terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Rua dos Mártires da Pátria

Em Maputo
fui à Rua
dos Mártires da pátria
cobrar dinheiro
do Sô Faruk
porque a barriga
deu horas e não aguentei.
Fui à Rua
dos mártires da pátria
cobrar dinheiro
do Sô Pinto
porque minha mãe
estava enferma
e tinha de ir à farmácia.
Fui à Rua
dos Mártires da pátria
porque nasci lá
e foi lá
que me fiz homem.


Delmar Maia Gonçalves
Algés/Lisboa, 17 de Janeiro de 2002.
Quero contar minha história porque serve para provar que se pode conseguir tudo conseguindo nada.


Delmar Maia Gonçalves
Parede/Lisboa, 25 de Setembro de 2009.
Luz vai
Luz vem
é essa minha sina
de nada vale
remar contra a maré
e se algo
pudesse dizer à maré
diria sem vacilar:
vem tempestade
vem
vem com luz!

Delmar Maia Gonçalves
Alcântara/Lisboa, 18 de Dezembro de 2009.

Eu e Ele

Somos inimigos
Nós!
Eu e Ele
Eu (o tolerante Gandhiano!)
Ele (o que deseja justiça
em forma de vingança
para reposição de justiça)
e no entanto
estamos condenados
ao entendimento
Eu e Ele
somos uno
Eu e Ele
somos o "eu"
harmonizados
pelo perfume
Edeníaco da sobrevivência.


Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 16 de Dezembro de 2009.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Ser Eternamente Criança

Je pense donc j'invente, j'invente donc je pense.
(Michel Sèrres)

Para as Crianças de Moçambique


Queria ser
sempre criança
Sempre!
E ser livre como os pássaros
e puro como as flores.


Queria brincar
correr
pular
sorrir
sorrir sempre
e ser eternamente
criança.


Delmar Maia Gonçalves
Quelimane/Moçambique, 11 de Agosto de 1984.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Setara - uma mulher Afegã

O único
pecado libertino
de Setara
foi cantar
e bambolear-se
em palco hirta
e em directo
perante
Talibãs de consciência amorfa
Afinal,
o tamanho dos sonhos
não tem Fronteiras
Apenas a crueldade humana
pode ser resumida
e tem nome
Besta Barbaridade!

Condenada embora.
Será imortalizada
com seu grito rebelde.

Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 16 de Novembro de 2009.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A televisão na CPLP

Como é tido e sabido Portugal tem protocolos de cooperação com os PALOP na área de informação e nomeadamente na área audiovisual.
Tal cooperação abrangeu a construção das televisões da Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, para além de Centros de Formação em Moçambique e Angola.
É um facto que os PALOP ainda têm muito que aprender nesta área específica. Mas será que também os portugueses não tem nada para aprender nos PALOP?
Não consigo é entender o facto de a RTP Internacional não passar também programas feitos pelos jornalistas e televisões africanos, uma vez que só assim, no meu entender, se estaria a concretizar a cooperação, o intercâmbio e a troca de experiências entre Portugal e os PALOP, para além de reforçar e pontenciar a projectada Comunidade dos Povos e Países de Língua Portuguesa.
Lamento ainda que aos 1440 minutos diários de emissão da rádio só um seja da responsabilidade africana. Isto porque, por exemplo, a televisão moçambicana só pode apresentar quinzenalmente um mini-programa de 15 minutos se quiser, caso contrário, não há nada para ninguém.
Quanto a mim há que tomar cuidado e ser exigente dentro do razoável e possivel nos acordos de cooperação. Não foi por acaso que um diplomata estrangeiro acreditado em Maputo tenha feito exigências inaceitáveis relativamente à toponímia da cidade.
Flexibilidade sim, mas não em demasia.


In Revista "África Hoje" nº95
Delmar Maia Gonçalves
Parede, Maio 1996.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Breve retrospectiva sobre Moçambique 1962/2001 - 1975/2001

A trajectória de um país e o enquadramento rumo à melhoria das condições sócio-económicas.


Completaram-se, no dia 25 de Junho deste ano, 39 anos sobre a constituição da Frelimo, actualmente um partido no poder, mas outrora um movimento de libertação, depois de muitos anos de luta armada contra o colonialismo da ditadura instalada em Lisboa e de alguns anos de combate a dissidências internas mais ou menos violentas, ao Movimento de Resistência Moçambicano de André Matsangaíssa e mais tarde de Afonso Marceta Dhlakama e Evo Fernandes, às incursões de mercenários enviados por Ian Smith da Rodésia (actual Zimbabwe) e aos raids sul-africanos (do regime do Apartheid).

Na verdade, foi naquela data que diversas forças políticas moçambicanas antifascistas e anticolonialistas (Udenamo, Manu e Unami) se fundiram numa plataforma unitária tendo em vista uma maior eficácia no objectivo prioritário que a todos animava independentemente de divergências de ordem ideológica, rácica, tribal, social ou estratégica. Constituída sob a presidência respeitada de Eduardo Chivambo Mondlane e a vice-presidência de Uria Simango (mais tarde destituído) e Marcelino dos Santos, a Frelimo iniciou a luta armada em 25 de Setembro de 1964, na província de Cabo Delgado. Desde essa altura, morreram em combate valorosos guerrilheiros e heróis, como Filipe Samuel Magaia, Paulo Samuel Kamkomba, para só citar alguns e Josina Machel (esta por doença).

Posteriormente, a guerra alargou-se a vastas zonas do Niassa e também a Tete, quando Eduardo Mondlane morreu, vítima de um atentado terrorista, com uma encomenda armadilhada, em 1969, atentado esse que foi desde logo atribuido à Pide. Especulou-se ainda que o mesmo resultou de problemas internos da Frelimo, hipótese essa que não se confirmou, mas ainda hoje subsiste a dúvida: quem matou Eduardo Chivambo Mondlane? Como foi possivel este assassinato? A mando de quem se concretizou? Com que cumplicidades?

Com o desaparecimento de Mondlane e a ascensão ao poder de Samora Machel, Uria Simango e Marcelino dos Santos, em Maio de 1970, a Frelimo inicia uma movimentação mais ofensiva, que virá a expandir-se consideravelmente aquando da contra-ofensiva às megalomanias militares do general português Kaúlza de Arriaga, então comandante em Moçambique. Mais tarde Uria Simango é afastado do triunvirato por divergências consideradas irredutíveis. Depois seria preso e executado.
Chegado o 25 de Abril de 1974, a situação politico-militar em Moçambique era francamente preocupante para as autoridades portuguesas, nomeadamente porque a guerrilha da Frelimo se alargava já à vizinhança das cidades da Beira (junto ao mar) e de Chimoio (então Vila Pery) fronteira com a então Rodésia, actual Zimbabwe, o que significava a ameaça de corte do país ao meio, isolando os distritos do sul de todo o imenso norte e estrangulando, na prática, a chave símbolo do último grande esforço colonial português em Moçambique - a Barragem de Cabora Bassa situada no Zambeze na província de Tete.

Vinte e sete anos passados sobre a independência, as relações com a antiga potência colonial são exemplares, pese embora a morte misteriosa do saudoso presidente Samora Machel, um dos grandes impulsionadores dessas relações, em 1986, e a mudança de regime político ocorrida em 1993 e com a realização das primeiras eleições pluripartidárias em 1994 mas aparentemente decidida muito antes.

Mas, vinte e sete anos passados, há também que reconhecer que moçambique se encontra ainda muito longe das metas de progresso e bem-estar visionadas com a independência e que também por isso a renovada Frelimo de Joaquim Chissano no poder e os novos partidos políticos emergentes, incluindo a Renamo de Afonso Marceta Dhlakama, enfrentam uma luta diferente, mas comum para todos os moçambicanos: a luta pelo desenvolvimento de Moçambique em paz.

As calamidades naturais cíclicas são um obstáculo dificil de enfrentar num país que procura reerguer-se, terá de se trabalhar na prevenção, e no combate contra a Sida e os investimentos na educação deverão ser prioritários, as condições sócio-económicas deverão melhorar com um modelo de desenvolvimento democrático que sirva à realidade africana.

