parte começou; foi através do mito que os vocábulos, os símbolos originários tomaram a sua primeira forma e cada era nova da história os redescobriu à sua maneira. Ora, como se sabe o processo cultural de onde a literatura de MOÇAMBIQUE emerge tem grande parte das suas raízes mergulhadas no mito, vivificado no quotidiano e presente na visão religiosa ou animista “africana” e religadora do homem à terra e ao transcendente.
Bayete pois para o Escritor CARLOS PARADONA RUFINO ROQUE.



DELMAR MAIA GONÇALVES

(ESCRITOR e PRESIDENTE DO CÍRCULO DE ESCRITORES MOÇAMBICANOS NA DIÁSPORA – CEMD)

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

PREFÁCIO do livro “Olhar de uma Africana” de Margarida Tavares


Pediu-me a amiga e “soba” MARGARIDA TAVARES (uma verdadeira lição de vida em carne viva), das ilhas crioulas de CABO VERDE que escrevesse um prefácio em tempo record, para este “Olhar de uma Africana”.
O tempo foi curto para um empreendimento desta dimensão, natureza e responsabilidade, e o nível de auto-exigência desproporcional. Mas o que fazer? Dizer não? Como resistir ao apelo da África viva? Como resistir ao apelo da poesia? Como resistir à fraternidade humana? Como resistir ao apelo da Lusofonia?
A Autora, “mais um precioso pedaço de pau-preto disseminado pelo Mundo”, nas palavras da malograda e grande Poeta Moçambicana NOÉMIA DE SOUSA, abraça a Lusofonia como quem se embrenha num Poema inacabado para finalmente concretizá-lo.
Decifrar seu universo enigmático e singular, no plano de uma poética subjectiva, torna-nos ainda mais cúmplices de uma experiência ou conjunto de experiências que envolvem a própria vida.
Mas, não é verdade que cada ser humano é ele próprio uma ilha nascendo noutras ilhas?
Fica-nos a poética pujante e pungente de MARGARIDA TAVARES, uma mãe coragem de África, para com ela nos deliciarmos e descobrirmos também as ilhas que há em nós, individual e colectivamente, para finalmente redescobrirmos a maravilha da infalibilidade da interdependência.
Este livro, como a Autora, é de uma audácia que vale a pena descobrir.
Títulos como “Os líderes Africanos”, ”Regresso de um Emigrante”, ”Preto”, ”Africana”, ”Crianças Africanas”, ”Estudantes Africanos”, ”Cabo-Verdiano”, ”Continente Africano”, entre outros, provam que a África vai pulsando nas diásporas e sugerem o orgulho nas/das origens, o orgulho de ser Africano e um claro e pujante apelo fraterno da presença Africana no mundo. Na verdade, tudo o resto estará nas entrelinhas do subjectivo e secundário, que África não se encerra nunca nas páginas dos livros e MARGARIDA TAVARES cantá-la-á sempre e enquanto respirar e, ainda mais, sempre que um Leitor atrevido e sedento devorar esta obra que urge descobrir e redescobrir.
É fundamental, pois, que cada um de nós ao lê-lo, olhe bem para dentro de si próprio para adquirir a consciência da sua magnífica solidão que nos enriquece e enriquecerá sempre na diferença.
África essa continuará a dançar na autora ao som dos batuques, em nós Leitores e no Mundo, através destes belos, altivos e fraternais Poemas.

DELMAR MAIA GONÇALVES

(ESCRITOR e PRESIDENTE DO CÍRCULO DE ESCRITORES MOÇAMBICANOS NA DIÁSPORA – CEMD)