In Revista "Lusofonia" nº21 em 2001.
In Jornal "Voz do Olhar" em 21 de Setembro de 1995
Delmar Maia Gonçalves

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A adesão de Moçambique a Commonwealth como acto de soberania e afirmação internacional

Nunca Portugal reagira de forma tão dramática e paternalista em relação às ex-colónias como agora que Moçambique decidiu aderir a Commonwealth.
Acto de resto legítimo de um Estado soberano e independente. Mas Portugal não está isento de culpas no processo que conduziu Moçambique a aderir à comunidade de língua inglesa. Este exercício de adesão merece-me duas leituras:
1º - Moçambique precisa de refazer o seu tecido social e para que tal se concretize é necessário um maior e melhor apoio económico que permita depois um desenvolvimento mais acelerado com resultados imediatos e que Portugal não pode garantir neste momento;
2º como país independente e soberano tem necessidade de se afirmar no panorama internacional até para renovação de uma imagem algo desgastada pela guerra e tem também o direito de se tomar o rumo que achar certo para o bem do seu povo. Não se trata pois de substituir o português pelo inglês.
Não é por acaso que o deputado da FRELIMO Coronel Sérgio Vieira afirmou ser de felicitar o governo no exercício de adesão a Commonwealth, de criação do Espaço dos Sete Países de Língua Portuguesa, de elevar o estatuto do país na francofonia, de investir numa presença no Índico e potenciar a participação na Comunidade Islâmica.
Como podem facilmente verificar o governo moçambicano nunca pensou em substituir o português pelo inglês. Como se poderia implantar o uso de uma língua sem antecedentes históricos na população? Com que recursos? E quem apoiaria essa medida? Como se poderia impedir a ascensão no partido do governo, nos outros partidos e no Estado dos poucos utentes dessa língua ou que a dominam? É que a sua vantagem política seria inaceitável. Qual seria a validade da proposta? Quanto tempo levaria a implementar-se? Quantos moçambicanos estariam dispostos a deixar de escrever por decreto em português para passarem a fazê-lo em inglês? Não se estaria a fomentar a cisão entre os moçambicanos? Enfim, só os portugueses insistem em ser cegos quando deviam passar das palavras à acção. Acção essa que passa pela consolidação e reforço da cooperação nos domínios da educação e cultura com os PALOP.

In Revista "Africa Hoje" nº94
Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, Abril de 1996.

sábado, 31 de outubro de 2009

Minhas feridas
de sentimentos
ficaram em carne viva
também por isso
vivo lambendo-as.

Delmar Maia Gonçalves
Carcavelos, 20 de Janeiro de 2009.
Olhai gentalha
da vossa milimétrica
e fedorenta altura
para este humilde
e insignificante homo sapiens
prestai atenção!
Não fumo,
Não bebo,
Não tenho vís vícios
que me atormentem
a pacata existência
Embriago-me com a poesia
Fumigo-me com a prosa
Tomo café nos intervalos
e deleito-me com curvas afroditeanas
fazendo jus à minha existência.
Nada que se pareça
com os vossos luxuosos desvarios.

Delmar Maia Gonçalves
Fátima, 28 de Dezembro de 2008.

Chelas

Porque será
o chamamento
do degradado degredo
tão ruidoso?
Porque será
que tal chamamento
me indispõe.
Teria eu
sobrevivido
a tal mundo imundo
em intemporal jornada?

Delmar Maia Gonçalves
Alcântara, 8 de Fevereiro de 2009.
Cores aberrantes
me sufocam
humanos desumanamente
encaixotados
a inestética
de uma estética inexistente
observo
indisponho-me
estremeço!


Delmar Maia Gonçalves
Cruz Quebrada, 8 de Janeiro de 2009.

Cães rafeiros

Só se contentam com ossos os cães esfomeados e rafeiros. Um cão que se habituou aos bifes, rejeita os ossos.


Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 3 de Setembro de 2009.

O Morcego

O morcego é um animal grotesco. Mas não tão grotesco como o animal que há no homem.


Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 3 de Setembro de 2009.

Liberdade

Só tem Liberdade quem não tem Liberdade.



Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 08 de Outubro de 2009.

Estigma da lixeira

Bom demais seria combatermos a lixeira acumulada para que não fiquemos com o estigma do lixo. Mais um...


Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 9 de Setembro de 2009.

Lixo

Mau demais seria que nos deitassemos no lixo que nós produzimos.


Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 09 de Setembro de 2009.

És

Ao Dinis

És talvez
uma Lágrima de Deus
como uma gota
de orvalho no oceano.

És talvez
a suave Brisa matinal
que retempera forças.

És o anunciado Anjo astral.
És Luz cintilante na escuridão.
És a Esperança renascida.

Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 23 de Setembro de 2009.

Carta ao meu caro ex-amigo

Enfie a carapuça quem quiser!

Meu Caro Ex-Amigo,

Lamento que depois de tanto esforço inglório e vão, tenha de pôr um ponto final neste Carnaval que não é. Tanta imprudência mascarada só podia dar este epílogo. Procurava uma amizade genuína e encontrei algo com que não me identifico. Adeus! E boa continuação.

Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 23 de Setembro de 2009.


Post Scriptum
- de falsas amizades não reza a história.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Racismo não tem Futuro

Indignado estou pelos ventos de racismo que assolam Moçambique e dizer que, do meu ponto de vista, o racismo só faz sentido para pessoas frustadas ou culturalmente débeis, que procuram encontrar bodes expiatórios na questão racial para justificar os seus fracassos, fantasmas e medos.
Lutar contra o racismo e a xenofobia deveria ser princípio e prática universal.
Os cidadãos e políticos racistas de Moçambique não reconhecem, por acaso, qual foi o papel que os não negros moçambicanos da Frelimo, da oposição e não só desempenharam no longo processo que conduziu à Independência do País?
Que moral têm agora alguns senhores ditos moçambicanos, ditos donos de Moçambique, para pôr em causa a moçambicanidade de todos os não negros, através de cartas e artigos racistas, cobardes, com o agravante de se esconderem por detrás de intrigantes pseudónimos?
Para se combater o racismo pratica-se o racismo?
É esta a vossa máxima?
Por favor, meus senhores, não levem o odioso racismo para um Moçambique que está em construção.
O racismo não tem futuro em lado nenhum, nem os racistas, portanto, demitam-se os racistas! Fechem-se os esgotos, que cheiram mal!
Talvez por causa dessa burrice ainda haja moçambicanos a viver bem no estrangeiro, que não constroem empreendimentos válidos e permanentes em Moçambique, que poderiam contribuir para o desenvolvimento do País que é também deles. Talvez seja devido sobretudo, a homens como os senhores, racistas, xenófobos e invejosos, que não garantem segurança a ninguém.
De resto, não me interessa mesmo nada se vocês são negróides ou caucasóides, que se lixem as raças ou cores, podiam até ser invisíveis, não mudava uma palavra do que escrevi da minha visão do mundo. Talvez seja da minha educação... visual!
A todos os racistas e xenófobos moçambicanos desejo longas "reciclagens" multiculturais, multirraciais, interculturais, e inter-religiosas e que leiam muito Martin Luther King, Mahatma Gandhi, Nelson Mandela, Amílcar Cabral, Eduardo Mondlane, Samora Machel, José Craveirinha, o Alcorão, a Bíblia Sagrada, a Tora, o Gita, e se ainda assim fizerem tenções de continuarem racistas então vão à merda!
Os senhores não podem culpar a ninguém por nada, trabalhem, deixem os outros trabalhar e um dia colherão os frutos.
Moçambique sem investimento estrangeiro seria um país adiado e sem tolerância racial entre os moçambicanos, seria uma catástrofe.
Obviamente, vocês não são melhores que o falecido senhor P.W. Botha, porque se escondem por detrás de aberrantes pseudónimos, ele não o fazia, assumia-se como racista.
Mostrem as vossas caras! Têm medo de quê?
Têm vergonha de se assumir racistas?
Já uma vez na reinauguração do Hotel Polana, o antigo Presidente Joaquim Chissano afirmou acreditar que a evolução do pensamento humano indicava progressos na erradicação do racismo.
Subscrevo esta opinião e desejo francamente que o sonho do povo moçambicano pela melhoria da qualidade de vida se concretize.

In "Savana" de Maputo
Delmar Maia Gonçalves
08 de Novembro de 1996.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Principais medidas para o futuro do turismo nacional Moçambicano - um contributo

A conjuntura favorável que se vive actualmente na República de Moçambique, permite-nos pensar no relançamento do Turismo no país que já foi considerado o mais pobre e miserável do mundo pela ONU e os media ocidentais apesar de todo o seu potencial. A nova postura do novo Governo Democrático da Frelimo e a contribuição da oposição moçambicana liderada pela RENAMO para a consolidação do processo democrático em curso, a participação cada vez mais activa da sociedade civil no processo de reconstrução, leva-nos a apostar e a pensar Moçambique como destino turístico apetecível e viável, dentro de um quadro de medidas de investimento prioritário para criação de garantias de uma segurança efectiva que possibilite o desenvolvimento do turismo (como fonte e factor de riqueza) e consequentemente do país.
A estratégia de desenvolvimento do sector apresentará os seguintes vectores:
1. A defesa rigorosa da qualidade dos serviços e equipamentos através da elaboração de regulamentação resultante de legislação;
2. A melhoria do conhecimento e da base científica que constituem o apoio à tomada de decisões, quer do Sector Público, quer do Sector Privado (através da criação, desenvolvimento, investimentos em escolas desta área específica);
3. O aumento do investimento em equipamento de animação e respectivas infra-estruturas (sobretudo apostando na reabilitação, renovação e modernização das já existentes);
4. Reexame rigoroso do enquadramento ambiental e da qualidade estética dos equipamentos dos destinos turísticos;
5. A diversificação da oferta de produtos turísticos, investindo e promovendo o turismo a nivel nacional (nas zonas centro e norte sobretudo);
6. O reforço, descentralização e intensificação das acções inspectivas, em colaboração com as novas autarquias (Conselhos Municipais), de modo a controlar a qualidade dos pontos turísticos (por exemplo: condições das cozinhas, qualidade nas refeições, preços praticados, higiene das infra-estruturas e qualidade dos produtos).
7. O fomento dos factores relacionados com o acolhimento do visitante, no que respeita à hospitalidade, à higiene, à simpatia e à comunicabilidade do povo moçambicano;
8. A continuação do esforço de modernização de infra-estruturas, designadamente nos transportes, comunicações, energia, saneamento básico, telecomunicações, etc.

In "Boletim Tindzava"
Delmar Maia Gonçalves

domingo, 25 de outubro de 2009

Mofana Matusse

Mofana Matusse queria sonhar mas não sabia como.
O seu sonho chamava-se Pesadelo e o seu pesadelo era guerra.
Toda a gente se habituou a ver Mofana Matusse chorar. Toda a gente o chamava chorão.
Foram anos de solidão e tristeza!
De repente Mofana Matusse reaprendeu a sorrir e ninguém compreendeu porquê.
Mas eu sei e digo-vos:
Mofana Matusse reaprendeu a sorrir com o fim da guerra.
Mofana Matusse dança, canta e pula com o fim da guerra.
Mofana Matusse corre, salta e joga com o fim da guerra.
Mofana Matusse cultiva a paz, o amor e a amizade para que a guerra não volte jamais.


Glossário:
Mofana: rapazinho, menino, criança;


Delmar Maia Gonçalves
Parede, 25 de Junho de 1995.

Mulher XXI (Sensual-idade) em Sintra


Dois corpos
unidos num só
e no magestoso éden
ouvem-se sussurros
proibidos por entre
as frondosas árvores
do jardim proibido
Ouve-se o chilrear
dos pássaros
Ouvem-se ruídos
de fundo como parte
do idílico cenário
inspirador da acção
Ouvem-se vozes estranhas
que se aproximam dos vultos
endiabrados pelo prazer de viver
Ouvem-se passos
de estranhos insaciáveis e curiosos
Ouvem-se sinos de paixão, êxtase
e prazer na partilha
de um amor
que se quer eterno.


Delmar Maia Gonçalves
Parede, 16 de Maio de 1996.

As duas faces do Cão Tinhoso

"Quando os ricos fazem a guerra, são os pobres que morrem"
Jean-Paul Sartre


Cão tinhoso
era estranho
era guerra
era sombra
cão tinhoso
morreu
nasceu nova aurora
e com ela a esperança
agora cão tinhoso
é outro!
Não é estranho
mas é guerra
não é estranho
mas é sombra
e é nosso pai, nossa mãe,
nosso tio
e nosso irmão
a deseperança
instalou-se
aguarda-se
o renovar da aurora
e com ele
nova esperança.


Delmar Maia Gonçalves
Monte Estoril, 27 de Setembro de 2004.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Os Cadernos Moçambicanos Manguana

Os Cadernos Moçambicanos Manguana são um espaço de reflexão, divulgação, crítica, análise e debate, onde se pretende abarcar, não só a literatura moçambicana, como também as dos outros países de língua portuguesa. Constituindo-se como um grupo informal de amigos moçambicanos (1), em torno de uma paixão comum e partilhada, tem como objectivo dar expresão a um processo criativo, muitas vezes ignorado e marginalizado, trazendo-o para a luz do debate de ideias, de ideais, da crítica e da troca de opiniões. Tendo nascido num reencontro de moçambicanos na Embaixada de Moçambique em Lisboa, este projecto ficou decidido e definido na Livraria Ler Devagar em Lisboa.
Assumo como o desejo primordial a integração de um número cada vez maior de elementos moçambicanos, transformando-se, desta forma, num projecto abrangente, alargado e transversal.
Não se arrogando à pretensão de se vir a constituir como movimento ocorrente, normativa e/ou estilística. Procura antes, fazer da sua intervenção um passo, bem vincado, no amadurecimento de novos discursos, dando particular destaque a projectos de fusão com as outras linguagens culturais e artísticas. De cariz profundamente ecuménico, no que este assume de universalista, ao nível da integração em respeito pela divergência de conceitos, conteúdos e formas.
Fundamentalmente, pretendemos estabelecer uma ponte para o futuro, um sistema global de comunicação intercultural, e onde poderá surgir a realidade de um homem plural, aberto, flexível, capaz de assumir a unidade da lusofonia pela consolidação e divulgação da diversidade e da sua riqueza.

Delmar Maia Gonçalves
Parede, 03 de Fevereiro de 2004.
In Antologia Cadernos Moçambicanos Manguana nº 2 (contracapa)
(1) Constituido por Delmar Maia Gonçalves, Jorge Viegas e Renato Graça.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Mudar Mentalidades

Expresso aqui uma crítica relativamente aos jornais e revistas portuguesas especializadas ou que escrevem e noticiam África.
Dedicam demasiado espaço à política , demasiado espaço aos políticos e dão pouca importância à sociedade civil africana, dando aos políticos africanos a ideia de que o poder é eterno, de que os países lhes pertencem, de que o prestígio e o poder são apenas encontrados na política.
Em nada contribuindo para a formação de uma opinião pública e de uma sociedade civil fortes, que possam fortalecer os Estados e democratizá-los.
Faltam mais atenção e entrevista a poetas, escritores, escultores, pintores, actores, professores, intelectuais, médicos, desportistas e tantos outros profissionais. É necessário um novo ordenamento social e uma nova mentalidade em África. E África Hoje pode contribuir para uma mudança de mentalidades que urge nos PALOP.
Não se admirem pois, quando os cidadãos portugueses ao reconhecerem um excelente estudante bolseiro africano digam logo "Você vai ser Ministro"! Quando na realidade até simples cidadãos trabalhadores podem contribuir para o desenvolvimento dos seus países.
Ou será que todos os quadros africanos formados no exterior serão ministros, directores ou dirigentes políticos?

Delmar Maia Gonçalves
In Revista "África Hoje" nº99
Parede, Setembro de 1996.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Os Desmobilizados

Antes e depois da concretização do acordo de paz de Roma para Moçambique houve promessas de apoio aos desmobilizados moçambicanos, tanto a nível internacional, como nacional.
Embora partilhe a ideia de que todos temos os mesmos direitos e obrigações perante a lei, reconheço, no entanto, que em muitos casos há uma grande diferença entre a teoria e a prática.
Hoje, em pleno exercício de uma democracia emergente em Moçambique , os desmobilizados continuam numa situação dramática abandonados à sua sorte.
Diz-se que a necessidade aguça o engenho! Mas o que fazer com alguém que só conseguiu resolver os seus problemas diários com a ajuda de armas e que provavelmente só sabe lidar com armas?
Não será correcto também dizer que a necessidade aguça o apetite dos desmobilizados (militares e polícias) pelas armas?
Sempre ouvi dizer que "mais vale prevenir do que remediar", que "o prometido é devido", que "a paz não é a simples ausência de guerra" e que "a paz ou é de todos ou não é de ninguém"!
Chegou a altura de os desmobilizados serem integrados e enquadrados na sociedade moçambicana.
A marginalização, a exclusão, o desprezo, a indiferença, a memória curta, o esquecimento e a ausência de solidariedade, não são os valores por excelência que sempre guiaram os moçambicanos, é pois altura de mudarmos de atitude ou então jamais nos esqueceremos do velho ditado "quem semeia ventos colhe tempestades".

Delmar Maia Gonçalves
In Revista "África Hoje" nº110
Parede, Outubro 1997.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Velhos Fantasmas

Enquanto em Angola ainda se tentam limar arestas para a resolução definitiva do conflito, em Moçambique, uma vez ultrapassados os possíveis obstáculos à paz (realização de eleições legislativas multipartidárias e presidenciais, acordo para a formação das novas forças armadas e formação da nova polícia), aguardam-se as eleições autárquicas.
Entretanto, lamentavelmente surgiu um debate polémico, em torno da questão da morte de Lázaro Kavandame, ex-militante da FRELIMO e supostamente executado por traição, pela própria FRELIMO.
Num momento crucial para o fortalecimento das instituições democráticas de Moçambique e da paz, ainda há pessoas que teimam em prejudicar o processo desenterrando "velhos fantasmas", que em nada ajudarão na reconciliação nacional. Com o devido respeito que tenho pelos familires das vítimas, não será tempo de nos preocuparmos com o desenvolvimento do nosso país e com a manutenção da paz, em vez de alimentarmos factores de divisão que só fazem renascer os ódios e as sedes de vingança?
É preciso não esquecer que ficaram muitas mortes e actos de violência por explicar e entender (da guerra colonial, dos "raids" sul-africanos, dos mercenários de Ian Smith e da guerra entre a FRELIMO e a RENAMO), mas e que adiantaria num momento destes provocarem-se debates deste tipo? Por vezes, fedem que enojam!
Não nos bastam as zonas rurais ainda minadas, e a ainda não resolvida questão dos esconderijos de armas como o de Marínguè, que já dão dores de cabeça aos verdadeiros interessados na paz e desenvolvimento de Moçambique?
Por Deus, deixem de brincar com o povo moçambicano!

Delmar Maia Gonçalves
In Revista "África Today" nº91
Lisboa, Janeiro de 1996.

domingo, 4 de outubro de 2009

As hipóteses de Obama...
E se Barack Obama fosse Africano?
Jamais chegaria à presidência de um país. Seria considerado Africano de segunda. Mandavam-no para a terra da mãe(contrariando o habitual que enviarem-no para a do pai) . Chamar-lhe-iam branco de terceira. Redigiriam uma nova Constituição que impedisse a sua eleição, tendo em conta a sua genealogia familiar. Já estaria provavelmente morto. Não passaria de um miliciano. Jamais poderia ser Marechal. Jamais poderia ser Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas. Jamais poderia ser General. Jamais poderia ser Coronel.
Por fim, não seria jamais o Presidente dos Estados Unidos da América, adiando o "futuro" ad aeternum.


Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 29 de Setembro de 2009.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Femme II


Je veux t'atteindre
T'être fidèle
Quelque choce m'en empêche
Je le sens
Peut-être que cela fasse parti de
Mon être mefiant et prudent
Pour te vouloir
Je prefère être seule
Pardonne-moi être infamme et Merveilleux.

Delmar Maia Gonçalves
Parede, 21 de Dezembro de 1994.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Metisse

Quelle condition
que celle d'être
qui je suis...!
pour être africain pleinement
je dois admettre être
ce que je ne suis pas
pour être européen de
plein corps
je dois feindre et
chercher à être ce que
je ne suis pas
quel dilemme
que d'être
ce que je suis
etant ce que je ne suis pas!

Delmar Maia Gonçalves
Parede, 15 de Dezembro de 1996.


Ilustração:De David Levy Lima
(Artista Plástico de Cabo-Verde)
Lisboa, 2006

Mulher Africana


Tu mulher
que no teu ventre
criaste vida
Tu mulher
que sofreste
que não viveste
que foste humilhada.
Olha no teu espelho
e sorri


Sorri para essa vida
Que é parte de ti.
Não deixes que te
apontem!

Delmar Maia Gonçalves


Ilustração:
"Mulher Africana"
de Tânia Ferreira
(Artista Plástica e Professora de EVT)
Lisboa, 2008.

domingo, 20 de setembro de 2009

As Eleições Moçambicanas

O não funcionamento de várias comissões para implementação do cessar-fogo acordado e da preparação para as futuras eleições marcadas para Junho deste ano não estará naturalmente a facilitar o cumprimento do acordo alcançado nem a fortalecer o processo de paz.
Esta situação poderá certamente precipitar Moçambique para uma situação semelhante à de Angola, o que poderia transformar-se numa catástrofe de consequências imprevisíveis.
No interesse do ovo moçambicano,o Governo de Moçambique (da FRELIMO) e a RENAMO deveriam concordar com o delegado da ONU e adiarem as eleições para Junho de 1994.
Entretanto, deveriam integrar o elenco governativo actual, até lá, elementos da FRELIMO, RENAMO, MONAMO, FUMO, UNAMO, e CUNIMO, que são os principais partidos moçambicanos, em minha opinião.
A formação de um Governo de Unidade Nacional é imperativa porque, penso eu, acelararia e fortaleceria o processo de Paz moçambicano.
(...)
Delmar Maia Gonçalves
In Revista África Hoje
Lisboa, Março de 1993.

Identidade

(...)
Temos de ser realistas! Se querem falar de identidade moçambicana saibam então de que nela estão incluídos os povos do Norte, Centro e Sul de Moçambique, isto sem distinção de raça, etnia, tribo, religião ou partido político! Ou então não existirá jamais uma identidade verdadeiramente moçambicana. (...)


Delmar Maia Gonçalves
In Revista África Hoje
Novembro/Dezembro de 1996.

sábado, 19 de setembro de 2009

Rui Knopfli

Expresso a minha enorme gratidão, em jeito de homenagem ao Poeta-Maior Luso-moçambicano Rui Knopfli, falecido no passado dia 25 de Dezembro de 1997, em Lisboa, pelo grande contributo e enriquecimento que deu às culturas moçambicana e portuguesa bem como para o reforço da amizade, compreensão e cooperação entre os povos de Moçambique e de Portugal.
Bem haja, senhor poeta Rui Knopfli!

P.S. Quem ama África e a poesia não pode ficar indiferente!


Delmar Maia Gonçalves
in Revista "África Hoje"
Março, 1998.

Momentos

Há momentos para sorrir

momentos para chorar.

Momentos para amar

momentos para odiar.

Momentos de paz

momentos de guerra.

Há um momento para viver

e outro para morrer.

Nós somos a obra perfeita

em busca da perfeição.



Delmar Maia Gonçalves

Parede, 13 de Abril de 1996.
Ilustração da capa do livro "Moçambique Novo, o Enigma":
"Mãe Negra, o filho e o pássaro mensageiro"
Mestre Livio de Morais
(Artista Plástico e Professor de História de Arte)

Nelson Mandela

Quando o Queshua perguntou curioso
Quem é Mandela?
Respondi-lhe: um homem íntegro!
Quando o Chinês perguntou confuso
Quem é Mandela?
Respondi-lhe: um homem do povo!
Quando o Makonde perguntou
Quem é Mandela?
Respondi-lhe: um sábio Soba da
primeira linha!
Quando o Alemão perguntou desconsolado
Quem é Mandela?
Respondi-lhe: um homem negro!
Quando o Americano perguntou desconfiado
Quem é Mandela?
Respondi-lhe descontraído: um Líder Africano!

Delmar Maia Gonçalves
Madorna, 18 de Março de 1996.

Em Moçambique já não há corvos

Mau agoiro
aquele que
os Corvos
trazem com a sua
anunciada presença.

Bom agoiro
aquele em que
se anuncia
a ausência dos Corvos.


Delmar Maia Gonçalves
Lisboa/Parede, 8 de Junho de 2001.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Mahatma Gandhi


















Com o Satyagraha
Venceu os ingleses
Uniu Hindús e Muçulmanos,   Cristãos e Protestantes,
Sikhs e Jainistas,
Vedistas e Budistas,


Na Ásia

na Europa,

em África

nas Américas,

nas Arábias...


Ama-se Gandhi,

Critica-se Gandhi,

Louva-se Gandhi,

Lembra-se Gandhi,

Odeia-se Gandhi,

Segue-se Gandhi,

Venera-se Gandhi.


E Gandhi,

ficou na Memória

do Mundo.


Sendo Morto,

Ficou Imortalizado.



Delmar Maia Gonçalves

Parede, 19 de Março de 1996.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O vento

Estava a pensar
sentar-me ao relento
para sentir a frescura do vento.

Estava a pensar
dormir ao relento
para domar a força do vento.

Mas o vento
é açambarcador
não posso estar por isso
ao relento.


Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 10 de Fevereiro de 2001.

Martin Luther King II

                             Tua consciência
não é escrava.
Tua vida
é um hino
à liberdade.
Teu exemplo
é um poema
para a eternidade.


Delmar Maia Gonçalves
Monte Estoril, 11 de Abril de 2004.

Mulher é...


Luz do poeta
Fogo que arde
E sente
Candeeiro
E chama
Chamamento infinito.


Delmar Maia Gonçalves
Carcavelos, 09 de Maio de 2005.

Mulher XXI


Se os teus
Olhos falassem
Comeria
Tâmaras no
Sepulcro sacro
Da minha ignota
Existência.


Delmar Maia Gonçalves
Parede, 5 de Junho de 2004.

Mulher MM


Sinto alegria
Por aqui estares
E tristeza
Pela tua ausência.


Delmar Maia Gonçalves
Parede, 02 de Novembro de 2003.

Mulher XXXI


Sinto saudades
De momentos
Que contigo
Não vivi.


Delmar Maia Gonçalves
El Escorial/Espanha, 11 de Junho de 2004.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Denuncio...

Denuncio
Os plagiadores do alheio
Denuncio
A preguicite mental
Denuncio
Os "Escritores"
Que não são operários da palavra
Denuncio
Os críticos a pancarta de doutores
Denuncio
A mediocridade livresca
Denuncio
A vaidade saloia
Denuncio
O mediatismo vazio
Denuncio
A crítica passiva
E a ausência de racionalismo


Inédito
Delmar Maia Gonçalves
Parede, 27 de Agosto de 2009.

domingo, 13 de setembro de 2009

Quelimane minha namorada

Se poeta sou
Tu és minha poesia
Se prosador sou
Tu és minha prosa
Se escultor sou
Tu és minha escultura
Se pintor sou
Tu és minha pintura.


Delmar Maia Gonçalves
Maputo/Parede, 12 de Agosto de 1985.

De Corpo Inteiro

Ao Poeta Bocage


Magro
de estatura média
olhos azuis como o mar
nariz alto
eis o Elmano do Sado
da Pena
Lusitano de fado embora,
não renegou
sua veia rebelde
"vive la Revolution!"
por isso cantou
hinos à Liberdade
com sua alma lusitana.
Foi devoto
de mil deidades
num momento e para a eternidade.
Converteu-se
ao deus Baco.
Mil tormentos passou.
Abraçou
o deus Marte
para infelicidade dos frades.
Tarde chegou
seu desânimo com o arrependimento
porque aos céus ultrajou.
Viveu o fado dos génios.
Seu Dezembro fatal e negro chegou
e ele imortalizado ficou
com a paz do sepulcro.


Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 26 de Junho de 2005.
Amor é a fronteira que está entre a paixão e o ódio.


Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 28 de Outubro de 2002.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Tu és...

Tu és
a bússola que
indica a minha luz
Tu és
meu único sentido
e rumo
Tu és
minha razão de
ser e estar.

Que dizer de
uma bússola sem Norte?
Que dizer do
Sul sem bússola?
Que dizer de alguém
sem rumo?
Que dizer de alguém
sem razão de ser e estar?

Delmar Maia Gonçalves
Parede, 6 de Julho de 2008.
“A paz é de todos ou não é de ninguém”
João Paulo II

Ser nobre é uma virtude
“Et errare humanum est”


Embora se tenha alcançado o essencial para Moçambique: a paz em todo o território nacional, e esta esteja a ser consolidada. Não seria todavia negativo, antes pelo contrário muito nobre que o governo moçambicano, o partido FRELIMO e o partido RENAMO (M.N.R.) pedissem desculpas e perdão a todo o povo moçambicano pelos dezoito anos de excessos, (violações do direitos humanos, vinganças pessoais, erros graves na governação do país, muitos abusos de poder e massacres em várias povoações na guerra civil de parte a parte. Esta atitude cairia bem nos gravemente lesados cidadãos moçambicanos ou estrangeiros residentes no país ou daqueles que abandonaram o mesmo pelas razões apontadas.
De resto, o governo sul-africano nosso vizinho soube ser inteligente quando formou a Comissão da Verdade e admitiu através do African National Congress ( A. N. C. ) liderado pelo “Madiba” e grande Soba Nelson Mandela, pelos excessos por si cometidos ou por outra, pelos seus guerrilheiros e membros. Hoje até os Boers alinham um pouco pelo mesmo diapasão, embora de forma mais tímida e envergonhada, e também por isso menos inteligente.
Nós sabemos que a governação da República de Moçambique pelo menos até à assinatura do histórico Acordo de Roma “a cidade eterna”, não terá sido só um poço de virtudes antes pelo contrário, foi um acumular de erros sucessivos que se veio a agravar com a guerra civil e a desestabilização Rodesiana e Sul-Africana.
É claro que houve mudanças positivas, muitas coisas positivas aconteceram, mas estiveram longe de satisfazer por completo os moçambicanos, a prova foram os dezoito anos da traumática guerra civil com as suas avalanches de mortes, desaparecimentos, órfãos, viúvas, massacres, mutilados, deficientes, fome, miséria, desinvestimento, falta de quadros e um sem número de traumatizados de guerra.
O povo moçambicano não foi, nem é rancoroso! É pacífico! Mas merece certamente mais atenção, consideração e respeito. E é bom que haja da parte dos políticos moçambicanos de todos os quadrantes sempre consciência dos erros cometidos e coragem para admiti-los e dos defeitos, não só das sagradas virtudes! Virtudes todos nós temos, mas também defeitos por mais pequenos que sejam.
E para bom entendedor meia palavra basta!


Delmar Maia Gonçalves
In “Africamente”
Parede

O que nos impele
a sermos quem somos,
sendo múltiplas vezes
o que não somos?


Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 23 de Agosto de 2009.


Ilustração:
"Mestiço"
De Isabel Carreira
(Artista Plástica, Professora de Literatura Portuguesa e Inglesa e Mestre em Relações Interculturais)
Lisboa, 2006.

TOMBA-TOMBA OURIÇO-CACHEIRO

Para Luna Delmar


Tomba
o Ouriço
que é Cacheiro
Tomba
o Cacheiro
que é Ouriço
e ganham
a viagem e o sonho
os meninos e meninas
amigos do Ouriço
que é Cacheiro!

Delmar Maia Gonçalves
Parede/Lisboa, 1997.

Ilustração:
"Teoria das Multidões"
De Fernando Grade
(Poeta, Escritor, Crítico de Arte e Artista Plástico)

domingo, 23 de agosto de 2009

Mulher IX

Basta um olhar
para te sentir.
Basta um sorriso
para te compreender.


Delmar Maia Gonçalves
Parede, 19 de Fevereiro de 2001

Femme IX

Il suffit d'un regard
pour te sentir
Il suffit d'un sourir
Pour te comprendre.


Delmar Maia Gonçalves
Parede, 19 de Fevereiro de 2001.

sábado, 22 de agosto de 2009

A Propósito da Poiesis

Ao ser convidado para escrever o prefácio/reflexão da Poiesis, pensei em poesia.
A poesia é algo que retrata o complexo e dinâmico equilíbrio instável entre a ordem e o caos, tentando assim interpretar o real, na sua forma mais sensível, o que por si só se torna complexo.
Todos os pontos tentam expressar tudo isto além de alcançar a “expressão de si próprio” com mais ou menos simplicidade e mais ou menos hermetismo.
A linguagem poética é de longe, a linguagem humana mais perfeita, mais original e rara. Como dizia Octávio Paz, “se os líderes lessem poesia, seriam mais sábios”. Acontece que não o fazem.
Poiesis é poesia pura, é paixão, é sabedoria sem sistema, contrariando o gigantesco sistema literário vigente que se mostra fechado, triste, inócuo e pouco profícuo.
Como dizia o genial Tom Peters, a propósito do complexo fenómeno educativo “ou há paixão sem sistema ou sistema sem paixão. É preciso ter as duas coisas.”
Na poesia é assim, ou há paixão ou ela não existe.
A grande diversidade de textos poéticos (em prosa e poesia) apresentados neste projecto, é o garante da sua originalidade e da extrema riqueza que constituí a obra.
Esta obra não é apenas mais um espaço de divulgação poética e para-poética, é um espaço aberto com dimensão cultural alargada e única. É a lusofonia em ebulição, verdadeira, concreta, que nem os políticos são capazes de construir e muito menos de destruir porque dá um sentido profundo aos processos criativos na Língua Portuguesa, língua mãe em tantos e tão diversos espaços criativos.
É um espaço que não é hesitante, pelo contrário é futurista, pluricultural, “intercultural e multicultural” por excelência.
Acredito que a despeito da diversidade e multiplicidade do fenómeno literário, é possível construir-se uma poética universal ou um discurso homogéneo, situando-se a literatura numa espécie de zona incontaminada das ideologias , conferindo-se-lhe um prestígio especial e isolando-a de todas outras formas de discurso.
Nesta perspectiva, discutir o cânone significa questionar um sistema de valores instituído por grupos detentores de algum poder cultural, que legitimaram um repertório, com um discurso, por vezes, classificado de globalizante; esta questão prende-se com a exclusão de uma significativa produção literária vigorosa, oriunda de grupos minoritários nos centros hegemónicos, e da desclassificação ou inclassificação de uma crescente e significativa, produção literária.
Que continue pois a poesia a florescer, surgindo e ressurgindo, nascendo e renascendo, crescendo e amadurecendo! É bom para a literatura universal.


Delmar Maia Gonçalves
Parede/Wimbledon/Londres, 25/28 de Agosto de 2006

Moçambique, minha Pátria, minha Mátria


Vim de uma grande e longínqua casa
onde vivi minha infância
e cresci
Onde brinquei
e fui feliz

Tinha donos e servidores.
Mas os donos
não eram donos!
Os verdadeiros donos eram
os servidores.

Havia total domínio dos donos
sobre os servidores
Mas havia também uma revolta silenciosa
nos servidores

Por vezes haviam reclamações dos servidores
aos “donos”
Soava então, o chicote.
Os servidores acatavam as ordens
dos “donos”

Um dia de madrugada
um galo cantou e nasceu o sol com
a revolução
E os servidores passaram a senhores
e os “donos” a nada

Alguns “donos” fugiram,
outros ficaram a trabalhar em igualdade
com os servidores.

Os campos tornaram-se férteis
A prosperidade estava no horizonte,
Já se cantava a esperança.

Até que um dia
chegou uma praga
de “ratos”
Eram a morte!
Roeram tudo.

Apesar das dificuldades
a esperança de melhores dias
Não morreu
E ainda hoje se
canta a esperança.

Delmar Maia Gonçalves
Parede, 04 de Março de 1986

Ilustração:
"Ouvindo melodias em noites melancólicas"
De Roberto Chichorro
(Artista Plástico Moçambicano)
Lisboa, 2002.
Lisboa,



Forever to be a child


Forever I wished
To be a child
I wished
To be Free as a bird
Pure as a flower
I wished to play
To run
To jump
To smile
Always to smile
And forever to be a child.

Delmar Maia Gonçalves
Quelimane, 11 de Agosto de 1984

Ilustração:
De David Levy Lima
(Artista Plástico de Cabo-Verde)
Lisboa, 2006

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Matusse na Sala de Aula

“Sê paciente na adversidade e constante na prece”
Romanos 12:12


MATUSSE NA SALA DE AULA

Matusse era uma criança negra moçambicana com seis aninhos. Tinha uns enormes olhos castanhos e era diferente de todas as outras. Muito atento, educado e respeitador, estudava na segunda classe do ensino primário, na Escola Primária de Sinacura em Quelimane e parecia entender tudo o que a Professora Irmã Ester dizia, por isso é que quando o interpelava, ele respondia prontamente.
Ah, mas a sua principal virtude na sala, era a de respeitar todos os colegas e os seus haveres, embora modestamente não exigisse nunca o mesmo dos outros.
O tempo passava, no entanto, qualquer coisa de grave se passava com ele ultimamente, o seu silêncio denunciava algo estranho, muito estranho!
Em certas alturas, isso era mais do que evidente. É que ele adormecia agarrado aos livros e cadernos, habituado que estava aos roubos frequentes no seu bairro na Missão de Coalane, nos chamados subúrbios de Quelimane. Algo perfeitamente anormal.
Mas porque estaria o Matusse tão triste? Porque adormeceria ele em plena aula?
Castiano, um seu amigo muito próximo, confidenciara-me que Matusse saía de casa de manhã sem tomar o pequeno almoço e não levava consigo nunca uns míseros trocados para comprar uma patanicua. É que ele adorava patanicuas! Mas nem para isso ele tinha dinheiro.
Por vezes a velha Vitória, a que vendia as patanicuas, com muita pena lhe dava apenas uma. E com muita pena mesmo, pois, por um lado, sempre lhe eram úteis uns trocados e por outro tinha muita afeição por Matusse. E tinha tão bom coração aquela velha!...
Mas à tarde o Matusse voltava novamente à escola sem almoçar. É que a sua mãe trabalhava e almoçava no local de trabalho (na fábrica de cervejas, como empregada de limpeza), e o seu pai desempregado, era um alcoólico degenerado. E o dinheiro das esmolas que se destinava ao almoço acabava sempre na taberna do Sô Reis no velho bairro popular.
E até ao final do ano lectivo, o quotidiano do Matusse era sempre o mesmo. Não tomava o pequeno-almoço, adormecia na aula porque não almoçava. Seus pais não o entendiam, nem tinham tempo para ele, a professora andava demasiado ocupada com todos para pensar unicamente no caso deste bom aluno que adormecia em plenas aulas.
E o resultado disto foi o chumbo surpreendente daquele que poderia ter sido o melhor aluno da turma, mas que não tivera a estrela da sorte do seu lado, nem os Deuses.

Delmar Maia Gonçalves
Olivais/Lisboa, 25 de Junho de 1995.

Glossário:
Patanicua -
doce de açúcar com coco ou farinha.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Mulher XV


Teus olhos
um íman inevitável.
Teus lábios
um chamamento inigmático.
Teu corpo
um convite vedado.
Tua vida
um mundo de paixões.

Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 1997.

Ilustração:
"Mulher XV"
Alexandra
(Artista Plástica)
Lisboa, 2001.

Lírio do Campo


Percorri-te
de Norte a Sul
Amei-te
desesperadamente
perdidamente
apaixonadamente.
Li-te poemas
de Neruda.
Amplexos ardentes
nos envolveram.
Terá sido
amor ou paixão?
Ao percorrer-te as ilhas
dos seios,
pensei nos dois.
Amei-te loucamente
Desejei-te permanentemente,
folgadamente
Não fora
a tempestade maternal
e teria criado
raizes em ti.

Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 19 de Março de 1996.

Ilustração:
"Mulher XVIII"
De Alexandra
(Artista Plástica)
Lisboa, 2001.

Mulher XXIX


De comum
tinham apenas
meu desamor,
e a paixão
que por mim
nutriam.
Com ambas
partilhei
cumplicidades.
Fica a mágoa
de termos
sido egoístas.
Queria amor
deram-me paixão.
Queriam amor
Dei-lhes desamor.


Delmar Maia Gonçalves
Lisboa, 12 de Outubro de 2001.


Ilustração:
"Mulher XXIX"
Alexandra
(Artista Plástica)
Lisboa, 2001.

Voltarei

Aos povos do Uganda, Serra Leoa, Libéria, Cabinda, Palestina, Sahara Ocidental e Tibete.

Tu uma pérola no Índico
E eu
Um viandante
Encalhado no atlântico

Estou longe
Muito longe
Atravessei mares e oceanos
Escalei montanhas e planaltos
Percorri florestas e desertos

A marcha foi longa
Mas tem retrocesso

Um dia descobrirás
O atlântico já descobriu
E vai devolver-me.

Voltarei
Partiremos então
Em viagem nupcial
Que vem de longe com o tempo
E iremos à Zalala
Numa simbiose ímpar.

Como sempre:
Eu sou tu, tu és eu
Não te esqueças
Moçambique
Voltarei!

Delmar Maia Gonçalves
Parede, 05 de Julho de 1995.


Glossário:
Zalala –
Praia que fica nos arredores de Quelimane.

Ilustração:
"Voltarei"
De Fabio Inglese
(Artista Plástico Italiano)
Lisboa, 2007.

Deixem-me Sonhar


Deixem-me sonhar
Um sonho que não me pertence
Deixem-me sonhar
um sonho que seja para
além do sonho
Deixem-me sonhar
um sonho em que as utopias humanizantes
se tornam realidade
e os pesadelos desumanizantes
se tornam utopia.
Deixem-me sonhar
um sonho em que a paz
entre os homens seja encontrada
muito para além das palavras e selos.

Delmar Maia Gonçalves
Sintra/Parede, 25 de Maio de 2003.

Ilustração:
"Deixem-me Sonhar"
De Cristina Araújo
(Artista Plástica e Professora de Educação Visual e Tecnológica)
Lisboa, Setembro de 2008.


Criança, Mulher e Filha

Para Luna Delmar

Queria contar-te
o quanto este mundo é belo.
Queria contar-te
quanta alegria trazem as crianças
que nascem um pouco por todo o lado.
Queria contar-te
que apesar das dificuldades da vida
haverá sempre uma saída razoável,
aceitável, possível.

Queria expressar-te
todo o amor que sinto por ti
Queria expressar-te
todas as alegrias que tive na vida.

Queria falar-te
das minhas apreensões e medos
Queria falar-te
das armadilhas que o mundo tece.

Queria falar-te
das ilusões que nos transmitem
diariamente
Queria falar-te
das riquezas provenientes
da diferença.
Queria falar-te
da beleza da fantasia.
Queria falar-te
da pureza da natureza
e da sua vitalidade.
Queria falar-te
de Moçambique, minha pátria amada.
Queria falar-te
das virtudes da paz
e dos horrores da guerra.
Queria falar-te,
por fim, da inevitabilidade
da morte.

Delmar Maia Gonçalves
São Domingos de Rana, 7 de Abril de 1999.

Ilustração:
"Para Luna Delmar..."
De Vera Novo Fornelos
(Poetisa e Artista Plástica)
Viana do Castelo, 2007.

Queria que o meu país...


Eu queria que o meu país
fosse feito de alegria
Queria que no meu país
não houvesse ódio
Queria que o meu país
não conhecese a guerra
só amor em abundância
amor e muita criança.
Mas com a barriga cheia!
Queria que o meu país
fosse um país sem tristezas
um país sem agressão
e que houvesse sempre pão.
Queria ver o meu país
Como um enorme jardim sem igual
cheio de Acácias,
Buganvílias e Cravos.

Delmar Maia Gonçalves
Quelimane, 4 de Abril de 1984.

Ilustração:
De Roberto Chichorro
(Artista Plástico Moçambicano)
Lisboa, 2002.

Singularidade Africana


Quando carrego no “d”
Alguns doutos ignorantes
Riem-se da inovação
Quando mastigo um “r”
Lá vem a correcção dos
Supostos eruditos
Quando me pronuncio
Moçambicanamente
Alguém expressa
Um sorriso estridente
Quase incontínuo
Deixem-me dar o grito
Que não é do Ipiranga
Mas que o é.
- Caramba!
Escrevo o país de mim
Falo o povo de mim
Falo o espaço que é meu
Canto o canto que é meu.

Ninguém compreende
Minha singularidade
Talvez Camões
Compreendesse
E eu danço nela.
Delmar Maia Gonçalves
Parede/Lisboa, 25 de Agosto de 1993.

Ilustração:
"Singularidade Africana"
De Isabel Carreira
(Artista Plástica, Professora de Literatura Portuguesa e Inglesa e Mestre em Relações Interculturais)
Lisboa, 2006.

Tabuleiro de Xadrez


Sou o que sou, não o nego,
para os negros sou mulato
ou misto
Para os brancos sou preto ou mulato
E eu sou igual a mim próprio
e resultado do famigerado
jogo de xadrez
de quadrados pretos e brancos,
numa simbiose ímpar.
Sim, sou só comparável
ao tabuleiro de xadrez
de Tenreiro
Enquanto dois intervenientes
disputam um argumento,
eu abstenho-me
calado.

Delmar Maia Gonçalves
Maputo/Parede, 2 de Fevereiro de 1985.


Ilustração:
"Tabuleiro de Xadrez"
De Isabel Carreira
(Artista Plástica, Professora de Literatura Portuguesa e Inglesa e Mestre em Relações Interculturais)
Lisboa, 2006.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O Rei de Kanem Borno as Sete Esposas

Quando um homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe é favorável”.
Séneca

O REI DE KANEM BORNO E AS SETE ESPOSAS
Era uma vez, no longínquo reino africano de Kanem Borno – junto da actual Nigéria moderna (em 1067 o historiador Espano-Árabe El Bekir descreveu a extensão deste território como indo do Lago Chade até ao rio Níger a oeste; Kanem dominava toda a rota comercial do leste através do deserto do Sahara quase até aos arredores de Tripoli bem como a região Wadai até à parte superior do Nilo além da sua sede na área do lago Chade) – governado por um sábio, poderoso e generoso rei, Mai Dunama Dabalemi, que tinha sete esposas. Seis eram nobres africanas e uma, a sétima, nobre asiática que lhe tinha sido oferecida pelo grande sultão industânico Sultan Singh Rai, que visitara o reino acompanhado da sua esposa, para incrementar as trocas comerciais e as relações diplomáticas e de amizade.
O rei dedicava um dia a cada uma das suas belas esposas.
Todas tinham tratamento igual; não havia ciúmes ou inveja entre elas. Até que, um dia, o rei reuniu com o Conselho dos Anciãos e este deliberou que se devia nomear uma rainha das rainhas entre as suas sete esposas.
A ambição surgiu como um primeiro sinal de mudança de atitude nas esposas do rei. Todas queriam ser nomeadas rainha das rainhas com excepção da asiática, que dizia nunca ter ambicionado a tanto, pois era uma estrangeira.
Mas o destino dela estava traçado e era precisamente favorável à sua nomeação como rainha das rainhas. O povo também a amava por possuir bom coração.
Decidiu o rei e o conselho de anciãos aprovou. Tornou-se rainha das rainhas.
O rei ficou muito feliz, pois achava a sua sétima esposa bela, simples e muito leal. Tal não sucedia relativamente às outras que embora belas tornaram-se caprichosas.
Começaram então os problemas para o rei e para este reino de tranquilidade.
As seis belas esposas descontentes elaboraram um maquiavélico plano que visava a morte da rainha. Na verdade, tratava-se de uma conspiração que tinha o apoio de alguns elementos influentes na corte central.
Informado pelos seus leais espiões e súbditos, o rei apercebeu-se da conspiração e mandou cortar as cabeças das suas seis esposas, juntamente com as dos seus conselheiros acusados de traição, tendo optado por ficar definitivamente com uma esposa apenas, a rainha.
Segundo ele, ter mais do que uma esposa só trazia disputas, problemas e conflitos, e nunca a paz de que todos necessitamos. Paz com Deus, com os outros, com a vida, com o mundo e connosco próprios.
Finalmente, o rei reuniu com o Conselho dos Anciãos e decidiu que ninguém do reino poderia ser polígamo, isto é, ter mais do que uma esposa, decisão apoiada e votada por maioria consensual.
O rei e a rainha viveram juntos e felizes para sempre. Ele generoso, justo, magno, poderoso e sábio como sempre e ela, bela, bondosa, leal, e simples.

Delmar Maia Gonçalves

(Escritor e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD)
Parede, 10 de Junho de 1988.


Glossário:
Kanem Borno – Um antigo reino africano da Nigéria.
Mai Dunama Dabalemi - Antigo rei do Kanem Borno.

Ilustração:
"O Rei de Kanem Borno e as sete esposas"
De João de Barros
(Artista Plástico e Arquitecto Guineense)
Lisboa, 2008.


Malfez Razão

“Se podemos sonhar, também podemos tornar os nossos sonhos realidade.”
Walt Disney

Malfez Razão
O menino africano que queria ser génio
Era uma vez um menino Moçambicano, de nome Malfez Razão dos Santos, nascido nos arredores de Quelimane, que queria ser génio. Não, não era europeu, nem era branco (condição número um para ser considerado como tal na Europa, nem tinha grandes padrinhos brancos, era negro mas queria ser como Einstein, Cervantes, Camões, Mozart, Platão ou Sócrates. Era apenas mais um jovem ambicioso, mas africano!
Quando lhe perguntavam “Quando fores grande o que queres ser?”, ele dizia de pronto: “- Quero ser um génio, um cientista! No meu país já há maningues políticos e militares!”
Na verdade, nisso até tinha razão; por vezes na vida há coisas que pecam por excesso. E no nosso país não é excepção!
Mal o menino atingiu a maioridade, mamã Vitória mandou-o para a Europa, onde foi estudar com uma bolsa de estudo da Igreja Católica, conseguida com muitos sacrifícios, isto é, com muito suor e com uma boa “cunha”!
Chegado a Paris, cidade das luzes, descobriu que havia tudo menos vagas para génios. Quanto às luzes, nem vê-las! Era apenas uma metáfora!
Mas decidiu não desiludir mamã Vitória, que dizia com muito orgulho na terra: “- Meu filhinho foi estudar mesmo na Europa para ser gente importante como os políticos igual a Mandela ou o grande Poeta Craveirinha!”
No mundo ocidental há tanta promiscuidade, tantas tentações, tanta atraente ostentação, que tornam o homem um ser frágil, inconstante, inseguro, indefeso e vulnerável o que dificulta o propósito de alguém que quer ser génio ou que já é genial. Com a agravante de haverem também os jogos de interesses , o preconceito, o “racismo” e a “xenofobia”, isto é, funciona em geral segundo a lógica da exclusão.
Malfez Razão, que ganhou uma bolsa de estudos que servia para cinco anos, (graças à mamã Vitória!), o suficiente para iniciar e terminar um curso superior, decidiu ficar, mesmo que fosse só para não desiludir mamã Vitória, pensando sempre para consigo: “- Chiçá, não volto agora para o meu país, lá há maningues políticos, pobreza e miséria, e mamã Vitória ficaria triste comigo!”
Depois de sete anos na Europa, regressou à terra, não como génio, mas como um bêbedo inveterado, daqueles que não fazem falta em lado nenhum. Mas mamã Vitória, já mais velhinha mas sempre sábia, subtil e bondosa, ia dizendo às amigas no seu jeito maroto:”- Coitado do meu filhinho; é capaz estudou tanto que ficou doido! Mas é capaz parece os génio são todos maluco completamente, não é?”
E assim viveu mamã Vitória até ao último suspiro, com um filho alcoólico (eterno candidato a génio!) e a sua eterna verdade da mentira.


Delmar Maia Gonçalves
(Escritor e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD)
Parede, 5 de Janeiro de 1996.

Glossário:
Maningue - muito
Maningues – muitos
Craveirinha – José Craveirinha, poeta e escritor moçambicano.
Mandela – Nelson Mandela, primeiro presidente negro da República da África do Sul.

Ilustração:
"Malfez Razão"
De Fabio Inglese
(Artista Plástico Italiano)
Lisboa, 2007.


Recado aos Senhores Doutores

“A cega ignorância é que nos engana. Ó míseros mortais, abri os olhos!”
Leonardo Da Vinci

RECADO AOS SENHORES DOUTORES
Por vezes « a montanha acaba por parir um rato », diz um velho ditado.
Em tempos, ouvi com atenção meu avô dizer « mais vale prevenir do que remediar » e « mais vale andar devagar e bem, do que depressa e mal ». E, de facto, tinha razão!
Embora respeite as pessoas por aquilo que são, e não por aquilo que aparentam ser, não me apraz nada registar que não há regra sem excepção, isto é, pela negativa há pessoas que são o que são, mas também aparentam ser aquilo que são!
O certo é que quando afirmamos “para ser verdadeiro..., em pura verdade...”, as mais das vezes estamos a ser falsos; quando insistimos que“ nada temos contra os negros, nada temos contra os árabes muçulmanos” é porque somos demasiado pelos cristãos, é porque somos demasiado pelos brancos; e quando passeamos pelas ruas e pelos media a pancarta de doutor, é porque de doutor nos sobra o nome.
Para bom entendedor meia palavra basta. Não é o título académico de «doutor» que nos fará deixar de ser modestos e humildes nem são os cargos oficiais que nos tornarão egocêntricos, snobs e nos farão olhar para os «outros» de alto a baixo, que o céu até tem dono!! Ou não será?
Na verdade, até nos dava muito prazer juntarmo-nos aos não académicos, em suma, ao povo iletrado, para lhes mostrarmos o caminho que nos parece mais acertado! Seria mais nobre e, para além disso, só ficaríamos a ganhar; mesmo que fosse só em simpatia e generosidade!
Os cargos oficiais são temporários, não são vitalícios. O povo, esse sim, é eterno ou pelo menos, eterniza-se para além da vida!
É preciso que reflictam na importância que tem o nome que nos é atribuído. Já pensaram no significado e no valor que cada nome encerra, senhores “doutores”? Já pensaram que antes de sermos «doutores» já tínhamos um nome? Já éramos aquilo que somos? Sabiam que esses nomes nos remetem para as nossas origens?
Valerá a pena ignorar as nossas origens, a formação humana, as relações humanas em nome da formação académica, ou de um cargo oficial? Em nome da dominação vale a pena mudar o mundo?
O modo de pensar ocidental tem sido massivamente impregnado e perversamente estruturado pela lógica do “terceiro excluído”. Dito por palavras mais concretas, pela “lógica da disjunção”, e da exclusão. Quer dizer, ou se é verdadeiro ou se é falso; ou se é “preto” ou se é “branco”; ou se é bom ou se é mau; ou se é homem ou se é mulher; ou se é doutor ou não se é.
“Ser ou não ser”, estigmatizava-nos sempre e eternamente Shakespeare. Estigma de mais de trezentos anos, repisando a marca disjuntiva de Aristóteles. Acontece, no entanto, que a vida não funciona segundo a lógica da exclusão. Nem a vida, nem nós, nem os mais simples cidadãos deste mundo, nem por sinal os nossos “eternos” e enigmáticos políticos.
Sou demasiado pequeno para isso, demasiado cobarde para tamanha façanha, sou mesmo um fraco, mas senhores doutores, na verdade, não me pude conter e, vai daí, aquele desabafo. Quero que tenham em atenção todo este tempo em que permaneci calado, muito calado! Chega! Basta! Acredito na liberdade!

Enfie pois, a carapuça quem quiser!
Delmar Maia Gonçalves
(Escritor e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora - CEMD)
Parede, 04 de Agosto de 1999.